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Beatriz Nascimento
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Por Beatriz Nascimento
Fonte: Jornal Maioria Falante. Fevereiro - Março - 1990
Esta contradição histórica no terreno das idéias e do real, sabemos que impunha o poder da razão, no seu interior.
Para exemplificar a mecânica dessa ideologia na prática do pensamento ocidental onde a afirmação corresponde à afirmação corresponde à negação, reflitamos sobre esta frase por Martinho Lutero no século XVII - " a razão é uma mulher astuta" . Contraporíamos : logo, é preciso que seja aprisionada pelo homem e expressada como atributo masculino, só assim pode ser dominante .
Por esse pensamento formulado, a mulher seria um homem, embora não sendo total. Seria ciclicamente homem, conforme seu próprio ciclo natural(puberdade e maternidade). Fora desses estados, sua capacidade de trabalho estaria a reboque da necessidade do desenvolvimento econômico (mão de obra anexada ou excludente de acordo com as variações da Economia) . Fora desses espaços, ou mesmo aí ela não o é . Será a razão de lugar, ou exercerá sua razão fora do campo produtivo .
Vai recobrir a mulher a moral totalizadora, seja enquanto agente ou enquanto submetida . Revestir- se à de fantasias, de sonhos, de utopias, de eroticidade não satisfeita e estagnada pela condição específica da sua arquitetura física e psicossocial.
Dentro desse arcabouço, qualquer expressão do feminino é revestido pela instituição da moral. Representa em si a desigualdade caracterizada pelos conflitos entre submissão X dominação; atividade X passividade, infantilização X maturação . A contrapartida a este estado de coisas coloca a mulher num papel desviante do processo social, onde a violência é negação de sua auto- estima .
A mulher negra na sua lua diária durante e após à Escravidão no Brasil, foi contemplada como mão- de obra, na maioria das vezes não qualificada .
Num país em que só nas últimas décadas desse século, o trabalho passou a ter significado dignificante, o que não acontecia antes, devido ao estigma da escravatura, reproduz -se na mulher negra "um destino histórico" .
É ela quem desempenha, em sua maioria, os serviços domésticos, os serviços em empresas públicas e privadas recompensadas por baixíssimas remunerações . São de fato empregos onde as relações de trabalho avocam as mesmas da Escravocracia.
A profunda desvantagem em que se encontra a maioria da população feminina, repercute nas suas relações com o outro sexo. Não há noção de paridade sexual entre ela e os elementos do sexo masculino . Essas relações são marcadas mais por um desejo de exploração por parte do homem, do que pelo desejo amoroso do repartir afeto, assim como material. Via de regra, nas camadas mais baixas da população cabe a mulher negra o verdadeiro eixo econômico onde gira a família negra . Essa família, grosso modo, não obedece os padrões patriarcais, muito menos os padrões modernos de constituição nuclear.
São da família todos aqueles (filhos, maridos, parentes) que vivem as dificuldades de uma extrema pobreza .
Quanto ao homem negro, geralmente, desempregado profissionalmente por força de contingências históricas e raciais, tem na mulher negra economicamente ativa um meio de auxílio à sua sobrevivência, quando não à própria sobrevivência, já que à mulher se impõe, como sabemos, dupla jornada.
Entretanto, nem todas as mulheres negras estão nesta condição. Quando ela escapava para ouras formas de alocação de mão- de obra, dirigem - se, ou para profissões que requerem uma educação formal ou para a arte (a dança). Nestes papéis elas se tornam verdadeiras exceções sociais . Mesmo aqui, continua com o papel de mantenedora, na medida em que, numa família preta são poucos os indivíduos a cruzarem a barreira da ascensão social. Quando cruzam, variadas gamas de discriminação racial dificultam os encontros da mulher preta, seja com homens pretos, sejam de outras etnias.
Por exemplo: uma mulher preta que atinge determinado padrão social, no mundo atual, requer cada vez mais relações de parceria, o que pode recrudescer as discriminações a essa mulher específica . Pois numa sociedade organicamente calçada no individualismo tende a massificar e serializar as pessoas, distanciando o distanciando o discriminado das fontes de desejo e prazer.
A parceria, elemento de complementação em que todas as relações, inclusive as materiais, é obstruída e restringida na relação amorosa da mulher.
Quanto mais a mulher negra se especializa profissionalmente numa sociedade desse tipo, mais ela é levada a individualizar- se . Sua rede de relações também se especializa. Sua construção psíquica, forjada no embate entre a sua individualidade e a pressão da discriminação racial, muitas vezes surge o impedimento à atração do outro, na medida em que este, habituado aos padrões formais de relação dual, teme a potência dessa mulher . Também ela, por sua vez, acaba por rejeitar esses outros, homens, masculinos, machos. Já não aceitará uma proposta de dominação unilateral .
Desse modo, ou permanece solidária, ou liga - se a alternativas, onde os laços de dominação possam ser afrouxados . Convivendo em uma sociedade pluri-racial, que privilegia padrões estéticos femininos como ideal de um maior grau de embranquecimento, (desde a mulher mestiça até à branca), seu trânsito afetivo é extremamente limitado. Há poucas chances para ela numa sociedade em que a atração sexual está impregnada de modelos raciais, sendo ela representante da etnia mais submetida. Sua escolha por parte do homem passa pela crença de que seja mais erótica ou mais ardente sexualmente que as demais, crença relacionadas às características do seu físico, muitas vezes exuberantes. Entretanto quando trata- se de um relacionamento institucional, a discriminação étnica funciona como um impedimento, mais reforçado à medida que essa mulher alça uma posição de destaque social, como nos referimos acima.
No contexto em que se encontra cabe a essa mulher a desmistificação do conceito de amor, transformando este em dinamizador cultural e social (envolvimento na atividade política, por exemplo), buscando mais a paridade entre os sexos do que a "igualdade iluminista" . Rejeitando a fantasia da submissão amorosa, pode surgir uma mulher preta participante, que não reproduza o comportamento masculino autoritário, já que se encontra no oposto deste, podendo assim, assumir uma postura crítica intermediando sua própria história e seus ethos . Levantaria ela a proposta de parcerias nas relações sexuais que, por fim, se distribuiria nas relações sociais mais amplas.
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O livro Eu sou Atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento, publicado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e Instituto Kuanza, de autoria de Alex Ratts, é prefaciado por Sueli Carneiro e se divide em duas partes. Na primeira - "Quantos caminhos percorro" - o autor dialoga com a obra publicizada e inédita de Beatriz Nascimento, por meio das temáticas e categorias da pesquisadora e a partir de pesquisa em acervos públicos e particulares no Rio de Janeiro, em São Paulo e Brasília. A segunda - "É tempo de falarmos de nós mesmos" - traz oito artigos escritos por ela entre 1974 e 1990, publicados em periódicos como Revista Cultura Vozes, Estudos Afro-Asiáticos, Afrodiáspora, Maioria Falante e Última Hora. Maria Beatriz Nascimento (Aracaju, 1942 - Rio, 1995) é historiadora, pesquisadora, poeta e ativista negra. Ao longo de vinte anos, tornou-se estudiosa das temáticas do racismo e dos quilombos, abordando ainda a correlação entre corporeidade negra e espaço e as experiências de longos deslocamentos socioespaciais de africanos/as e descendentes, por meio das noções de "transmigração" e "transatlanticidade". O autor é antropólogo, geógrafo e professor da Universidade federal ed Goiás, além de pesquisador/ativista do campo das relações raciais, de gênero e socioespaciais.
Livro de Alex Ratts Editora Imprensa Oficial do Estado de SP e Instituto Kuanza.
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Beatriz Nascimento
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Alex Ratts ••
Abordar a trajetória de Beatriz Nascimento para a revista Eparrei! tem uma dupla exigência. É necessário indicar qual o propósito de um homem negro que pesquisa relações de gênero e raça. O encontro com o feminismo negro, com os textos de autoras ativistas brasileiras e estadunidenses, tem provocado uma viagem sem volta na minha construção de pessoa e na formação intelectual. Além disso, devo dizer que escrever acerca de uma mulher negra é um exercício de interagir com sua voz, e não tentar sobrepô-la ou substituí-la (o que tem sido habitual numa sociedade racista e sexista). Não conheci pessoalmente Beatriz Nascimento e a pesquisa que realizo tem como cerne a sua obra, ou seja, seus textos escritos (alguns inéditos) e narrados (a exemplo de comunicações transcritas ou da participação em documentários). Os levantamentos são efetuados no Centro de Estudos Africanos da Universidade de São Paulo, no Arquivo Nacional e com a colaboração da família de Beatriz Nascimento e de acervos particulares de ativistas negras(os). Cabe afirmar que o presente artigo não resulta, de forma alguma, de um olhar distante e impessoal. Estou diante de alguém que me convence, me comove e, poucas vezes, me leva a discordâncias.
Caminhos percorridos
Maria Beatriz Nascimento nasce em Sergipe, em 12 de julho de 1942, filha de Rubina Pereira do Nascimento e Francisco Xavier do Nascimento, um pedreiro e uma "dona de casa", que tiveram, ao todo, dez filhos. A família migra para a cidade do Rio de Janeiro em 1950. Enquanto estudiosa, pesquisadora, ativista e autora, Beatriz pode ser focalizada, sobretudo, entre 1968 e 1971, quando cursa História na Universidade Federal do Rio de Janeiro. No mesmo período, faz estágio em Pesquisa no Arquivo Nacional, com orientação do historiador José Honório Rodrigues. Posteriormente, torna-se professora de História da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro.
Em 1974, Beatriz Nascimento publica Por uma história do homem negro (Revista de Cultura Vozes. 68(1), pp. 41-45), um texto/proposição que tem como tema principal a flagrante despreocupação da academia brasileira com os temas vinculados à história da população negra, no máximo, reduzidos aos genéricos estudos da escravidão. Neste artigo, Beatriz parte de uma forte motivação que excede preocupações de uma pesquisadora restrita aos muros universitários, se pronuncia como historiadora negra, portanto como vinculada diretamente ao chamado "objeto de estudo". No mesmo ano, a referida revista veicula outro artigo seu (Negro e Racismo, Revista de Cultura Vozes. 68 (7), 1974, p. 65-68) no qual a autora comenta e reage a idéias recorrentes na sociedade brasileira e, inclusive, no pensamento acadêmico de que há uma única maneira de ser negro, de definir a "cultura negra" e de reduzir à participação negra na formação brasileira a "contribuições".
Nesse período, Beatriz Nascimento participa no Rio de Janeiro de um grupo de ativistas negras(os) que acabam por formar vários núcleos de estudos no estado, dentre eles o Grupo de Trabalho André Rebouças na Universidade Federal Fluminense, do qual ela se torna orientadora. O GTAR se constitui num grupo de estudantes negras(os) de vários cursos que tinha, dentre seus objetivos, o propósito de introduzir e ampliar principalmente na universidade conteúdos acerca das relações raciais no Brasil, almejando o envolvimento do corpo docente (GTAR - Em busca de um espaço. Estudos Afro Asiáticos 8-9, 1983). Na Quinzena do Negro, realizada em outubro de 1977, na Universidade de São Paulo, Beatriz Nascimento aparece como conferencista, já em processo de reconhecimento público de seus estudos acerca da questão étnico-racial, em especial dos quilombos.
No ano seguinte Beatriz dá início ao curso de especialização (pós graduação latu sensu) em História na Universidade federal Fluminense, que conclui em 1981, com a pesquisa Sistemas alternativos organizados pelos negros: dos quilombos às favelas. Este projeto obtém financiamento parcial da Fundação Ford e da Casa Leopold Senghor do Senegal e tem como objetivo principal estabelecer a possível continuidade dos quilombos com favelas em determinadas cidades brasileiras, a exemplo do Rio de Janeiro. Por força de restrições de financiamento e da própria extensão do tema, Beatriz reduz hipóteses e se detém na viagem a Angola (onde se situavam os quilombos africanos) e no trabalho de campo em áreas passíveis de identificação como "antigos quilombos", especialmente em Minas Gerais (Kilombo e memória comunitária - um estudo de caso. Estudos Afro-Asiáticos 6-7, pp. 259-265, 1982).
Territorialidade, corporeidade e identidade
Inúmeros temas "acadêmicos" nascem fora dos muros universitários ou ganham contornos diferenciados quando desenvolvidos por sujeitos diretamente envolvidos com a temática: gênero discutido por sobretudo mulheres, raça pensada por sobretudo negras(os), etc.. É nesse contexto que ocorre o (re)aparecimento do quilombo. Para os movimentos negros de vários períodos do século XX o quilombo era um dos grandes temas: permeava a ação política, a pesquisa acadêmica e as atividades artísticas. Quilombo era palavra franca entre ativistas dos movimentos negros na década que se estende entre 1978 e 1988 (O conceito de quilombo e a resistência cultural negra. Afrodiáspora Nos. 6-7, pp. 41-49, 1985).
Beatriz Nascimento, sobretudo no filme Ori, alia a reflexão acerca de territorialidade com corporeidade. Para ela o corpo negro se constitui e se redefine na experiência da diáspora e na transmigração (por exemplo, da África para a América, da senzala para o quilombo, do campo para a cidade, do Nordeste para o Sudeste). Neste tema, a encontramos discorrendo acerca da sua própria imagem, da "perda da imagem" que atingia africanas(os) escravizados(as) e descendentes em diáspora. O corpo negro pode ser, então, que procura e constrói lugares de referência transitórios (o baile black, a escola de samba) ou duradouros (a casa de culto afro-brasileiro ou o quilombo). A chamada "cultura negra" recriada estendia-se pelo que ela denominava de transatlanticidade nas relações América, Europa e África.
Beatriz também escreveu acerca da situação das mulheres negras no Brasil, de sua condição social inferior devida ao amálgama de heranças escravistas com mecanismos racistas (A mulher negra no mercado de trabalho. Jornal Última Hora, Rio de Janeiro, 25/07/1976) e à perpetuação de estereótipos no imaginário nacional, especialmente no cinema (A senzala vista da casa grande. Jornal opinião, 5 de outubro de 1976, p. 20-21). É no artigo A mulher negra e o amor (Jornal Maioria Falante, No 17, fevereiro a março de 1990, p. 3.) que Beatriz Nascimento enuncia a discriminação de raça e de sexo que atinge as mulheres negras de vários ângulos e as marca de maneira específica o campo afetivo. Em 1987 ela é agraciada com o título de Mulher do Ano 1986, pelo Conselho Nacional de Mulheres no Brasil.
Esquecimento e rememoração
Beatriz Nascimento é assassinada em 28 de janeiro de 1995, quando defendia uma amiga que tinha um companheiro violento. Cursava, então, mestrado na Escola de Comunicação da UFRJ. Seus projetos foram interrompidos abruptamente. Apesar de ter uma produção que se estende ao longo de 20 anos, entre 1974 e 1994, e de alcançar relativa visibilidade intelectual e política em vida, a exemplo do que acontece com Lélia Gonzalez, Eduardo Oliveira e Oliveira, Hamilton Cardoso e outras(os) de sua geração, Beatriz Nascimento não se torna uma autora reconhecida nos círculos hegemônicos dos estudos raciais no Brasil. Lida, comentada e rememorada sobretudo por autoras(es) negras(os), a "volta" aos seus textos não se deve fazer somente por um esforço de reverência.
Há que se reconhecer que, como uma das protagonistas, ela palmilha, sedimenta e constrói em grande parte o espaço que hoje alcançamos nas questões étnico-raciais: a realização e ampliação dos estudos raciais por pesquisadoras(es) negras(os); a presença negra discente e docente nas universidades; a história da população negra brasileira e seus vínculos diversos e contraditórios com as sociedades africanas; a interrelação entre temas como identidade, raça, sexo, corpo, cultura e espaço; a correlação, nem sempre afinada, entre pensamento e ativismo negros. Para criticá-la em sua busca de uma verdade histórica (que é, de fato, uma disputa de interpretações com a historiografia hegemônica) e do tratamento aparentemente essencialista de certos temas (que ela muitas vezes relativiza), devemos lê-la e ouvi-la em primeiro lugar.
Aquela que, em suas palavras dizia "eu sou atlântica", que se sentia "alta" na Serra da Barriga e cujo "espírito inquieto" caminhava por "sendas errantes", aquela que escrevia com sensatez e com veemência, torna-se uma referência para quem trilha em se desloca entre raízes e rotas correlatas, merecendo uma homenagem à sua altura: o reconhecimento da obra, dos posicionamentos, das idéias e da pessoa.
• Professor do Instituto de Estudos Socioambientais da UFG, coordenador do Núcleo de Estudos Africanos e Afro-Descendentes (NEAAD/UFG). •• Publicado originalmente em: Revista Eparrei, No. 8. Santos: Casa de Cultura da Mulher Negra, 2005, p.49 - 51.
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