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Anacronismos de Mainha –  Por Ísis Carvalho

Anacronismos de Mainha – Por Ísis Carvalho

“- você está louca! Vou te internar.
Quem te pariu fui eu.”

Por Ísis Carvalho para o Portal Geledés 

Essa foi a mensagem que recebi de mainha depois que ela viu uma foto minha com os cabelos crespos – black power- nas redes sociais.
E eu entendo o desespero dela.

Desespero de um ventre de mulher preta,marisqueira, do Recôncavo da Bahia.

Mainha tem um limite para aceitar minha insubordinação e rebeldia. Mainha não entende que essa revolta não é contra ela mas sim contra um sistema que oprime as mulheres, as mães que pariram filhas pretas, de cabelos crespos e que não querem mais se submeter aos padrões ditados pela branquitude.

Mainha sabe muito bem o que é o racismo e como ele é perverso. Para ela, assumir minha negritude dentro de uma estrutura racista na qual lutamos, eu e ela, de formas diferentes pela (sobre)vivência só pode indicar insanidade mesmo afinal:

– quem vai te empregar assim?
-nenhum homem vai querer casar com você.
-por isso que você está passando essas necessidades.
-estuda tanto pra isso.

Para mainha a única forma agora é me interditando já que eu sou mesmo muito rebelde e não aceito as opressões no silêncio e nao acato os “ajustes” que ela acredita ser melhor pra mim. Para ela a internação é uma alternativa de proteção e reparos, pra tentar “corrigir algum defeito” nessa cabeça que insiste em carregar cabelos crespos.

Às vezes, mainha se culpa por alguma falha na minha educação:
– eu não te criei pra isso,menina!
Sem saber que me criou direitinho e acertou em tudo!

Mainha acredita que o mundo é tão materialista (acho que mainha é Marxista) e que eu devo alisar meu cabelo e conseguir um emprego formal, esse da CLT coisa e tal pra conseguir ter casa própria,estabilidade, um bom casamento qualquer segurança que garanta que não passarei dificuldades nessa vida como as que ela teve que atravessar.

Mainha deseja, a sua maneira, me proteger do mundo. Fazendo-me adaptar-se a ele. Como ela,minha avó,minha bisa e tantas outras mulheres negras tiveram que fazer. Entretanto, é complexo demais pra mainha compreender que eu estou aqui para quebrar esse padrão, honrar minha ancestralidade e isso não faz de mim uma louca e sim uma guerreira como elas foram pela vida dos seus, porque também é resistência e estratégia de condicionar-se para que hoje possam existir “loucas” como essa que vos escreve. Quantas mães são iguais a mainha?

Mainha, eu não estou louca. Estou muito bem do juízo. E sou mulher retada, igualzinho a senhora.


Ísis Carvalho
Salvador, 28 de janeiro de 2017.

 

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