| Cheikh Anta Diop |
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Cheikh Anta Diop, nascido em 29 de dezembro de 1923 em Thieytou, falecido em 7 de fevereiro de 1986 em Dakar, foi um historiador e antropólogo senegalês. Em seus estudos, ela enfatizou a contribuição da África e, em particular, da África negra, à cultura e à civilização mundiais. Hoje suas teses são contestadas e pouco retomadas na comunidade científica ocidental.[1][2][3]
O Homem e sua Obra
Cheikh Anta Diop nasceu em 29 de dezembro de 1923 em Thieytou, na região de Diourbel (Senegal). Sua família era de origem aristocrática wolof. Aos 23 anos foi para Paris, afim de estudar física e química, mas interessou-se também pela história e pelas ciências sociais. Seguiu, em particular, os cursos de Gaston Bachelard e de Frédéric Joliot Curie.[4] Adotou um posto de vista especificamente africano diante da visão de certos autores da época, segundo a qual os africanos são povos sem passado.
Em 1951, sob a orientação de Marcel Griaule, Diop defendeu uma tese de doutorado na Universidade de Paris, na qual afirmava que o Egito antigo era povoado por africanos negros[5] e que a língua e a cultura egípcias se difundiram em seguida na África do Oeste. Em um primeiro momento não conseguiu reunir uma banca, mas segundo Doué Gnonsoa, sua tese « ecoou muito sob a forma de um livro, Nations nègres et culture, publicado em 1954.[6] Defendeu finalmente seu doutorado em 1960. Prosseguiu, ao mesmo tempo, uma especialização em física nuclear, no Laboratório de Química Nuclear do Collège de France. Diop recorreu à sua formação pluridisciplinar para combinar vários métodos de abordagem.
Apoiou-se em citações de autores antigos como Heródoto[7] e Estrabão para ilustrar sua teoria, segundo a qual os antigos egípcios apresentavam os mesmos traços físicos que os africanos negros de hoje (cor da pele, aspecto do cabelo, do nariz e dos lábios). Sua interpretação de dados de ordem antropológica, como o papel do matriarcado, e de ordem arqueológica levaram-no a concluir que a cultura egípcia é uma cultura negra. No plano linguístico, considerou em particular que o wolof, hoje falado na África ocidental, é foneticamente aparentado com a língua egípcia antiga.
Após obter seu doutorado em 1960, regressou ao Senegal para ensinar na Universidade de Dakar - mais tarde rebatizada Universidade Cheikh Anta Diop (UCAD)[8] e ali obteve, em 1981, o título de professor. Desde 1966 criou, naquela universidade, o primeiro laboratório de datação de fósseis arqueológicos por meio do rádiocarbono[9], em colaboração com o laboratório do Comissariado Francês Para a Energia Atômica (CEA), de Gif-sur-Yvette. Efetuou igualmente no laboratório testes de melanina, a partir de amostragens da pele de múmias egípcias, cuja interpretação, segundo Diop, permitiria confirmar os relatos de autores gregos antigos sobre a melanodermia dos antigos egípcios.[10]
Na década de 1970, Diop participou do comitê científico que dirigia, no âmbito da UNESCO, a redação de uma História geral da África. Enquanto tal, participou em 1974 do Colóquio Internacional do Cairo, onde confrontou seus métodos e resultados de suas pesquisas com os dos principais especialistas mundiais. Em seguida a esse colóquio, foi-lhe confiada a redação do capítulo consagrado à origem dos antigos egípcios.
Segundo Doué Gnonsoa, Diop foi um dos principais instigadores da democratização do debate político no Senegal, onde aninou a oposição institucional ao regime de Léopold Sédar Senghor, através da criação de partidos políticos (o FNS em 1961, o RND em 1976), de um jornal de oposição (Siggi, em seguida rebatizado para Taxaw) e de um sindicato de trabalhadores rurais. Sua confrontação, no Senegal, com o propugnador da negritude foi um dos episódios intelectuais e políticos mais marcantes da história contemporânea da África Negra[14].
Cheikh Anta Diop morreu enquanto dormia em Dakar, em 7 de fevereiro de 1986. Ao lado de Théophile Obenga e Asante Kete Molefe, é considerado um dos inspiradores da corrente epistemológica da afrocentricidade. Em 1996, por ocasião do Primeiro Festival Mundial das Artes Negras de Dakar, Diop foi distinguido como « o autor africano mais influente do século XX[15] . Em 8 de fevereiro de 2008 o Ministro da Cultura, Mame Birame Diouf, inaugurou um mausoléu que perpetua a memória do pesquisador na localidade de Thieytou, sua aldeia natal, onde ele repousa.[16]. Este mausoléu consta da lista dos sítios e monumentos tombados no Senegal[17].
A Teoria Historiográfica de Cheikh Anta Diop Chekih Anta Diop reuniu os resultados de suas investigações na última obra que publicou antes de morrer, intitulada Civilisation ou barbarie, anthropologie sans complaisance[18] (Civilização ou bar bárie, antropologia sem condescendência), na qual expõe sua teoria historiográfica, tentando responder as principais críticas que sua obra suscitou entre os historiadores e egiptólogos de má fé [19]
Anterioridade das Civilizações Negras De acordo com Diop[20], o homem (homo sapiens) surgiu sob as latitudes tropicais de África, na região dos Grandes Lagos. A cadeia de hominização africana seria a única completa, a mais antiga e, igualmente, a mais prolífica. Em outros lugares seriam encontrados fósseis humanos representando elos esparsos de uma sequência de hominização incerta.
Diop coloca que os primeiros homo sapiens deviam provavelmente ser de fenotipo negro porque, segundo a regra de Gloger, os seres vivos originários das latitudes tropicais segregam mais melanina em sua epiderme, a fim de se protegerem dos raios solares. Isto lhes proporciona uma tez com nuances mais escuras (ou menos claras). Para ele, durante milênios houve na terra somente negros[20], e em nenhum outro lugar do mundo que não a África, onde as mais antigas ossadas de homens modernos descobertas têm mais de 150.000 anos[21], enquanto que, em outros locais, os mais antigos fósseis humanos (por exemplo, o Oriente Médio) têm cerca de 100.000 anos.
Segundo Günter Bräuer, os fósseis humanos são mais antigos na medida em que se encontram na África, no coração do continente. São mais recentes na medida em que se encontram fora dela, longe da África[22]. De acordo com Yves Coppens, até agora não foi apresentada exceção alguma à esta regra de coerência da teoria Out of Africa , que continua sendo a única a apresentar um grau tão elevado de estabilidade[23].
Se a África é o berço da humanidade então, segundo Diop, os mais antigos fenômenos civilizatórios devem ter ocorrido necessariamente naquele continente[24]. De acordo com Nathalie Michalon, nascida na África[25], ali o homem experimentou as mais antigas técnicas culturais antes de conquistar o planeta, precisamente graças a elas. Assim, a confecção de utensílios (líticos), a cerâmica, a sedentarizaçãoo, a domesticação, a agricultura, o cozimento etc. existiram na África antes do que em qualquer outro lugar do mundo[26].
Segundo Diop[27], como a África possui uma superfície aproximada de trinta milhões de quilômetros quadrados, imagina-se que a hominização de todo esse espaço deve ter-se realizado durante milhares e milhares de anos. Assim, os fósseis/fenômenos humanos da metade sul da África são, em geral, mais antigos dos que os da metade norte. De acordo com um boletim do Instituto Francês da África Negra, essa imensidade geográfica do primeiro meio-ambiente do homo sapiens, levando-se em conta sua grande diversidade climática, teve como consequê ncia diferenciar, desde muito cedo, a humanidade africana, dos pontos de vista fenotípico e morfológico.[27].
No fim de milhares de anos, colônias humanas teriam emigrado para as regiões limítrofes da África, onde se localizam os mais antigos fósseis humanos após os da África, isto é, n a Ásia meridional e na Europa meridional. A principal causa natural das primeiras migrações humanas consistiria de evoluções climáticas : na sucessão de períodos chuvosos e de seca na África, correspondendo respectivamente a períodos de glaciação e/ou precipitação em suas regiões limítrofes, na Europa meridional e no Oriente Médio. Segundo Diop, o homo sapiens teria seguido, nos primeiros tempos, a disponibilidade natural dos recursos alimentares, animais e vegetais, ao sabor das conjunturas climáticas, seguindo sempre os caminhos naturais de saída da África (Sicília, sul da Itália, ístmo de Suez, estreito de Gibraltar)[28]. Segundo Hominides, um site da internet, os catalizadores culturais daquela migração consistiriam do domínio do fogo[29], o que permitiu viver em regiões temperadas, e, de acordo com Diop, a invenção da navegação[30], a qual possibilitou atravessar vastas extensões aquáticas.
Segundo Théophile Obenga, até a primeira metade do século XX, essa perspectiva historiográfica de Diop se situa no extremo oposto de tudo aquilo que é comumente difundido[31], após Hegel, Hume, Kant, Rousseau, Hobbes, Marx, Weber, Renan etc. Assim, o livro de Diop, Nations nègres et cultures, seria a primeira obra dessa envergadura a estudar a África anterior ao tráfico negreiro árabe e europeu, em épocas mais antigas. Ainda segundo Obenga, Diop introduz em sua obra uma profundidade diacrônica que não existia, radicalmente diferente dos trabalhos etnológicos ou antropológicos geralmente a-históricos[32] : o livro mais audacioso que um negro jamais escreveu , dirá Aimé Césaire em seu Discurso sobre o colonialismo.
O Egito como uma Civilização Negro -Africana
Devido a seus Habitantes Autores antigos Diop assinala que segundo Heródoto, Aristóteles, Estrabão e Diodoro de Sicilia, os egípcios tinham a pele negra [33). Assinala igualmente a opinião do conde de Volney[34], para quem os egípcios seriam descendentes de « negro ». Outros autores como Mubaginge Bilolo retomarão e desenvolverão este argumento.
KEMET Segundo Cheikh Anta Diop, por meio da expressão Kemet, os egípcios designavam-se, em sua própria língua, como um povo de negros [35] Em apoio a sua tese, ele invoca uma grafia insólita [36) do termo km.t, determinada por um homem e uma mulher sentados, grafia traduzido como « os egípcios « , mas que o egiptólogo afrocêntrico Alain Anselin traduz como « uma coletividade de homens e mulheres negros »[37]. Conhece-se apenas uma ocorrência desta representação[38], em um texto literário do Império Médio. Em egípcio antigo, Kemet se escreve tendo como raiz o termo km, negro, que Diop pensa ser a origem etimológica da raiz bíblica kam . Para ele, as tradições judaica e árabe classificam geralmente o Egito como um país de negros[39]. Além disso, segundo Diop, o morfema km proliferou em numerosas línguas negro-africanas, nas quais conservou o mesmo sentido de « negro, ser negro . Sobretudo na língua materna de Diop, o wolof, khem significa negro, carbonizado por excesso de cozimento. Na língua pulaar, kembu significa carvão.
Testes de Melanina Segundo Cheikh Anta Diop, os procedimentos egípcios de mumificação não destruíam a eipiderme a ponto de tornar impraticáveis os diferentes testes de melanina que permitem reconhecer sua pigmentação. Ao contrário, dada a confiabilidade de tais testes, Diop se surpreende com o fato de que eles não tenham sigo generalizados, em relação às múmias disponívewis. Com amostragens de pele de múmia egípcia, « obtidos no laboratório de antropologia física do Museu do Homem em Paris », Cheikh Anta Diop realizou pequenos cortes, e a observação microscópica, com luz ultravioleta, o levou a « classificar indubitavelmente os antigos egípcios entre os negros »[40].
Devido a sua Língua A argumentação linguística de Diop comporta dois aspectos[41]. Por um lado, o autor tenta provar que o egípcio antigo não pertence à família afroasiática[42]. Por outro lado, tenta estabelecer positivamente o parentesco genético do egípcio antigo com as línguas negro-africanas contemporâneas.[43]. Assim, de acordo com Diop e Obenga, as línguas negro-africanas contemporâneas e o egípcio antigo possuem um ancestral linguístico comum, cuja matriz teórica (ou « ancestral comum pré-dialetal ») teria sido reconstituído por Obenga, que batizou-o como « negro-egípcio ». A língua materna de Cheikh Anta Diop era o wolof (wolof, ouolof) e ele aprendeu o egípcio antigo por ocasião de seus estudos de egiptologia o que, segundo ele, lhe permitiu constatar concretamente que havia semelhanças entre as duas línguas[44]. Tentou, então, verificar se tais semelhanças eram fortuitas, emprestadas ou filiais.
Exemplo de semelhanças : nad : pedir (em egípcio) | lad : pedir (em wolof) Segundo Diop, existe uma equivalência regular entre o sentido do termo egípcio e o do termo wolof. De maneira mais geral, existiria uma concordância perfeita entre o campo semântico dos termos egípcios e o dos termos wolof da mesma morfologia. De acordo com Alain Anselin, o fenômeno de duplicação (benben/bel bel) é generalizado no egípcio antigo e nas línguas negro-africanas modernas : egípcio : dgdg = esmagar com o pé, espezinhar Diop observa uma « lei de correspondência » entre o n, em egípcio, e o l, em wolof. Observa igualmente que, na presença de um morfema com uma estrutura nd em egípcio, encontramos geralmente um morfema equivalente em wolof, com estrutura ld. O grande especialista de linguística histórica Fernand de Saussure estabeleceu que este tipo de correspondências regulares quase nunca é fortuito em linguística, e que isto se adequa a uma « lei » fonológica, denominada « sound laws ». Para Diop, a estrutura consonantal do termo egípcio (nd) é a mesma do termo wolof (ld), sabendo que, frequentemente, as vogais não são escritas em egípcio, mesmo quando são pronunciadas. Isto, segundo ele, quer dizer que quando se nota a vogal a, no egípcio, é possivel encontrar outra vogal inteiramente diversa no morfema wolof equivalente. Neste caso a correspondência seria aproximativa somente na aparência, pois é a fonetização (a pronúncia) do egípcio segundo as regras de pronúncia semiticas que estaria errada. É claro que semelhante lei não se deduz a partir de dois ou três exemplos. Ele supõe o estabelecimento de séries lexicais exaustivas, como as que se encontram nas obras de Diop com dedicatória.[45]
COSMOGONIA Segundo Cheikh Anta Diop[46], a comparação das cosmogonias egípcias com as cosmogonias africanas contemporâneas (dogon, ashanti, yoruba[47] etc.) mostra radical semelhança que testemunha, segundo ele, um parentesco cultural comum. Ele aponta uma semelhança do Deus-Serpente Dogon com o Deus-Serpente egípcio ou ainda do Deus-Chacal dogon incestuoso como Deus-Chacal egípcio incestuoso. O autor invoca igualmente as isomorfias Noun/Nommo, Amon/Ama e, da mesma forma, as festas da semeadura e outras práticas culturais agrárias ou cíclicas.
TOTEMISMO O totem é geralmente um animal considerado uma encarnação do ancestral primordial de um clã. Assim sendo, o dito animal (ou, algumas vezes, um vegetal) é objeto de tabus que determinam atitudes cultuais específicas para o clã e que se designa pelo termo totemismo. Segundo Diop[48], esta instituição e as práticas cultuais a ela ligadas são encontradas no Egito assim como em outras culturas negro-africanas .
CIRCUNCISÃO
Segundo Diop[49], os egípcios praticavam a circuncisão desde o período pré-dinástico. Baseando-se no testemunho de Heródoto em Euterpe, ele pensa que essa instituição difundiu-se entre as populações semíticas a partir do Egito. Ela se encontra em outras culturas negro-africanas, sobretudo entre os Dogon, onde caminha par a par com a excisão. Assim, para Diop, circuncisão e excisão são instituições duais de sexuação social. Elas resultariam de mitos cosmogônicos relativos à androginia original da vida, em particular da humanidade (ele cita o exemplo de androginia de Amon-Râ).
DEVIDO A SUA SOCIOLOGIA REALEZA SAGRADA De acordo com Josep Cervello Autuori, a realeza egípcia comporta uma dimensão sacerdotal, como em outras regiões da África negra[50]. No entanto, segundo Diop[51], um traço ainda mais singular, comum aos soberanos tradicionais africanos, consiste na morte ritual do rei[52]. Esta prática seria encontrada sobretudo entre os yoruba, haussa, dagomba, tchamba, djoukon, igara, songhoy e shillouk. Segundo Diop, os egípcios teriam igualmente praticado o regicídio ritual, que teria se tornado progressivamente simbólico, através da festa do Sed, um rito de revitalização da realeza[53].
MATRIARCADO
Para Diop[54], o matriarcado se encontra nos alicerces da organização social negro-africana . Assim, como tal, ele existiria no Egito antigo, não só àtravés do matronimato como pela distribuição matrilinear dos poderes públicos. ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL
Segundo Diop[55], a sociedade egípcia antiga era estruturada hierarquicamente da mesma forma que as outras sociedades « negro-africanas » antigas. A partir da base da escala socioprofissional e, em direção ao alto, a estratificação social se comporia de camponeses, trabalhadores especializados, denominados « castas » em outros locais da África negra, guerreiros, sacerdotes, funcionários e o Rei-Sagrado, chamado « Faraó », em egiptologia.
DEVIDO A SUA CULTURA MATERIAL
Os mais antigos utensílios e técnicas de caça, pesca e agricultura, encontrados no Egito, são semelhantes àqueles que se conhece de outras regiões de África. O mesmo acontece com os diferentes penteados e seus significados, os cajados e os cetros reais. As pesquisas de Aboubacry Moussa Lam são particularmente decisivas para este campo de pesquisa, aberto por Diop. O conjunto de diferentes tipos de argumentos invocados pelos afrocentristas mobiliza diversas disciplinas científicas e constitui, segundo eles, um feixe de provas , isto é, um sistema argumentativo global, com sua própria coerência interna que ele estabelece como um paradigma epistemológico autônomo.
Todavia, a preocupação de Diop consiste menos em inovar em matéria de historiografia da África do que em conhecer profundamente a história da África, com o objetivo de extrair dela informações úteis para agir eficazmente sobre seu porvir. Não se trata também de orgulhar-se puerilmente de um passado glorioso, mas de conhecer de onde se vem para melhor compreender para aonde se vai. Daí sua notável perspectiva política em Les fondements économiques et culturels d´un État fédéral d´Afrique noire (Présence africaine, 1960) e sua implicação concreta na competição política do Senegal, seu país natal.
Inúmeros autores, embora reconhecendo que Diop teve o merito de liberara a visão do Egito antigo de seus viés eurocentrista, permanecem divididos em relação a algumas de suas conclusões. Certos pesquisadores africanos contestam a insistência de Diop na unidade cultural da África negra. Outros opinam que sua abordagem multidisciplinar o leva a aproximações sumárias em certos domínios como a linguística, ou que suas teses entram em contradição com os ensinamentos acadêmicos da arqueologia e da história da África e, em particular, do Egito. Suas pesquisas não são consideradas como fonte confiável para um parte dos historiadores atuais, os quais afirmam que elas despertam interesse apenas no plano da historiografia da África e não no conhecimento de seu passado.
O próprio Diop, na apresentação de Nations Nègres et Culture, não fazia mistérios sobre a dificuldade com que se deparou para dar provas de rigor diante da imensidão da tarefa à qual se dedicou. Contextualizar novamente sua obra nos incita a evocar o isolamento daquele pesquisador que questiona, com pouca ajuda exterior, vários séculos de estudos egiptológicos, realizados por egiptólogos de renome - Jacques-Joseph Champollion e seu irmão ou ainda Gaston Maspero :
O conjunto do trabalho (sua tese e o livro dela derivado) não passa de um esboço, ao qual faltam todas as perfeições do detalhe. Seria humanamente impossível a um único indivíduo oferecer semelhante contribuição. Isto só poderá ser o empreendimento de várias gerações africanas. Temos consciência deste fato e nossa necessidade de rigor sofre com isto [...] [56]
Para Mubabinge Bilolo, as aproximações sumárias nãoi constituem um ponto negativo, pois para ele Diop é um pioneiro que abriu perspectivas , traçou pistas de pesquisa e deixou uma série de tarefas para as futuras gerações[57].
O Egito, uma Etiópia O conceito de um Egito antigo negro já havia sido proposto por outros autores, mas a obra de Cheikh Anta Diop é fundadora na medida em que aprofundou consideravalmente o estudo do papel da África negra nas origens da civilização. Ela deu nascimento a uma escola de egiptologia africana, inspirando por exemplo Théophile Obenga, Mubabinge Bilolo e Molefi Kete Asante. Diop participou da elaboração de uma consciência africana liberada de todos os complexos diante da visão européia do mundo. Suas pesquisas e sua trajetória constituem hoje uma referência constante para os intelectuais africanos, talvez ainda mais do que Léopoldo Sédar Senghor, a quem Diop censurou por haver alienado a negritude, baseando-a em um tipo de razão diferente da razão européia. Os trabalhos de Cheikh Anta Diop, entre outros, originaram uma corrente historiográfica dita corrente da afrocentricidade. No plano linguístico, ele iniciou o estudo diacrônico das línguas africanas e aprofundou-se na história africana pré-colonial (fora do período pré-egípcio, largamente comentado). De agora em diante, o fato de que o Egito seja um civilização africana não é mais colocado em dúvida pelos egiptólogos, contrariamente às teorias raciais que visam a fazer dela uma civilização negra. Seu conceito - linguística histórica africana será generalizado por Théophile Obenga em relação a inúmeras outras línguas negro-africanas, sobretudo o mbochi, sua língua materna. Oum Ndigi[60] realizou estudos semelhantes sobre o basa[61]. Aboubacry Moussa Lam trabalhou nesse sentido no que se refere ao peul[62]. Alain Anselin detectou numerosas semelhanças regulares no que concerne a gramática do verbo, do gesto e do corpo em egípcio antigo e nas línguas negro-africanas modernas [63]. Assim, toda uma escola de linguística histórica africana nasceu dessas pesquisas, cujas autores e sua publicação são, de agora em diante, consequentes. Obenga renomeou negro-egípcia a teoria geral dessa linguística histórica africana.[65]
Arqueologia No sítio de Blombos foram exumadas as mais antigas obras de arte jamais encontradas. Elas datam de mais de 70.000 anos. No sítio de Kerma, os trabalhos do suiço Charles Bonnet provaram a originalidade da civilização de Kerma (3.000/1.5000)[66] em relação ao Egíto faraônico.
Epigrafia O egiptólogo Alain Anselin procurou demonstrar a africanidade da escrita hieroglífica. Para ele, se a repetida ausência de pares de homófonos necessários ao estabelecimento do código hieroglífico numa família de determinadas línguas torna difícil afirmar que este universo linguístico possa dar conta da elaboração da escrita hieroglífica , ele considera que o « paradigma africano seria dotado de um poder explicativo maior do que o do « paradigma semítico , que ele considera enviezado[67]. Anselin considera igualmente que os hieroglifos retratam o meio ecológico e societário que os viram nascer. Ora, a fauna e a flora desses signos escritos egípcios são, segundo ele, africanas, principalmente as da região dos Grandes Lagos, no coração da África, e a ictionomia egípcia apresentaria semelhanças com os nomes de peixes em diversas línguas negro-africanas contemporâneas.
Babacar Sall observa que na lista de sígnos da gramática egípcia de Alan H. Gardiner[68] os símbolos relativos aos instrumentos da pesca e da caça são particularmente numerosos, e avalia que eles correspondem a práticas e técnicas encontradas em toda a África negra ainda em nossos dias.[69]
Antropologia Política As comparações de Diop entre a instituição do Faraó e, entre outras, a do Damel, de Cayor ou do Mogho Naba, do Mossi, suscitaram outras pesquisas, sobretudo por parte de Alain Anselin, mas igualmente por parte de Cervello Autuori. Segundo este autor, a instituição política dita « a realiza sagrada » (E. E. Evans-Pritchard, Luc de Heusch, Michel Izard) seria encontrada no Egíto, como em outras regiões da África, da mesma forma que a prática ancestral do regicídio ritual. O Faraó, o Mansah, o Mwene ou o Mogho Naba são instituições estruturalmente análogas : sacerdotais e, ao mesmo tempo, políticas. Elas se distinguem radicalmente do Rei [70] :
A monarquia faraônica foi uma realeza divina africana ? Antes de mais nada, convém observ ar que, no Egito, o deus-que-morre é Osíris e que, como no caso dos reis divinos africanos, mas diferentemente dos outros deuses-que-morrem da Europa e do Oriente Médio antigos, Osíris também é rei (...). Assim como os reis africanos, Osíris é a personificação do principal alimento da comunidade, o cereal, a cevada (cf., por exx., Mystère de la succession, cenas 9 , 29-32 ; Textos dos sarcófagos, 269, 330 ; Lutas de Horus e Seth, 14, 10 ; Textos do sarcófago de Ankhnesneferibre, 256-302 ; Plutarco, Ísis e Osíris, 36, 41, 65, 70 ; cf. Também os Osíris vegetantes », representações do deus em argila, nas quais se enfiam grãos de cereais que acabam germinando). Ele próprio ou então os humores qae emanam de seu cadáver identificam-se com o Nilo ou com as águas fecundantes da cheia (cf. Textos des Pyramides, 39, 117, 788, 848, 1360 ; Hino de Ramsés IV a Osíris). A capital do Egito, Mênfis, é um centro que difunde a abundância porque o cadáver de Osíris flutuou nas águas do Nilo, no local em que ela se situava e ele foi enterrado ali (Teologia menfita, 61-62, 64). É porque Osíris, rei-deus morto, proporciona a abundância precisamente em sua condição de morto, de ser sacrificado (Frankfort, 1948, cap. 2). Além de ser o deus-que-morre, Osiris é também o primeiro ancestral da realeza (ser individual) e, na qualidade de rei morto, é aquele com o qual se identificam todos os reis ao morrerem (ser coletivo). Osíris, portanto, assemelha-se, sob todos os aspectos, ao rei-deus africano (...). Em conclusão, poderíamos nos perguntar como se explica esse parentesco e, em geral, como se exlicam os inúmeros paralelismos que existem entre o Egito e a África. Certos autores falaram de difusão e outros, de convergência. Quanto a nós, preferimos o conceito de « substrato cultural pan-africano , entendido como um patrimônio cultural comum que teria tido sua origem na época neolítica e do qual teriam emergido, no espaço e no tempo, as diversas civilizações africanas históricas e atuais.
As investigações de Diop neste domínio inspiraram sobretudo a obra intitulada Conception Bantu de l´Autorité, seguida de Baluba : Bumfumu ne BuLongolodi (Publications Universitaires Africaines, Munich-Kinshasa, 1994), dos autores Kabongu Kanundowi e Bilolo Mubabinge.
Crítica aos Trabalhos de Cheikh Anta Diop Embora tenha sido demonstrado, antes dos trabalhos de Diop, que o idioma egípcio não pertence ao grupo semítico das línguas afroasiáticas, dai não resulta necessariamente que ela não pertença ao phylum afroasiático(71]. Assim, o linguísta comparativo A. Loprieno[72] detecta sobretudo[73] as características comuns do egípcio e de outras línguas afroasiáticas , entre elas a presença de raízes bi e trilíteras,.constantes nos temas verbais e nominais que delas derivam ; a frequência de consoantes glotais e laríngeas, sendo a mais característica delas a oclusiva laríngea ayn, o sufixo feminino*-at ; o prefixo nominal ,m- ; o sufixo adjetivo -i (o nisba árabe). Por ocasião da Conferência Internacional de Toulouse (setembro d 2005), A. Anselin « fez uma comunicação relativa aos nomes dos números em egípcio antigo, na qual ele considera duas correntes de influência, uma delas o tchado-egípcio e a outro o egípcio-semítico »[74]. O parentesco genético do egípcio antigo com as línguas negro-africanas contemporâneas é contestado, da mesma forma, por certos filólogos e lexicólogos. Assim, Henry Tourneux, especialista em línguas africanas (mbara, fulfulde, junjuk, kotoko) e membro da unidade mista de pesquisa Linguagem, Línguas e Culturas da África Negra (CNRS)[75] observa que « a coincidência de três línguas não contíguas » não garante « o caráter comum, « negro-egípcio », de uma palavra : com efeito, não basta que um fato linguístico seja detectado em duas línguas não contíguas do « negro-africano » contemporâneo (sendo a terceira língua o egípcio antigo ou o copta), nem que os campos semânticos sejam idênticos para que se tenha a prova de que o fato linguístico em questão deriva de uma hipotética matriz « negro-egípcia »[76].
As críticas de Henry Tourneux foram objeto de uma resposta circunstanciada por parte de Théophile Obenga no « sentido da luta contra o africanismo eurocentrista »[77], na qual ela opina que seu contraditor não é competente em matéria de linguística histórica comparativa e sequer especialista em língua egípcia. Com efeito, Henry Tourneux é « especialista em línguas do Tchad e da lexicografia peul »[78]. Por outro lado, segundo Obenga, nenhum linguista especializado em linguística histórica ainda contestou seus trabalhos e os de Diop, particularmente no que diz respeito a regularidade das propriedades comuns às línguas negro-africanas, ao copta e ao egípcio antigo. Ora, sempre segundo Théophile Obenga, é precisamente tal regularidade, a qual se afirma como lei linguística, que fundamenta sua teoria geral do « negro-egípcio » : semelhanças esparas, irregulares, entre línguas ou grupos de línguas comparadas que podem se prender ou a coincidências ou mais seguramente, tendo em vista o paradigma afroasiático, a empréstimos recíprocos de linguas cujos falantes se situam geograficamente entre dois extremos, há milhares de anos. Para Obenga, o próprio fato de que as línguas africanas modernas não sejam contemporâneas do egípcio antigo e que muitas destas línguas sejam encontradas a milhares de quilômetros do Egito constituiria um argumento favorável à sua teoria linguística do « negro-egípcio »[79]. As teorias linguísticas de Obenga, todavia, não são reconhecidas pelas investigações linguísticas que estão sendo realizadas atualmente[80]. Foi censurada a falta de seriedade dessas teorias[81] e suas instrumentalização política[82].
São igualmente criticados os testes realizados por Cheik Anta Diop relativos à pigmentação da epiderme dos faraós, os quais, segundo ele, provariam que eles eram « negros ». Com efeito, um estudo realizado na múmia de Ramsés II pelo Museu do Homem em Paris, em 1976, concluiu que o faraó era um « leucodermo » de tipo mediterrâneo, próximo do tipo dos amazighes africanos[83] ».
Por ocasião de um colóquio internacional organizado em Dakar, de 26 de fevereiro a 2 de março de 1996, no décimo aniversário da morte de Cheikh Anta Diop[84], o antropólogo Alain Froment fez uma comunicação abertamente crítica quanto à continuidade de seus trabalhos anteriores[85]. Ainda em 1996, Xavier Fauvelle publicou um livro sobre Cheik Anta Diop, concebido como um balanço crítico[86]. Para o egiptólogo Jean Yoyotte « Cheik Anta Diop era um impostor. Um egiptólogo incapaz de ler o menor hieroglifo »[87]. OBRAS DE CHEIKH ANTA DIOP Nations nègres et culture : de l'antiquité nègre égyptienne aux problèmes culturels de l'Afrique noire d'aujourd'hui, (ISBN 2708706888) (1954) BIBLIOGRAFIA
Cheikh M'Backé Diop. Cheikh Anta Diop, l'homme et l'oeuvre, éd. Présence Africaine, 2003 NOTAS
Ver sobretudo o balanço dos julgamentos exercidos pela comunidade científica francófona, na notamment le bilan des jugements portés par la communauté scientifique francophone effectué dans la Revue canadienne des études africaines, vol. 23 no. 1, 1989, « Hommage à Cheikh Anta Diop, 1923-1986 : un bilan critique de l'œuvre de Cheikh Anta Diop » : « Esta obra (Nations nègres et Culture) foi acolhida favoravelmente por alguns e severamente criticada por outros. Jean Czarnecki (1956) mostrou-se compreensivo e, da mesma forma, o geógrafo senegalês Assane Seck (1955) convidou os especialistas a analisar as teses defendidas por Diop. Estas são aceitas por certos autores africanos, sobretudo por Théphile Obenga (1973), que apresenta-se como seu discípulo. Por outro lado, Raymond Mauny (1960), Jean Suret-Canale (1961), Louis-Vincent Monteil (1971, 16-17), Jean Leclant (1972), Maxime Rodinson (1972, 205-326, 558), Jean Duvignaud (1960), Louis-Vincent Thomas (1961), Maurice Houis (1980), Jean Louis Calvet (1974) e Piere Fougeyrollas (1977, 309) lhe fazem uma crítica severa. Do mesmo modo, a simpatia demonstrada por Maurice Caveing (1965) não é isenta de reservas. » Ligações externas La voix de Cheikh Anta Diop sur cesaire.org. Portail du Sénégal FONTE DE PESQUISA : Obtido em « http://fr.wikipedia.org/wiki/Cheikh_Anta_Diop ».
Tradução, pesquisa e seleção de imagens :Carlos Eugênio Marcondes de Moura Imagens obtidas em Google Imagens |


