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"Eu apontava para não ser apontado", diz gay que foi homofóbico no passado

Homens homossexuais contam como agrediram física e psicologicamente pessoas com a orientação sexual que assumiriam mais tarde. Especialistas analisam os casos e afirmam que homofobia é a reprodução do padrão machista

Iran Giusti

ramon

Todo homem e toda mulher gay passam por algum tipo de processo até aceitar sua orientação sexual. O caminho pode ser mais suave ou mais acidentado, quando esbarra em preconceito e homofobia. Para alguns, a reação é brigar com o espelho, ou seja, assumir uma postura contrária aos que demonstram algum sinal de homossexualidade ou são assumidos.

Casos como esses já foram retratados na TV e no cinema. A última novela das 7 da Globo, "Sangue Bom", mostrou a história do do machão Xande (Felipe Lima ). Crítico da atitude de seu seu amigo Filipinho (Josafá Filho ), que assumiu ser gay, ele encerra a trama se relacionando afetivamente com o rapaz. No premiado filme "Tatuagem", em cartaz em cinemas pelo Brasil, a homofobia gay aparece na pele do agressivo Soldado Gusmão (Ariclenes Barroso ), que ataca sucessivamente o protagonista Fininha (Jesuíta Barbosa ), mas que não resiste à vontade de tocá-lo quando os dois estão sozinhos.

Fora da ficção, o servidor público carioca Ramon Ferreira se viu na posição daquele que pratica atos homofóbicos. Aluno de um colégio militar em Juiz de Fora (MG) desde os 11 anos, Ramon se aceitou como homossexual dez anos depois, depois de ter passado por muitos conflitos internos. "Me percebi gay por volta dos 15 anos, mas só aos 21 me assumi, antes disso ficava com muitas mulheres e era bastante homofóbico", relata.

Suas agressões miravam jovens com trejeitos ou assumidamente gays, para quem sobravam ofensas, muitas vezes disfarçadas de brincadeiras. "Eu apontava para não ser apontado", diz ele. "Agredia verbalmente, humilhava publicamente os efeminados desde cedo, já na quinta série", relembra ele, com remorso.

O funcionário público conta que depois de repetir um ano na escola, se tornou o mais velho do grupo e usava sua posição de líder para conquistar mulheres e assim disfarçar a homossexualidade. "Cheguei a ficar com a mãe de um amigo, isso trouxe respeito, depois eu comecei a pegar várias meninas nas baladas, mas era tudo sempre muito mecânico, o sexo ruim".

O tempo passou, Ramon acabou conhecendo outros gays e se abrindo para novas experiências, Quando finalmente se assumiu, ouviu dos amigos que todos tinham conhecimento de sua orientação sexual. Ironicamente, em sua primeira festa gay encontrou um jovem que fora alvo de sua homofobia.

"Ele era minha vítima, chegou a sair do colégio porque não aguentou. Depois que o cumprimentei e começamos a conversar, eu chorei, pedi desculpas", diz ele. O resultado foi que Ramon resolveu então que pediria perdão a todos que machucou. "Colégio militar não muda. Eram as mesmas vítimas, sendo sacaneados, humilhados pela grande maioria durante anos. Quase todo mundo continuou na cidade, não foi difícil encontrar todos e me desculpar", conta

Para Julian Rodrigues , coordenador de politicas LGBT da cidade de São Paulo, o caso de Ramon é bastante comum no universo gay. " Para firmar uma identidade é preciso assumir uma personalidade, e na nossa sociedade isso envolve uma heteronormatividade onde um menino é criado para ser machão, violento, gostar de azul, enquanto as meninas devem ser delicadas, fofas e gostar de rosa. Antes de se firmar gays as pessoas reproduzem esse padrão machista", explica.

Mestre em ciências sociais, o coordenador atenta também sobre as práticas violentas para acobertar a orientação sexual. "O que noto é que meninos gays tendem a ser mais violentos no bullying. Para não sofrer discriminação, ele discrimina o outro", explica.

Radicalismo do exército para a igreja

Nietzsche Mascarenhas

Enquanto Ramon lidava com uma formação militar, o estagiário Nietzsche Mascarenhas , 21, sofria com a rígida conduta religiosa de sua família. "Desde criança eu me sentia diferente e aos 13 anos me percebi gay, me apaixonei por um melhor amigo, mas não falava para ninguém. Tinha muito medo, sofria calado", desabafa.

No colegial, Nietzsche se aproximou de um jovem, porém a formação religiosa o forçava a criticar os gays. "Eu era meio hipócrita, fazia parte de uma religião em que gays devem ser destruídos se não se arrependessem de sua conduta, que iriam para o inferno. Fazia questão de falar isso para as pessoas, ao mesmo tempo em que tentava me aproximar desse cara no colégio", relata.

Gays com trejeitos femininos eram o principal alvo de Nietzsche, a quem ele criticava constantemente. "Eu achava os gays efeminados feios, na minha cabeça se alguém era gay tinha que lutar contra isso", explica.

Com 18 anos o jovem fez um intercâmbio para os EUA, onde teve sua primeira experiência homossexual. Ao voltar para o Brasil se mudou do interior do Ceará para São Paulo, e se matriculou na faculdade. "Dei em cima de um cara hétero. Eu, que era enrustido, acabei sendo exposto para todo mundo. Quebrei a cara e acabei me revelando".

Com 21 anos hoje, Nietzsche se encontrou. "Comecei a fazer comércio exterior, encontrei amigos que me ajudaram e que me convenceram de que não tinha nada errado comigo. Hoje tenho uma vida gay e sou assumido. Essa mudança de faculdade foi fundamental pra mim, é muito importante para um adolescente ser aceito", finaliza.

Para a socióloga Vilma Bokany , assistente de coordenação do Núcleo de Estudos de Opinião Pública da Fundação Perseu Abramo e autora do livro "Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil"(Editora Perseu Abramo), a homofobia é comum em praticamente todos os ambientes e de forma verbal, e não física, como a maioria pensa.

"A homofobia está presente desde as brincadeiras na escola até nos comentários da própria família e no ambiente de trabalho. A violência moral que uma pessoa sofre marca muito mais do que se pensa porque é constante", explica.

A socióloga encerra reforçando o posicionamento de Julian, de que o machismo é peça fundamental para a existência da homofobia. "Está tudo muito ligado ao machismo. A gente vive em uma sociedade machista, onde qualquer comportamento desviante desse padrão masculino, no caso o das mulheres e dos homossexuais, acaba sendo discriminado".

Fonte: iG

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