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Abjetificação, ininteligibilidade de gênero e a “socialização masculina”

Abjetificação, ininteligibilidade de gênero e a “socialização masculina”

Nessa semana tivemos uma polêmica sobre uma fala transfóbica da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Laverne Cox e até Angela Davis postaram textos sobre o ocorrido em suas páginas no Facebook. Esse caso acabou por levantar um debate importante e esse texto decorre disso. Não quero, de modo algum, que ele seja uma resposta ou um ataque a Chimamanda — uma escritora brilhante, autora de alguns dos meus livros preferidos. Mas quero expor a minha visão — apoiado em Judith Butler — sobre a chamada “socialização masculina”.

Por Rique Marques Do Medium

A cultura é o destino?

Simone de Beauvoir já havia criticado a ideia de Freud de que a anatomia é o destino em 1949, quando ela publicou “O segundo sexo”. Não, a condição feminina não é definida apenas por dados anatômicos, isso é determinismo biológico.

Ela inaugura uma onda de pensadoras feministas que vão afirmar que o gênero é uma construção social — e ainda que ela mesma não utilizasse a palavra, o conceito de gênero já estava delineado em sua obra.

Quando Chimamanda reconhece que mulheres trans são mulheres, mas diferencia mulheres trans de outras mulheres em função da socialização, ela opera um certo determinismo social/cultural. Não estamos negando que existam diferenças (recíprocas) e especificidades. Mas ao estabelecer que essas diferenças acontecem porque, de acordo com ela, mulheres trans são inevitavelmente socializadas como homens, Chimamanda dá a esse processo de construção do gênero um caráter determinista, que retira a agência do sujeito. Como se essa “socialização masculina” que ela acredita ser parte da vida das mulheres trans fosse algo de que elas não poderiam escapar. Como se não houvessem outras possibilidades de construção do gênero. A cultura é colocada como o destino que substitui a anatomia. Em “Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade” Judith Butler escreve:

Se o gênero é construído, poderia sê-lo diferentemente, ou sua característica de construção implica alguma forma de determinismo social que exclui a possibilidade de agência ou transformação? (…) Em algumas explicações, a ideia de que o gênero é construído sugere certo determinismo de significados do gênero, inscritos em corpos anatomicamente diferenciados, sendo esses corpos compreendidos como recipientes passivos de uma lei cultural inexorável. Quando a “cultura” relevante que “constrói” o gênero é compreendida nos termos dessa lei ou conjunto de leis, tem-se a impressão de que o gênero é tão determinado e tão fixo quanto na formulação de que a biologia é o destino. Nesse caso, não a biologia, mas a cultura se torna o destino.

Oras, se o gênero é uma construção social, e não um destino biológico, qual sentido há em afirmar que corpos designados masculinos ao nascer foram obrigatoriamente “socializados” e generificados como masculinos? E ainda que o processo de invocação da masculinidade sobre esses corpos tenha acontecido, será que eles não poderiam reagir de formas diferentes? Esses corpos foram de fato em algum momento “masculinos”?

Se “a socialização masculina não falha” (frase que já li e ouvi muito por aí) o determinismo continua intacto. Descaradamente intacto.

Gêneros ininteligíveis

Judith Butler escreve em seu livro “Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto?” :

A capacidade epistemológica de apreender uma vida é parcialmente dependente de que essa vida seja produzida de acordo com normas que a caracterizam como uma vida, ou melhor dizendo, como parte da vida. (…) Essas condições normativas para a produção do sujeito produzem uma ontologia historicamente contingente, de modo que nossa própria capacidade de discernir e nomear o “ser” do sujeito depende de normas que facilitem esse reconhecimento. (…) Assim, há “sujeitos” que não são exatamente reconhecíveis como sujeitos e há “vidas” que dificilmente — ou, melhor dizendo, nunca — são reconhecidas como vidas.

Um “sujeito” só se torna reconhecível como sujeito se ele estiver em conformidade com a norma que produz os sujeitos. Aqueles “sujeitos” que não estão em concordância com a norma sequer serão reconhecidos como sujeitos e suas “vidas” não serão reconhecidas como vidas.

Em “Relatar a si mesmo: crítica da violência ética” ela escreve:

O que posso “ser”, de maneira bem literal, é limitado de antemão por um regime de verdade que decide quais formas de ser serão reconhecíveis e não reconhecíveis.

Trazendo isso para o campo do gênero (e da sexualidade), podemos afirmar que os sujeitos só serão reconhecidos se generificados — e se generificados de acordo com a norma. Isso significa que só serão reconhecidos como sujeitos aqueles corpos em que sexo, gênero e desejo estão conformados à matriz heterossexual. Esses terão uma identidade inteligível. Em “Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade” ela escreve:

A heterossexualização do desejo requer e institui a produção de oposições discrimimadas e assimétricas entre “feminino” e “masculino”, em que estes são compreendidos como atributos expressivos de “macho” e de “fêmea”. A matriz cultural por meio da qual a identidade de gênero se torna inteligível exige que certos tipos de “identidade” não possam “existir” — isto é, aqueles em que o gênero não decorre do sexo e aqueles em que as práticas do desejo não “decorrem” nem do “sexo” nem do “gênero”.

Ao contrário do que Chimamanda parece supor, um corpo designado como masculino não será inevitavelmente reconhecido como masculino — e, portanto, não desfrutará dos privilégios da masculinidade. Quando o gênero não decorre do sexo e nem as práticas e o desejo decorrem do “sexo” ou do “gênero”, esse corpo será considerado ininteligível. Esse “sujeito” não será reconhecido como masculino. Não será nem reconhecido como sujeito.

Os corpos abjetos

Outro conceito muito importante é apresentado por Judith Butler em seu livro “Cuerpos que importan”: abjetificação.

O processo que forma sujeitos generificados é um processo excludente. Ele cria, de um lado, sujeitos generificados e com identidades inteligíveis, e os seres abjetos, de outro. Os abjetos são aqueles que, não sendo reconhecidos como sujeitos, por não terem identidades inteligíveis, serão lançados para o limite exterior do campo dos sujeitos. Butler escreve:

Essa matriz excludente mediante a qual se formam os sujeitos requer pois a produção simultânea de uma esfera de seres abjetos, daqueles que não são “sujeitos”, mas que formam o exterior constitutivo do campo dos sujeitos. O abjeto designa aqui precisamente aquelas zonas invisíveis, inabitáveis da vida social que, sem embargo, estão densamente povoadas por aqueles que não gozam da hierarquia dos sujeitos, porém cujo a condição de viver abaixo do signo de invisível é necessária para a circunscrever a esfera dos sujeitos. (…) Nesse sentido, pois, o sujeito se constitui através da força da exclusão e da abjeção, uma força que produz um exterior constitutivo do sujeito, um exterior abjeto que, depois de tudo, é interior ao sujeito como seu próprio repúdio fundacional.

Vamos imaginar que um corpo designado como masculino não atinge o ideal de masculinidade que lhe foi designado e que lhe é invocado. É o que acontece com mulheres trans, com travestis e até com as bichas. Esses corpos não serão reconhecidos como sujeitos . Eles serão abjetificados.

Eles não serão reconhecidos como masculinos. Eles serão lançados para fora da masculinidade, eles serão os limites exteriores dela. Esses corpos serão aquilo que os outros repudiarão, serão aquilo que ninguém vai desejar ser. Os anormais que servirão de referência negativa para a normalidade.

A existência desses seres abjetos é complementar para a normação dos sujeitos com identidades inteligíveis. Na infância, os garotinhos serão ensinados a se comportar de maneira mais masculina possível, pra que não pensem que eles são “ bichinhas” ou “mariquinhas”. O repúdio ao abjeto é complementar a formação do sujeito inteligível. O repúdio a esses corpos é complementar à formação do sujeito masculino.

Esses corpos abjetos não gozarão dos privilégios da masculinidade — ou pelo menos não da maior parte deles – e a própria invocação da masculinidade e da virilidade mutiladora serão uma violência contra eles. A “socialização masculina” — que eu prefiro chamar de invocação da masculinidade — não atinge da mesma forma todos os corpos designados como masculinos. Para todos eles, ela será uma violência. Para alguns, ela vai gerar privilégios. Para outros, apenas exclusão.

Referências

BUTLER, Judith. Cuerpos que importan: sobre los límites materiales y discursivos del <<sexo>>. Tradução de Alcira Bixio. Buenos Aires: Paidós, 2012.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015a.

BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto?. Tradução de Sérgio Lamarão e Arnaldo Marques da Cunha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015b.

BUTLER, Judith. Relatar a si mesmo: crítica da violência ética. Tradução de Rogério Bettoni. Belo Horizonte: Autêntica, 2015c.

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