| Luiz Silva (Cuti) |
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| Cuti |
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GOTA DO QUE NÃO SE ESGOTA
do livro Negroesia, 2007
cota é só a gota
Luiz Silva (Cuti) nasceu em Ourinhos-SP, e vive na capital. Formou-se em Letras (Português-Francês) na Universi-dade de São Paulo, em 1980. Mestre em Teoria da Literatura e Doutor em Literatura Brasileira pelo Instituto de Estudos da Linguagem - Unicamp (1999-2005). Foi um dos fundadores e membro do Quilombhoje-Literatura, de 1983 a 1994, e um dos criadores e mantenedores da série Cadernos Negros, de 1978 a 1993. OBRAS: Poemas da carapinha; Batuque de tocaia. (poemas); Suspensão (teatro); Flash crioulo sobre o sangue e o sonho (poemas); Quizila (contos); A pelada peluda no Largo da Bola. (novela juvenil); Dois nós na noite e outras peças de teatro negro-brasileiro; Negros em contos; Um desafio submerso: Evocações, de Cruz e Sousa, e seus aspectos de construção poética. (dissertação de mestrado); Sanga (poemas);A consciência do impacto nas obras de Cruz e Sousa e de Lima Barreto (tese de doutorado); Negroesia. (poemas);Contos crespos; Moreninho, Neguinho, Pretinho (ensaio educativo).Além de obras em co-autoria, o escritor publicou poemas, contos, peças de teatro e ensaios em antologias brasileiras e estrangeiras.
CRAVOS VITAIS
escrevo a palavra escravo e cravo sem medo o termo escravizado em parte do meu passado criei com meu sangue meus quilombos crivei de liberdade o bucho da morte e cravei para sempre em meu presente a crença na vida. TIÇÃO teus olhos esbugalhados ao brilho mais libertado do sangue coagulado no copo da escravidão anseiam libertação no passo da nova vida na ida à competição tição que acende o grito no rito do novo negro de alma e de coração couraça de sofrimento em busca do pensamento de ser na integração fogo vivo no terreiro a noite sem cativeiro nas cheias da hesitação – do olhar amarelo branco – com cerne esbugalhado guloso de liberdade. O SACI O Saci tinha duas pernas Uma dava passo africano Com os anos A cultura Fez a ruptura. EU NEGRO
Areia movediça na anatomia da miséria Pano-pra-manga na confecção apressada de humanidade Chaga escancarada contra o riso atômico dos ladrões Espinho nos olhos do esquecimento feliz de ontem Eu Eu feito de sangue e nada De Amor e Raça De alegrias explosivas no corpo do sofrimento e mágoa. Ponto de encontro das reflexões vacilantes da História Esperança fomentada em fome e sede Eu A sombra decisiva dos iluminismos cegos O câncer dos humanismos desumanos Eu Eu feito De Amor e Raça De alegrias incontroláveis que arrebentam as rédeas dos sentimentos egoístas Eu Que dou vida às raízes secas das vegetações brancas Eu Ébano que não morreu no temporal das agressões doentias Força que floresceu no tempo das fraquezas alheias Feito de Amor e Raça E alegrias explosivas. O FUTURO O futuro está no saco O futuro está nas trompas O futuro no entanto já está nas ruas O futuro das ruas é imediato Sente fome e sede frio e falta de afeto e vive no asfalto O futuro das ruas vende amendoim pede esmolas toma conta de automóveis mas não toma leite O futuro das ruas anda descalço e vira malandro O futuro das ruas apanha dos policiais se revolta é preso é morto O futuro das ruas se deteriora aos nossos olhos passivos E cegos no futuro do saco no futuro das trompas. POÇÍVEL Estranho parece de vez em quando o tamanho do mundo Os problemas indissolúveis E o resto sonhos. Entranho no meio dos sonhos e foices E coices E gritos gemidos açoites Silêncio multiplicado... Gadanho Suor-estanho Estranho lutar dia a dia Quem sabe? Quem sabia Que a descida de quem fugia abria uma cela de torturados?
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