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Centro de Referência da Igualdade Racial em São Paulo terá atenção aos índices de desigualdades

Centro de Referência da Igualdade Racial em São Paulo terá atenção aos índices de desigualdades

Espaço inaugurado nesse dia 8 de março, pela SMPIR funcionará  em parceria com Geledés – Instituto da Mulher Negra

Por Claudia Alexandre, no Portal Africas

Fotos: Léo Vitulli

“Temos que ter uma atuação e políticas públicas diferenciadas para a mulher negra, que é maior vítima de violência por causa do racismo. São as que mais estão morrendo por causa do feminicídio, as mais encarceradas e as que mais sofrem a violência vendo seus filhos, maridos e companheiros sendo mortos pela polícia” – Maria Sylvia Aparecida de Oliveira – presidente do Geledés

“A luta contra o racismo e pelos direitos da mulher sempre caminharam paralelamente. Um Centro de Referência de Promoção da Igualdade Racial fará a junção destas duas lutas”. Nádia Campeão – vice-Prefeita da Cidade de São Paulo

“Acima de tudo (nós mulheres negras) precisamos estar no poder e ocupar espaços de comandos. Temos que aparecer todos os dias como protagonistas. Precisamos olhar para a TV e entender que não precisamos parecer com a atriz de novela. E os publicitários precisar acordar, pois a mulher negra não gosta só de sabão. Usamos perfume, lingerie, compramos carro e apartamentos bacanas. Estamos cansadas de comerciais que nos prejudicam”. Leci Brandão – Deputada Estadual

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Centro de Referência Igualdade Racial

De acordo com dados do último censo demográfico (2010), 37% da população de São Paulo é formada por negros (pretos e pardos). O que mais chama atenção é que nesta fatia, onde estão 4, 16 milhões de afrodescendentes, boa parte é composta por crianças e jovens, moradores das periferias, em constante risco social. Uma preocupação que está pautando a Secretaria Municipal de Promoção da Igualdade Racial, que iniciou nesta terça-feira, dia 8 de março (Dia Internacional da Mulher)  a implantação de espaços para a prestação de atendimento e orientação multiprofissional em casos de discriminação racial.  Serão os Centros de Referência de Promoção da Igualdade Racial.

O bairro de Vila Maria, na Zona Norte, recebeu o primeiro descentralizado da cidade de São Paulo. Todas as atividades serão oferecidas em parceria com o Geledés Instituto da Mulher Negra, que tem realizado um trabalho importante na luta contra as desigualdades raciais e de gênero. A programação gratuita inclui oficinas, debates, palestras, ações pedagógicas e outras ações relacionadas à inclusão e igualdade. A ideia é que os equipamentos sejam um centro permanente de vigilância, valorização e respeito à identidade, principalmente para a população das periferias.

Segundo Maurício Pestana, Secretário da SMPIR, também haverá uma atenção especial à população jovem. Só em 2013, 61.5% dos homicídios ocorridos entre homens de 15-29 anos era de jovens negros, indicando que essa população ainda é muito  vulnerável.  “Nas periferias a questão racial encontra os maiores embates. Sabemos que a cada 10 jovens que são mortos, 8 são negros. A mudança só se dará a partir da educação e da conscientização”. Entre os objetivos está o de capacitar e atuar junto às escolas como forma de diminuir o preconceito racial, a partir da infância. “Sabemos que hoje, os principais problemas de racismo acontecem nas escolas. As práticas mais cruéis se dão na infância e na fase escolar”, alertou.

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Maria Sylvia – Geledes, Maurício Pestana SMPIR e Nadia Campeã vice-prefeita

Mulher Negra e o Racismo

Para a presidente do Geledés, Maria Sylvia Aparecida de Oliveira, a parceria para a gestão do novo Centro de Referência de Promoção da Igualdade Racial  ganha ainda mais valor, para a história do instituto que a quase 30 anos presta atendimento à população afrodescendente. “A implantação do SOS Racismo nos capacitou para a atuação multidisciplinar. No Centro de Referência ofereceremos um trabalho diferenciado com um olhar específico para as questões étnico-raciais, o que não ocorre em outros equipamentos públicos”, explicou.

Além de profissionais nas áreas de direitos humanos, educação, saúde, comunicação e mercado de trabalho, a parceria terá reforço das  chamadas Promotoras Legais Populares, que são mulheres recrutadas pelo próprio Geledés nas periferias de São Paulo,  para auxiliar no atendimento da população local, no enfrentamento à violência doméstica,  violência  racial e nos casos de discriminação racial.

Em abril, o Geledés – Instituto da Mulher Negra completa 28 anos de fundação com intervenções políticas importantes nas principais discussões sobre as questões étnico-raciais no Brasil, e até internacionalmente. Um trabalho que tem reafirmado a necessidade cada vez maior de adoção de políticas públicas para a promoção da igualdade racial, sempre atenta à questão de gênero.

Maria Sylvia lembra também de um dos maiores problemas enfrentados pelas mulheres negras.  “São mulheres que têm mais dificuldades de acesso ao mercado de trabalho, de promoção no mercado de trabalho e de salário digno. Nós do Geledés entendemos que neste dia 8 de março temos que ter um olhar e uma reflexão, para pensarmos em políticas públicas diferenciadas”, concluiu.

De acordo com o IBGE (2010), um homem negro com nível superior completo, ocupando cargos da gerenciais ou chefia, ganha em média 31.5% menos que um branco nas mesmas condições. Para as mulheres negras com nível superior completo, ocupando cargos gerenciais ou chefia, essa diferença é ainda maior: elas ganham 37.5% a menos que mulheres brancas com as mesmas características educacionais e profissionais.

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