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Cacau Protásio fala de quebra de padrões e conta episódios de preconceito na infância

Cacau Protásio fala de quebra de padrões e conta episódios de preconceito na infância

“Posso dizer que quando bebezinha eu fui feliz. Era a única neném rechonchuda e pretinha da creche, meio cara de bebê Johnson. Por dois anos, fui ‘miss de passarela’, a última bolacha do pacote. Depois fui para uma escola que se chamava Abelhinha e eu adorava meus amiguinhos. Nunca pensei que meu conceito sobre amizade mudaria depois dos 3 anos, e que seria para sempre”.

por Bruna Ferreira no VIX

Esse é apenas um dos trechos do livro “Gordelícias”, lançado pela Editora Planeta, que conta com relatos de quatro atrizes famosas, divertidas e empoderadas como Fabiana Karla, Mariana Xavier e Simone Gutierrez. A autora desta crônica, que fala sobre a descoberta do preconceito e do bullying na infância é Cacau Protásio, responsável por tantas gargalhadas do público em novelas como “Avenida Brasil” e humorísticos como “Vai que Cola”, do Multishow.

Diferente dos seus trabalhos mais conhecidos na televisão, nesta crônica, Cacau faz chorar com um relato pessoal e sincero do que é crescer fora dos padrões, sem se encaixar nos rótulos da perfeição, da beleza construída.

“Nunca estive dentro dos padrões impostos pelo mundo: não era magra, branca nem nunca fui loira. Eu era gorda, de cabelo duro e negra”.

Em um dos momentos de maior sensibilidade e honestidade, Cacau conta dois dos episódios mais marcantes de humilhação que viveu na infância. Naquela época, ela nem sabia que esse tipo de ação tinha nome: bullying. A situação podia não estar classificada ainda, mas a sensação que provoca em suas vítimas já era dolorosa o suficiente.

“Quando fiz 12 anos, fui convidada para uma festa. Toda orgulhosa, pedi que minha mãe me arrumasse bem bonita. Chegando na festa, uma das meninas soltou uma frase que me marcou para sempre: ‘Nossa, Anna Cláudia, você parece filha da empregada, minha mãe não quer mais que eu ande com você’. Isso me magoou muito, eu chorei demais. Choro até hoje quando lembro. Chorei escrevendo isso, e não porque ser filha de empregada seja algo depreciativo, claro que não é! Mas pela maldade das palavras daquela garota. Criança pode ser muito cruel. Nunca me esqueço do dia em que levei um biscoito Bono pra escola e uma menina chamada Marcele, na maldade, abriu a embalagem e comeu tudo na minha frente, sem me perguntar nada. Nesse dia eu não fiz nada. Nem sempre eu me apresentava como a valentona, às vezes me apequenava, afinal eu era e sou sensível”.

Entrevista com Cacau Protásio:

VIX – Cacau, a primeira crônica do livro “Gordelícias”, que traz um testemunho seu, é bastante emocionante. Esse texto sobre o bullying na infância foi diferente dos outros para você?

Cacau Protásio – Foi muito diferente. A ideia de falar desse assunto foi da editora. Eu não sabia o que era bullying na época, eu não entendia… Na adolescência, já ficou mais doloroso.

VIX – Você conta que aquela sua colega de colégio virou pra você e disse: “Você parece filha da empregada”. Nessa fala, ela escondia vários preconceitos. Como essas coisas fizeram de você a mulher que é hoje?

Cacau Protásio – Esse foi meu primeiro bullying. Eu era adolescente, eu chorei muito e não sabia o que fazer, não sabia como agir, a dor foi passando aos poucos. Eu sempre tive muito amor de mãe, quando eu falava com ela, ela dizia para deixar pra lá.

VIX – Ainda menina, você chegou a conversar com familiares e adultos sobre o que sentia com o bullying?

Cacau Protásio – Eu não conversava com ninguém. Fui criada meio na porrada, mas com muito amor de mãe! O que eu aprendi a fazer quando eu sofria preconceito, que era o nome chamado na minha época, era fingir que não estava entendendo. Me fazia de boba e seguia em frente. Já deixei muita gente sem graça assim!

VIX – Você fala no seu texto que enfrentou preconceito por não ser magra, nem loira, nem branca. Você acha que por ser uma menina, uma mulher, também sofria mais que os meninos com as cobranças na aparência?

Cacau Protásio – Acho que a mulheres sofrem muito mais. Os padrões impostos pela sociedade fazem com que as pessoas não olhem todos os tipos de mulheres, admirem e as respeitem. Eu falo isso porque já ouvi há muitos anos de um menino: ”Eu gosto de você, eu quero namorar você, mas meus pais não vão gostar, porque você é preta, é gorda, mas eu gosto”

VIX – Em que momento você acha que virou o jogo?

Cacau Protásio – Então, eu fui aprendendo aos poucos, graças a Deus. Deus colocou pessoas na minha vida que fizeram eu me aceitar e me valorizar do jeito que eu sou. E o bom é que foi a maioria. Hoje, eu me acho linda! Agora, nesse momento, eu estou cuidando da saúde, emagrecendo um pouco por causa das dores nas pernas, mas eu me acho linda e sexy.

VIX – Qual a diferença em querer mudar para ser mais feliz e querer mudar para agradar os outros?

Cacau Protásio – Eu me acho linda, eu gosto de mim gorda, mas chega uma hora que o corpo grita pedindo socorro. É realmente pela saúde.

VIX – Se você pudesse ter aconselhado a si mesma, quando pequenininha… Como teria orientado a pequena Anna Cláudia?

Cacau Protásio – Eu acho que faria a mesma coisa que minha mãe fez: vamos em frente, tendo fé em Deus, pois o mundo e as pessoas um dia vão mudar. Preconceito não está com nada, pois ninguém é melhor que ninguém.

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