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Carnaval da Desigualdade

Carnaval da Desigualdade

O carnaval está na porta e mais uma vez não podemos deixar de observar sua beleza e também suas desigualdades sendo coloridas e adornadas com paetês.

Por Fernanda Santos Santiago para o Portal Geledés 

O carnaval de Salvador é a maior festa popular de rua do país e uma das maiores do mundo. Para isso, faz-se necessário o envolvimento de várias instâncias, tanto na esfera municipal quanto na estadual, para planejar e desenvolver suas ações carnavalescas. A segurança é reforçada através da intensificação do monitoramento via câmeras instaladas pela cidade, aumento e qualificação da rede hoteleira, maior contratação de guias turísticos, os horários dos transportes rodoviários são reajustados e linhas específicas são inseridas na ocasião, bem como serviços médicos, entre outros. A cidade se movimenta em torno da festa, os bairros onde ficam localizados nos circuitos tem sua rotina completamente alterada em prol do melhor funcionamento possível da festa, os investimentos são distribuídos entre: infraestrutura, alimentação, limpeza, transporte, comunicação, segurança e hotelaria.

Convoca-se um “exército” de trabalhadores/as para servir os foliões, “coincidentemente” a maioria desses trabalhadores são os de pele negra, principalmente no caso daqueles serviços que exigem trabalho pesado – braçal. Quem são os cordeiros, ambulantes, seguranças, catadores de resíduos sólidos? São justamente os negros oriundos de bairros periféricos de Salvador e também do interior do Estado. De acordo com pesquisas realizadas: “Por mais um ano, o Suplemento do Carnaval buscou mapear o perfil do trabalhador do evento e a pesquisa indicou que este indivíduo é principalmente homem, de cor negra, com idade superior a 25 anos e não migrante.” (INFOCULTURA, 2010). Com isso, compreendemos que o público trabalhador possui um lugar demarcado e um perfil bem contornado.

Percebemos que o racismo no Brasil permanece influenciando direta e indiretamente as relações sociais, econômicas e políticas, nas palavras de Cunha, “Apesar dessas teorias terem perdido sua validade científica, elas continuam tendo um fortíssimo efeito na sociedade, a ponto de criar modelos mentais que identificam os negros e índios como seres inferiores (…).” (Cunha 2007). Para Carlos Moore, a permanência do racismo nas sociedades contemporâneas pode ser explicada pela historicidade que envolve a sua constituição ao longo dos tempos. Mais do que uma ideologia “o racismo teria se constituído historicamente…” (Moore, 2007). Diariamente percebemos essas nuances, mas durante o carnaval isso fica evidente e é “cordialmente aceito”.

De acordo com pesquisas desenvolvidas pela Secretaria Municipal da Reparação – SEMUR através do Observatório Racial, Lgbt e violência contra Mulher, observamos que o número de ocorrências relativos aos focos Racial, Lgbt e Violência contra Mulher, que foram observados na pesquisa, subiu de 3016 no ano de 2015 para 5629 no ano de 2016, desses, 887 foi do foco racial e representa um aumento de aproximadamente 33,8% em relação a 2015. Com a pesquisa da Secretaria de Cultura – SECULT denominada Infocultura, percebe-se que a população que brinca no carnaval e mora em Salvador e região metropolitana, é de maioria negra, saem como folião pipoca e/ou trabalham no comércio. Possui também baixo grau de escolaridade: “Em relação à escolaridade, o maior percentual de analfabetos (28,9%) foi registrado entre foliões “pipoca”, enquanto que, entre os participantes dos camarotes, 35,3% possuíam nível superior.” (INFOCULTURA, 2010). Marcando incisivamente o perfil desses foliões, a subalternização desses corpos acaba tomando cor, majoritariamente, senão completamente, a negra. Esse aumento no número de ocorrências relativas a questão racial reforça a importância em atuar no combate ao racismo durante todo o ano e principalmente no carnaval.

Já que durante a folia a permissividade comanda as ações e reverbera uma série de problemáticas, ocasionando inúmeras violências e intolerâncias.

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