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“As empresas não devem se apropriar do discurso social”

“As empresas não devem se apropriar do discurso social”

Coordenadora de projetos do Instituto Avon fala sobre a relação das corporações com o combate ao racismo, o machismo e outros discursos ideológicos

Por Ingrid Matuoka Do Carta Capital

Mestra em psicologia social pela USP e coordenadora de projetos do Instituto Avon, Mafoane Odara transita entre o mundo corporativo e o do ativismo. Além de trabalhar no instituto ligado à empresa de produtos de beleza, ela é integrante da Rede pela Diversidade e da diretoria do Fundo Brasil de Direitos Humanos.

Em entrevista à CartaCapital, Odara fala sobre os paradoxos da mudança de discurso adotada por algumas empresas com relação às mulheres e aos grupos minorizados. Confira:

CartaCapital: Nos últimos anos, as empresas tem mudado seu discurso, procurando inclusão de grupos minorizados e deixar o machismo menos evidente. Por que isso tem acontecido?
Mafoane Odara: Hoje em dia não faz mais sentido ter um apoio a projetos que promovem processos de transição sem que isso se reflita em uma mudança de cultura interna. É uma pressão dos movimentos [sociais e identitários] para que a gente possa fazer coisas mais coerentes, transformadoras e um cuidado das empresas de olhar para dentro e falar “como podemos, com todo esse processo de transformação, também fazer um engajamento interno e uma mudança de cultura?”. É uma coisa de mão dupla.

A Avon passou por isso. Quando decidimos fazer essa campanha “Beleza que faz sentido”, como podemos rever nossos padrões de beleza e pensar qual o nosso real papel, como empresa. nesse processo de transformação da sociedade e da busca por direitos para mulheres? Então, se falamos de empoderamento, o nosso papel não é empoderar, mas garantir que as mulheres tenham as ferramentas certas para que esse empoderamento aconteça. É olhar para as barreiras e conectar isso a nosso negócio e à causa que a gente trabalha.

CC: Esse discurso se sustenta sem uma inclusão e um diálogo dentro das empresas?
MO: Absolutamente não. A gente precisa ter uma prática de inclusão. Qual o melhor jeito de garantir que as mulheres tenham os mesmos salários nos cargos e lugares de poder? É garantir que elas estejam lá dentro. Qual é a forma de garantir que os negros, as pessoas com deficiência, do movimento LGBT, estejam de fato? Só se essas pessoas estiverem dentro. Não existe uma mudança de olhar se não promover uma inclusão das pessoas e da diversidade.

CC: Como isso se deu na Avon?
MO: Temos uma política de promoção e revisão salarial a cada três meses. Entendemos que se não olharmos se homens e mulheres estão ganhando o mesmo valor para os mesmos cargos, isso se inverte. Então precisa estar alerta.

CC: O surgimento das redes sociais e a possibilidade de pressão dos consumidores colaborou para essa mudança?
MO:Com certeza. Hoje vivemos um momento em que as situações acontecem e a reação vem imediatamente, na mesma medida. As redes sociais trouxeram essa possibilidade de rapidez. Elas são redes de proteção e de apoio e isso tem ajudado e fortalecido a materialização das ações. É um trabalho duplo para fazer avançar as causas.

CC: As tentativas das empresas tem sido bem sucedidas?
MO: Depende do caminho que escolheram e do quão genuíno e verdadeiro é esse desejo. Para avaliar é preciso ver que tipo de ações estão sendo tomadas e se elas são estruturantes ou superficiais. É um grande diferencial reconhecer que essas discriminações acontecem e esse processos de equidade começam de dentro para fora. Quando você consegue fazer uma ação estruturante que ajude nesse caminho, que não é fácil, isso é genuíno. Quando as empresas tentam fazer uso de discurso ou uma conquista social para se beneficiar isso e não ser genuíno, essa reação vem também.

CC: E quando as empresas erram o tom? O que deve ser feito?
MO: Depende de cada empresa e cada estrutura, mas também da vontade de realmente lidar com essas questões. O que podem fazer para se preparar para os possíveis tropeços é fazer alianças com organizações sociais ligadas ao tema, para que elas possam ajudar a construir esse caminho.

Um cuidado que as empresas precisam ter é de não se apropriar de discursos quando eles não são seus, em geral é aí que as empresas erram o tom, quando querem pegar um discurso bonito, forte, mas que não é genuíno.

As empresas têm um papel que é diferente do que as organizações e o governo têm. A coisa mais importante nesse processo é que você não tem que dar resposta sozinho, você não tem competência pra isso e é muito melhor pra todo mundo reconhecer qual o seu papel e a gente consegue fazer e agir a partir desse lugar, sem se apropriar de um lugar que não é seu.

CC: Algumas pessoas reclamam de uma cooptação do feminismo, por exemplo, pelas empresas. O que você pensa sobre isso?
MO: Isso acontece e precisa ter esse cuidado. A gente não pode se apropriar de um discurso social uma vez que não somos um movimento social. Somos uma empresa. E nosso papel é usar o que temos para potencializar o trabalho  feito por essas organizações.

A gente tem que usar nosso potencial para fazer com que as organizações que já desenvolvem muito bem esse trabalho possam chegar a lugares que elas não chegariam sozinhas. É a parceria que faz sentido. Os problemas são gigantescos e complexos, e às vezes o que acontece é você se apropriar desse lugar achando que pode dar conta sozinho porque seu lugar tem certos privilégios. A discussão tem que ser cuidadosa e respeitosa.

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