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Cara UFRGS Branca: ‘O meio acadêmico é o que mais tem que ouvir umas coisas’

Cara UFRGS Branca: ‘O meio acadêmico é o que mais tem que ouvir umas coisas’

“Eu vou te dizer o que aconteceu comigo. Fiz meu ensino fundamental em um colégio ligado à UFRGS. Na segunda série, no final do ano, eu reprovei. Só que as minhas notas eram todas boas”. B.* faz uma pausa. “Quando os meus pais souberam, eles surtaram. Eu lembro direitinho”.

por Giovana Fleck no Sul21

Ela passava as manhãs e as tardes no colégio. Um dia, na aula, foi conduzida por uma das coordenadoras até a sala dos professores. “Tu não acha que tu tá meio mal nas aulas?”, ela perguntava para B. “Tu acha que não tá conseguindo acompanhar?”, ao que ela respondia: “não”, sem entender o motivo da inquisição. B. ficou horas detida na sala. No horário do almoço, ela pode sair, comer, mas foi obrigada a retornar. As perguntas continuavam, em série: “Tu não acha que tu tem que reprovar? Tu acha que tá ficando pra trás?”. No final do dia, querendo ir embora, B. disse “sim”. Ela saiu. Foi pra casa.

No dia de entrega dos boletins, lia-se “reprovada”.

A mãe, consciente das notas da filha, não entendeu e quis saber o motivo. “A minha mãe era muito… como eu vou dizer? Ela é mãe, entende?”. Ao falar com outras mães, ela descobriu que aquela professora tinha fama de racista. “Contei o que aconteceu e meu pai virou o diabo em casa”. Ele escreveu uma carta para a direção da escola em Brasília. A professora foi afastada. “Por um ano, depois voltou e reprovou outra menina”, completa B. No final, B. reprovou para preservar a imagem da instituição. “Ia ficar muito ruim na Universidade se eles admitissem esse erro”.

“Eu demorei muito tempo para processar o que tinha acontecido”. B. só foi classificar o episódio como racismo depois de entrar na faculdade. Ela é uma de muitas. Inclusive, enquanto B. contava a história, V., ao lado dela, concordava e olhava para a amiga em cumplicidade.

A vida inteira, além do julgamento dos colegas – “Nós por nós”, resume V. – havia o racismo velado e institucionalizado da educação. “Hoje em dia, eu não consigo entender como isso acontece. E aconteceu. E foi horrível”. Fez o segundo ano de novo. Ela virou a “burra da turma”, como descreve. Ela cresceu achando que era burra. “Burra, burra, burra. E tu nunca é o suficiente, tu nunca faz o suficiente”. Nesse ano, virou colega de V., um ano mais nova.

V. recorda do deslocamento de casa até o colégio. Na van, as meninas ocupavam os lugares opostos ao dela. Toda sexta-feira, as crianças eram incentivadas a levar brinquedos para a escola. Ela conta que mesmo negra e da periferia, sempre foi muito privilegiada. “Deixo isso bem escuro”. Só havia interação com as outras meninas quando ela tinha algo que interessava a elas. Bonecas Barbie eram sucesso garantido. O alívio de ter uma amiga vinha de imediato. Na segunda-feira, nem um ‘oi’. “Ficava angustiada, queria entender o motivo”, lembra V.

“Ela sempre foi muito consciente, a revoltada”, elas riem. “Tu alisava o cabelo”, acusa V. “Alisava”, responde B. “Não é que eu não me identificasse como negra, eu só não pensava nisso”.

B. e V. entraram na faculdade acreditando em mudanças. “O problema é que a gente não têm noção de como é até atingir certa maturidade”, afirma V.  Para ela, o racismo, o machismo e a homofobia são absurdos, mas já estão tão enraizados que se dar conta é difícil. O primeiro choque foi perceber que as duas se somavam a apenas um ou dois outros colegas negros em turmas de dezenas de pessoas.

“Geralmente, nos chamam de morenas”, diz B. levando a mão à testa em sinal de impaciência. “O que incomoda muita gente que se assume negra”, V. continua. “No meu curso, eu deixo claro que sou negra. Ainda assim, vários se referem a mim como V., a moreninha”.

Cansadas dos estigmas diários que observavam dentro da instituição, decidiram criar a página Cara UFRGS Branca. Inspiradas na série americana Dear White People (Cara gente branca), que trata do cotidiano de estudantes negros em uma universidade de elite, elas começaram a compartilhar imagens, notícias e textos desconstruindo a imagem do negro na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Quantos autores negros você já leu? Quantos professores negros você tem? Com quantos negros você já se relacionou? A página busca proporcionar a reflexão e questionar o indivíduo, tratar por você quem deve mudar sua construção.

“Hoje eu tive a pior aula do mundo porque meu professor disse que cotas são mimimi”

O propósito da página é servir como um amigo, falar o que é velado à grande massa de colegas brancos que não entendem como o aluno negro se sente . “Todas as pessoas negras sabem de todos os problemas que eu tenho. Não da forma como eu percebo, mas a gente sabe”, conta V. Ela descreve um efeito que caracteriza como “olhar negro”. “Eu vejo um preto e…”. Ela abre um sorriso tímido, “…e só abro um sorrisinho pra ele saber que eu estou lá, sabe. Mesmo que a gente não se conheça. Eu sei que na tua sala de 60 alunos de cálculo, tu provavelmente é o único negro”.

A UFRGS é um instituição extremamente elitista, comenta V. Ela afirma que não esperava encontrar esse cenário ao entrar no curso. Ela conta nos dedos da mão direita os colegas negros que vêm à cabeça. “São uns seis. E a maioria vai se formar logo”. No último semestre, apenas dois novos alunos negros entraram para o curso de V. Ela afirma que há anos não fecham dez na graduação. “Ah, e três deles são imigrantes. O que é muito louco, é uma construção completamente diferente. Pra eles, até agora pelo menos, racismo não existia”.

Ela afirma que é necessário um espaço em que a fala seja livre, onde haja a sensação de pertencimento e que outros entendam quando precisar dizer que “hoje eu tive a pior aula do mundo porque meu professor disse que cotas são mimimi”, nas palavras de V. “Se eu falar exatamente a mesma frase pros meus colegas brancos é automático: ‘ah, puxa, que saco’, e voltam a jogar sinuca. É angustiante tu não conseguir dividir com aquela pessoa que tá ali todo dia contigo, que assiste todas as aulas contigo e que não consegue te entender”.

Elas contam que a falta de apoio dos colegas brancos é uma constante. Há pouco tempo, souberam do caso de uma estudante de Arquitetura e Urbanismo – curso conhecido pelos altos custos em materiais e a dificuldade de manutenção dos alunos. Em uma das disciplinas, o professor teria proposto levar a turma para a Europa. “Saída de campo”, elas ironizam. “As pessoas foram?”, pergunto, esperando um não. “Claro! Grande parte topou a ideia”, contou B. “Quando essa menina negra ouviu isso em aula ela ficou procurando apoio, pois sabia que seria uma das poucas que não poderia ir”, completa V. “Professor é Deus na UFRGS”, diz B. “E o pior é que ela disse que olhou pras amigas dela tipo: ‘vocês sabem que eu não tenho dinheiro, me apoiem’ e nada”. “Te apoio da Europa”, comenta V.

Elas narram essa realidade universitária excludente de maneira quase didática. Há um entendimento recíproco de que não se pode haver total compreensão do que sentem. “Racismo existe. As vezes é o detalhe do detalhe, mas não deixa de existir”, diz B. O fato é que, para elas, estar na universidade fortalece muito outros negros para que continuem. Só pela presença; só por esse “oi negro”. “É inspirador pensa ‘ah, olha, ela tá conseguindo”, explica V.  “Os professores não tão nem aí se tu não aprendeu a derivar na escola, se tu não fez aulas de inglês, se tu não pode fazer cursinho pra rever os conteúdos. Tu que estude pra prova que vai ter derivação, termo em inglês e o que mais precisar”.

Pergunto se a página vai começar a incomodar os professores. “É necessário, logo logo vai acontecer”, diz V. Mas surge a dúvida: até que ponto adiantaria? “Os professores têm vários processos, mas eles mantêm uma soberania, são quase intocáveis”, afirma B.

Construções de década em década 

“Eu sempre fui educada no sentido de saber que sou negra e que vou ter que lidar com certas coisas”, afirma V. “Tem famílias que preparam, e outras que não”.

A família de B. não a preparou. “Eles sempre passam por cima e fingem que não aconteceu”. Ela conta, por exemplo, que era incentivada a alisar o cabelo quando era mais jovem. “No momento em que eu comecei a me identificar, eles surtaram”. A pior discussão que B. teve com seu pai, foi quando ele afirmou que o negro se exclui. “Eu não sei como ele consegue pensar isso ainda”.

O pai de B. fez duas faculdades sem cotas. Seu pensamento é embasado pelo “se eu passei por isso, por qual motivo tu não pode passar?”. “Só que é um discurso pré-fabricado, tá aí há muito tempo, foi criado pelos brancos e não serve pra muita coisa”, ela completa.

Elas afirmam que há um aspecto geracional muito forte. “Os pais de agora, em geral, são assim. Eles passaram por coisas muito piores do que a gente. Por isso que as mães, na maioria, alisam o cabelo. E os pais ou não ligam ou passam por cima. É muito difícil alguém acima dos 40 anos falar algo que vá contra a cultura do racismo”. “Mas a gente cansou”, diz V.

“Moreninha”

Elas mudam de assunto. Falam sobre moda, assumir o cabelo natural e tendências da sociedade. “A escola e a universidade são nichos do que acontece aqui fora”, opina V. “Só que tu constrói uma identidade ali, e aquelas pessoas vão te moldar”. “Eu estou nos meus 20 anos e já me sinto destruída na universidade”. Ela introduz um assunto pouco debatido, mas que descreve outra face encoberta do racismo: a solidão da mulher negra.

Na época do colégio, B. e V. foram as últimas a pertencer ao grupo dos que beijavam. “Quando nossas amigas já estavam no terceiro namorado”. Eram as feias, de cabelo ruim. “A desgraça da desgraça”, resume V.

Anos depois, tomaram consciência de seus corpos, da sua beleza e do que queriam para si. “Tu entra na faculdade e pensa: ‘agora vai, Brasil!”. Mas, imagine. Os mesmos opressores infantis crescem, muitos moldados pelos mesmos padrões, e continuam sua educação.

B. decidiu parar de alisar o cabelo. Cortou as pontas danificadas pela química e pelo excesso de calor e começou a tratar seus cachos. Ao ir nas festas da faculdade, começou a observar um padrão nos homens. “Tem alguma coisa acontecendo”, ela se recorda de falar para V. “Tu já ouviu falar naquele texto sobre solidão da mulher negra?”. “Nunca”. “Então não lê”.

Leu. Ao terminar, pensou: “mais uma coisa que eu terei que lidar”. Isso significa que depois de assumir seus cachos, B. se tornou menos desejada. Mais negra, portanto, menos bonita. Viver sozinha, morrer sozinha – a hipótese a apavorou. “Tentei me acalmar pensando que eu conseguia lidar com isso”. Ela chegou à conclusão minimalista e precipitada de que conseguiria viver sem a parte amorosa; mas não conseguiria deixar a sexual de lado. “E aparecia uma cara. Depois outro cara, depois outro cara….” Até que ela se apaixonou. “E ele não me deu espaço na vida dele, não queria nada além do meu corpo”. Assim, veio a definição: esperar. “E ainda estou esperando por alguém que não queira só sexo”, ela diz. “Aceitar que tu vai morrer sozinha não existe”, ela continua. “Acho que não existe pra ninguém”.

Mas, ao mesmo tempo, as duas citam exemplos de mulheres em suas relações que passaram a vida inteira na solidão. No último censo, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010, dados sobre a mulher negra brasileira apontavam que, à época, mais da metade delas – 52,52% – não vivia em união, independentemente do estado civil.

Quando V. começou a namorar pela primeira vez, o pensamento de ‘não vou morrer sozinha’ a atingiu junto com uma carga de alívio e felicidade. Porém, ela tinha que conviver com a família racista do menino. “Pra eles, não importa o quanto a mulher negra vai ser boa”. Ela podia ter a melhor formação, o melhor trabalho, falar nove línguas; mas ela continua sendo negra. “A moreninha que é pra foder e a branca que é pra casar”, B. resume.

De favor 

“O meio acadêmico é o que mais tem que ouvir umas coisas”, diz V. , sem esquecer o contexto das cotas. Desde 2012, a UFRGS reserva certa porcentagem de vagas através da política de ações afirmativas, ou seja, de medidas especiais para combater desigualdades históricas, com propósitos compensatórios. 50% das vagas são destinadas em todos os cursos para estudantes oriundos de escolas públicas, de acordo com autodeclaração étnico-racial e faixa de renda.

Sobre as fraudes que ocorreram nos últimos anos, as meninas são diretas: “A gente tem que lutar pra tirar pessoas do lugar que elas não pertencem, a universidade não está nem aí”. “Afinal, ela já fez muito ao permitir as cotas”, ironizam. Assim, o sentimento geral entre os estudantes negros é de que estão recebendo um favor da instituição. Segundo elas, “pra você é muito mais fácil, você tem cotas” e “negro, hum, deve ser cotista” são pensamentos cotidianos vindo dos colegas e até professores.

Outro fator é a permanência na universidade. É caro estudar, mesmo que não se pague uma mensalidade. Há custos com transporte, alimentação, material e, muitas vezes, não há a oportunidade de trabalhar ou estagiar simultaneamente. “Quantos negros terminam o curso? A universidade não está preocupada com a permanência dos cotistas”, aponta V. O primeiro semestre é um filtro. Alguns cursos mantêm horário integral, com aulas pela manhã, tarde e noite. O que não permite que os alunos trabalhem ou façam estágios, cursando a grade completa.

B. abriu mão de uma grande quantidade de disciplinas este semestre. Quando não estuda, trabalha. “E tem gente que me pergunta: ‘Sumida, por onde tua anda?’ ‘Trabalhando, tenho que me sustentar, né”. E, segundo elas, a universidade não pensa nisso.

Cara UFRGS Branca, 

A página, em si, é muito recente. A primeira postagem tem menos de um mês. Porém, as quase cinco mil curtidas confirmam a importância do conteúdo. “Foi tudo muito rápido, especialmente como a página se espalhou. Um dia estávamos pensando no primeiro post e no seguinte já tinha passado dos mil likes. Não deu nem tempo de preparar o segundo”, conta V.

As meninas afirmam que estão pensando na entrada de mais pessoas – um homem gay, por exemplo, para poder cobrir o máximo de pautas possível. “São os grupos mais na base da pirâmide social, infelizmente, os mais oprimidos. A universidade oprime o que a sociedade oprime”.

Porém, ainda assim, elas afirmam temer perseguições dentro da universidade, tanto de colegas quanto da própria instituição. “Teve muita perseguição após as ocupações. Depois que terminou, os nomes continuaram sendo expostos”, conta B. “Teve aquela menina que foi desligada do curso”, lembra B. “Eu não sei até que ponto isso se tornou comum, mas acontece”.

V. diz ficar tensa ao ver certos comentários na página. “Me faz perceber que conhecidos ou até amigos compartilham o mesmo pensamento [racista]”.  A página toca em feridas com as quais as criadoras acreditam que, infelizmente, as pessoas brancas não sabem lidar. E, segundo contam, a primeira reação é a agressão. “Dá pra entender que é difícil reconhecer privilégios, e é um trabalho difícil pra qualquer um. Entendo que isso pode ser um bloqueio muito forte, que acaba refletido em opressão”, explica V.

Porém, o grande número de compartilhamentos, curtidas e comentários positivos faz com que as duas reconheçam a relevância do que estão fazendo. “Ficamos muito felizes quando vemos pessoas marcando os amigos nas postagens, especialmente os amigos brancos”, afirma B. Mas, para as reações negativas, elas contam que criaram um ‘mural da vergonha’ com uma seleção de “comentários absurdos”. “São coisas que a gente escuta desde que nos entendemos por gente, mas tem uma hora que chega, né?”.

*Os nomes foram ocultados para preservar as criadoras. 

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