por: Edson Lopes Cardoso
Os temas superação das desigualdades raciais e eliminação do racismo terão alguma importância na campanha eleitoral de 2010? Há capacidade de pressão política no movimento negro para estabelecer um contexto em que os candidatos fossem avaliados por sua adesão ou não a esses temas?
No ano passado, quando do desligamento da senadora Marina Silva do Partido dos Trabalhadores, algumas vozes que insuflavam sua candidatura à presidência da República sugeriram que ela poderia vir a captar um possível efeito Obama entre nós.
É certo que ninguém fez na ocasião referência ao fato de que uma temática marginal teria visibilidade excepcional caso a candidata assumisse politicamente uma identidade negra e se dispusesse a discutir, com propriedade e legitimidade, o papel estrutural do racismo e a exclusão da população negra.
Nada disso. Tratava-se apenas de definir o perfil da “irmã de Obama” e colher votos concretos em domínios simbólicos. A cor poderia fazer a diferença – desde que dissociada dos constrangimentos que a temática das desigualdades raciais e a eliminação do racismo provocam entre nós.
Por que a exclusão dos negros não afeta a legitimidade dos governos que se sucedem desde o início da República? Quem pensa nisso? Quem precisa mesmo da legitimidade de seres considerados inferiores, de uma subumanidade?
Vinícius Queiroz Galvão, repórter do jornal Folha de S. Paulo questionava dias atrás a legitimidade de um representante branco do Haiti, país de maioria negra. Nossa República nunca teve sua legitimidade questionada pelo fato de ignorar solenemente a maioria da população. Ao contrário, essa parcela majoritária é que tem sua existência negada e vilipendiada: não há negros, não há racismo.
A movimentação de ativistas negros nos arredores dos partidos só confirma o quanto estamos fora do espaço público. Enquanto isso não ocorrer - a ocupação do espaço público de forma coletiva, organizada e não-subalterna, a superação das desigualdades raciais e o combate ao racismo não serão elementos de destaque de nenhuma estratégia política.
Fonte: Ìrohin |
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Em novembro último, a Seppir tinha anunciado a aprovação do Estatuto “possível”, com base num amplo acordo político no Congresso Nacional. Não havia acordo e o presidente da República acabou improvisando um discurso a céu aberto em Salvador, que pode ser assim resumido: “vamos fazer política?”
Ontem se tratava do anúncio solene do Plano Nacional de Proteção à Liberdade Religiosa, em Brasília. O anúncio foi suspenso, segundo o Estadão, “na última hora”, por ordens da Casa Civil, a que está subordinada a Seppir. Ponha bastante subordinação nisso, sal a gosto.
A impressão que fica, nos dois episódios lamentáveis, é a de uma Secretaria que age desconectada tanto das áreas de decisão governamental, quanto da realidade das forças políticas no Congresso. Segundo a repórter Vera Rosa (o Estado de S. Paulo, edição de 21/01/2010, p. A4), “Santos não escondeu a decepção com a ordem para suspender o anúncio do plano”.
A frase não sugere que o ministro Edson Santos esteve participando de uma reunião com a ministra-chefe da Casa Civil. Ao contrário, parece reforçar a convicção generalizada de que Santos circula muito longe das áreas de decisão do poder.
A iniciativa do núcleo de decisão do governo e a resposta do ministro (‘decepção’) fixaram os limites não de uma divergência, é preciso frisar, mas de uma frustração de expectativa. ”Espero que possamos lançá-lo o mais rapidamente possível”, teria dito o ministro na reportagem do Estadão.
Se, para justificar o adiamento do Plano, o governo alega querer evitar problemas, em ano eleitoral, com evangélicos e católicos, a fala da Makota Valdina Pinto de Oliveira sugere que seria bom o governo incluir também as comunidades de terreiro em suas preocupações eleitorais:
“Está na hora de irmos para o campo político e de educar os nossos para saber quem vamos eleger”.
Em meio ao desastre, ficou brilhando essa consciência, expressa pela Makota, de que os negros precisam participar de todas as formas da vida política e encarar o presente com firmeza.
Ao final de oito anos de governo, a Seppir não consegue ainda divulgar um Plano – um conjunto de ações, ao menos se supõe, a serem adotadas sabe-se lá quando. Santos não escondeu sua decepção. Pois é. Lamentamos mas não vemos como ele possa desenvolver uma reação eficaz. Quero dizer que a coisa foi feita para não funcionar mesmo.
Fonte: Ìrohin |
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Edson Lopes Cardoso
"Acho que de tanto mexer com macumba, não sei o que é aquilo. O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano está fodido". George Antoine.
A notícia sobre as declarações do cônsul geral do Haiti em São Paulo me chegou primeiro pela CBN, no dia seguinte a sua participação no programa "SBT Brasil". Fiquei impressionado com a indignação do locutor, que recomendava ao Itamaraty a expulsão de George Samuel Antoine.
Sabe aquela indignação justa diante de uma manifestação inequívoca de racismo? O locutor da CBN parecia não querer perder a oportunidade de reafirmar valores caros aos brasileiros: impossível conviver, numa sociedade como a nossa, com uma pessoa dessas - fora!
Eu estava na cozinha, preparando meu café e ouvindo rádio e me convenci de que já havia ganhado meu dia. Na manhã seguinte, ganhei também o mês ao ler a reportagem da "Folha de S. Paulo" sobre o mesmo episódio (FSP, edição de 16/01/2010. p. A21).
O repórter Vinícius Queiroz Galvão referiu-se a "um mal-estar nos meios diplomáticos", causado pelas declarações do cônsul do Haiti. Pelo verbo utilizado, foi um rápido abalo, você sabe como é. Vinícius Queiroz Galvão escreveu que as declarações "estremeceram ontem a repercussão da tragédia que deixou entre 45 mil e 50 mil mortos".
Aqui é um lugar onde vivem também "Les damnés de la terre". Assim, presumivelmente, a maldição está à solta, já que todo lugar em que vivem africanos (e seus descendentes, presumo) "está fodido". Mas julgo que precisaríamos distinguir entre "em todo lugar os africanos estão fodidos" de "todo lugar em que vivem africanos está fodido".
De qualquer forma, em um ou outro caso, a causa será a mesma: mexer com macumba. O cônsul, após 35 anos de Brasil, está atualizadíssimo com a agenda interna da intolerância. Manifestações religiosas africanas, por essa visão, são a encarnação do mal. Lúcifer matou Zilda, etc. Com fartura de imagens de destruição, sofrimento e morte os pastores neopentecostais e outros vão fazer uma festa por esse Brasil afora: quem mandou mexer com macumba? Largue isso, assuma Jesus e evite um grande terremoto no Brasil.
Ao resumir os dados biográficos e profissionais do cônsul, o repórter Vinícius Queiroz Galvão arriscou-se francamente a perder seu emprego. Vejamos: "Nascido em Porto Príncipe e representante branco de um país de população majoritariamente negra, Antoine é cônsul em São Paulo desde 1975, indicado durante o regime de terror do ditador haitiano Jean Claude Duvalier, o ex-presidente e também ditador conhecido como Papa Doc". Que tal?
Arrisco dizer que o texto de Vinícius causou grande estremecimento no Itamaraty e adjacências. Esse negócio de representante branco de país majoritariamente negro é especialmente problemático. Vinícius, pelo que pude entender, rejeita ou critica o contorno aristocrático e uma concepção de Brasil desenvolvida desde tempos imemoriais na Casa do barão do Rio Branco. É isso mesmo, Vinícius? Entendi também que, além da cor da pele, as raízes ditatoriais deslegitimam o mandato do cônsul Antoine - sugestão para inserção futura no PNDH 4.
Na linguagem utilizada pelos editoriais dos jornalões brasileiros, se diria que o texto do repórter da Folha recebe forte influência do discurso racializado do movimento negro. Os manuais de redação orientam que Vinícius deveria ter se limitado a mostrar a inadequação das declarações do cônsul, acentuando que elas comprometem a "singularidade do Brasil no horizonte cultural do planeta', ou coisa que o valha. Compreende-se, no entanto, no caso da CBN, que a sugestão de expulsão possa ser atribuída aos excessos do emocionalismo, presente ainda, infelizmente, nas transmissões radiofônicas.
O cônsul fica porque há sinais visíveis de uma boa adaptação ao país. Com excelente domínio da língua, demonstra também saber o que é certo e o que é errado para os nativos, ainda que eventualmente possa ser objeto aqui e ali de hipócrita reprovação. O repórter da Folha é que, ao apropriar-se de um discurso de movimento negro, parece querer sabotar práticas jornalísticas consagradas em nosso meio. Ninguém vai demitir esse cara? |
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A revista "Veja" comemora esta semana, com muitas páginas numa seção denominada "História", o centenário de Joaquim Nabuco, texto de Vilma Gryzinski (edição nº 2147, 13 de janeiro de 2010). A reportagem despudoradamente insiste no mito Nabuco, a quem chama de herói nacional da mais justa de todas as causas.
Nabuco brilhou principalmente nos teatros, onde se teria travado o principal combate da campanha abolicionista, segundo a reportagem de "Veja". Uma campanha teatral, acompanhada de suspiros femininos, lencinhos pintados e pétalas de rosa. A mais justa causa e a mais elegante de todas as campanhas.
A base que sustenta a estátua de Nabuco, segundo Gryzinski, é o "imperativo moral", um mandato da consciência a que não se pode renunciar, principalmente por sua origem remota na pureza e inocência da infância de filho de escravocrata que se compadeceu com o sofrimento do escravo supliciado e suplicante. Cena clássica de novela de época.
As conhecidas contradições de Nabuco, que deixavam aflorar os interesses de classe e o racismo, são tratadas com desprezo ou omitidas pela reportagem. Tudo não passaria, na visão simplista e deslumbrada de Gryzinski, daquelas manifestações que costumam revelar "a complexidade e os questionamentos que se esperam dos intelectuais superiores".
A abolição da escravatura foi assim a obra de um intelecto superior: Joaquim Nabuco. Superior e belo. "Branco alvíssimo", preocupado com a aparência e a moda, etc. Do estrume da escravidão, nasceu a bela flor abolicionista. De nosso pior, emergiu "o melhor que o Brasil conseguiu oferecer".
Como os negros são, na reportagem de "Veja", meras ilustrações fotográficas, imagens de corpos dominados apreendidas por fotógrafos brancos, depreende-se que a abolição que se fez em combates travados nos teatros e parlamentos, controlada pelos senhores de escravos e seus representantes, foi o resgate do melhor da classe senhorial, que encarnava conseqüentemente o melhor do país, sua essência perene.
Para Gryzinski, portanto, o negro é uma fotografia na parede e em seu texto de glorificação de Nabuco não existe nenhuma alusão a outros abolicionistas. André Rebouças, por exemplo.
Conforme ensaio recente de Maria Alice Rezende de Carvalho ("André Rebouças e a questão da liberdade", que faz parte do livro Um Enigma Chamado Brasil, São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pp. 48-59), Rebouças, que publicou suas idéias em livro sobre a democratização da propriedade da terra, no mesmo ano (1883) em que Nabuco divulgava seu "O Abolicionismo", se incluiria entre os perdedores na disputa de projetos de Brasil na transição da Monarquia à República.
No projeto defendido por André Rebouças, "a liberdade que emergiria do processo de abolição da escravidão somente seria efetiva se referida a um fundamento material - propriedade da terra - e a uma dimensão coletiva...". Para a autora, "Rebouças se distanciava dos pressupostos liberais, o que o tornava um estrangeiro em relação ao debate político do período final do Império".
Enquanto se comemora Nabuco, se apaga intencionalmente a memória da participação negra (protagonismos e sacrifícios no campo e nas cidades, idéias e projetos políticos para um Brasil democrático). O título da reportagem de "Veja" é "Herói nacional para sempre", no qual obviamente se encontra manifestação de desejo das elites, que a revista representa, de perpetuar a dominação e sua perspectiva da história. "Veja" configura o passado de olho na eternidade.
Precisamos de um movimento negro capaz de discutir projeto político e alternativa de poder, resgatando a experiência histórica que permanece soterrada. André Rebouças é, sem dúvida, uma das fontes desse diálogo histórico que precisamos retomar em profundidade.
Fonte: Írohín |
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Os resultados pífios, algumas vezes mesmo desmoralizadores, mostraram em 2009 os limites da política do possível conduzida pela representação negra no Congresso e no Executivo de diferentes níveis de governo.
É sintomático, aliás, que não haja um relatório, um depoimento, uma avaliação que nos permita dimensionar quais os obstáculos encontrados por um punhado de gestores negros no exercício de funções de Estado.
Deixamos escapar, com os quase oito anos de governo Lula, algo real e possível? Este é o sentimento que predomina. Ou, como querem alguns, nada era mesmo real ou possível? A propósito, quais as atribuições e responsabilidades nesse processo de entidades negras e de agrupamentos partidários da base do governo?
Que interlocuções políticas não puderam ser estabelecidas no primeiro ou no segundo escalão? Predominou a inércia? A inserção negra, ainda que periférica, enfrentou alguma barreira institucional? Quais são os atores relevantes - quem impediu o quê? O silêncio implica a inexistência de problemas institucionais?
Por falar em silêncio, o que houve na Câmara dos Deputados? Sejamos francos, qual foi o papel da base do governo na construção do desastre do Estatuto da Igualdade Racial, cuja aprovação demandava amplo apoio? Quem definiu a curvatura, a renúncia diante das forças conservadoras? Quem avaliou positivamente o impacto daquela peça de sujeição no processo eleitoral?
Os países, inclusive o Brasil, que se recusaram a assinar o frágil acordo de Copenhague expuseram suas razões à mídia internacional, não é verdade? Então, é ou não é um caso grave de patologia política se assinar um acordo francamente desfavorável e depois sair por aí cantando vitória?
O que falta? A meu ver teremos ainda que aguardar( e muito) o desenvolvimento de formas de ação coletiva que permitam ir além dos pedidos de passagens, de apoio para a confecção de cartazes, etc., e façam valer a radicalidade da pressão política. Essas formas de ação política não deverão ser centralizadas por nenhum partido. E não o serão.
P.S. Assisti há pouco ao programa eleitoral do PSOL na tevê. Quero registrar que não há nenhum partido, conservador ou progressista, que abra mão hoje de um(a) apresentador(a) negro(a). É, ao que parece, uma daquelas normas não escritas de atualização do marketing político. De todo modo, uma alegoria de grande força expressiva. Simboliza a pouca efetividade de nossos direitos políticos. Parece dentro, mas está fora.
Fonte: Ìrohin
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Por Edson Cardoso
Consideremos, de início, o fiasco da Seppir e aliados, que alardearam durante algumas semanas a força de um amplo acordo político-partidário capaz de produzir a aprovação do projeto de Estatuto da Igualdade Racial, ainda que essencialmente mutilado e desfigurado, a tempo de obter a sanção presidencial em praça pública no Dia Nacional da Consciência Negra.
Nas últimas horas que antecederam o 20 de Novembro, quando o senador Demóstenes Torres já manifestara sua oposição ao projeto nos bastidores da Comissão de Constituição e Justiça, insinuou-se a possibilidade de o presidente da República transformar a data em feriado nacional, o que, afinal, também não ocorreu. Tudo não passou de uma marola plantada nas colunas de grandes jornais. Ainda pelo lado do governo, as rusgas com o senador Paulo Paim em torno do fator previdenciário acumulavam fatores de perturbação da tramitação do Estatuto.
Não se pode assim negar a redução da dimensão pública do evento em Salvador, restrito à certificação, segundo disse o presidente Lula, de trinta comunidades quilombolas. Mas em um setor onde o governo poderia mostrar alguma eficiência, o Ministério Público Federal abriu inquérito denunciando justamente o atraso nos processos de regularização fundiária.
Segundo reportagem de O Estado de S. Paulo (edição de 21/11/09, p. A9), o Ministério Público afirma que a União expediu apenas 105 títulos de propriedades de terras para quilombolas em 21 anos de Constituição. Para os procuradores, conforme a mesma reportagem de Ricardo Brandt, "o quadro geral relativo às políticas públicas voltadas ao atendimento da população quilombola, em especial da sua garantia do direito à terra, é alarmante, e denota grave e sistemática violação a direitos fundamentais".
Desse modo fica difícil sustentar a "prioridade" da "questão quilombola" para o governo federal. De qualquer forma, a decisão do governo parecia esvaziada na fala do próprio presidente da República, quando disse que "no ano que vem teremos muito mais legalizações de quilombolas".
Curiosamente, Lula não citou em seu pronunciamento nenhum funcionário negro do governo, nem estadual, nem federal. Fez referência a Dilma Rousseff, a Jaques Wagner, ao líder palestino Mahmoud Abbas e especialmente a Nelson Mandela.
Ao referir-se à luta do povo negro sul-africano para chegar à presidência da República, Lula disse que no Brasil estamos caminhando para isso. Falta muito, disse Lula, mas numa democracia deve prevalecer o direito das maiorias. O presidente referiu-se também ao abismo existente entre a dureza da lei ( aludia à ficção constitucional de que o racismo constitui crime inafiançável) e a disseminação de práticas racistas, dando ênfase a exemplos do mercado de trabalho.
Não se combate o racismo apenas com legislação ou se lamentando, é necessário brigar e enfrentar o preconceito - ensina o presidente, tomando como exemplo sua própria luta vitoriosa contra o preconceito de classe e regional. "Eu venci o preconceito e me tornei presidente da República." Que tal? Para o ano vai ser melhor, Lula prometeu: feriado, estatuto e mais quilombolas com a propriedade de suas terras.
As certezas quanto à aprovação do estatuto foram transferidas agora para o mês de dezembro, embora a idéia de que a oposição só não queria que o presidente Lula "faturasse" o Dia da Consciência Negra não convença ninguém. A Comissão de Constituição e Justiça, comandada pelo senador Demóstenes Torres, já marcou debate com os mesmos atores globais conhecidos por suas posições contrárias às ações afirmativas. Depois de tirar as cotas na Câmara, tudo leva a crer que a oposição vai bloquear a tramitação do projeto no Senado.
As declarações de funcionários negros e aliados de que houve um amplo acordo podem estar sendo desmentidas pelos fatos. Essas especulações se reforçaram com o fiasco do Dia Nacional da Consciência Negra e a reação do senador Demóstenes. Em termos políticos, vai ser muito difícil para a Seppir e seus aliados demonstrarem que as decisões sobre o destino do Estatuto estão ao seu alcance. Parece que passa bem longe deles. Acho que por isso o presidente não tornou explícita a identificação dos nomes negros que, afinal, são autoridades da República.
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Fonte: Ìrohin -
por: Edson Lopes Cardoso
Quem pode passar o Vinte de Novembro em Barra do Piraí, Rio de Janeiro, deve fazê-lo. O Parador Maritacas (Spa Resort) convida para ouvir chorinho e deleitar-se com um cardápio especial para a data. A decoração é temática, o que talvez sugira elementos característicos e alusivos à saga dos palmarinos.
Na verdade, não posso assegurar nada sobre a decoração temática. Creio mesmo que os elementos do cenário, se quiserem formar um todo coerente com o momento que vivemos, devem abandonar qualquer pretensão de resgate histórico.
Na visão de D. João V, para ficarmos com um exemplo documentado do final da primeira metade do século XVIII, os negros que fugiam da escravidão praticavam insulto contra El-Rei. Como se atrevem, pensava o rei de Portugal, a não aceitar a escravidão? Tantos séculos depois a visão do poder parece inalterada.
Sendo assim, deixo à imaginação daqueles que pretendem conhecer o Parador Maritacas a escolha dos elementos temáticos que permitam inferir os comportamentos predominantes na atual conjuntura, cujas regras de vassalagem determinam estratégias de alta complexidade.
Vejamos o caso do Rio de Janeiro, onde, conforme discursos proferidos na abertura da Semana da Consciência Negra, o prefeito e o governador são aliados da causa negra. Segundo informa a Agência Brasil (16.11.09 às 21h33), Benedita da Silva, que representava o governador Sérgio Cabral na solenidade realizada no Palácio da Cidade, garantiu (verbo cujo significado, como todos sabem, é "responsabilizar-se por",) que "o estado do Rio de Janeiro implementa uma política de igualdade racial com cidadania, em parceria com a prefeitura e o governo federal".
Benedita da Silva não estava sozinha no papel de garantidora de uma política invisível mesmo aos olhos mais crédulos. Havia outros nomes conhecidos, citados na matéria. O coletivo sugere a produção de uma nova versão cinematográfica do "Ensaio sobre a Cegueira", desta vez visando exclusivamente os afro-brasileiros. O ator Danny Glover, que estava presente ao ato no Palácio da Cidade, assegura a continuidade entre as duas versões.
Disse acima que regras de vassalagem regem estratégias complexas de sobrevivência de negros nas franjas das instituições públicas. Eles exercem papéis de relevo duvidoso, que são variações de um tema comum nos labirintos do poder: O Garantidor, O Abonador. A não materialização das políticas não é um princípio de relevância no mundo das crianças em que vivem os negros. Brincam de política pública, fazem sorrir e divertem os adultos.
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Dentro da ideologia vigente, que oculta as desigualdades raciais, não há negros, não há racismo. É necessário furar o bloqueio imposto pelos grandes jornais e revistas, redes de rádio e TV.
Causa Operária entrevista o professor de Comunicação Social na Universidade de Brasília (UnB)*, militante do movimento negro e editor do jornal Ìrohìn, Edson Lopes Cardoso. Ele nasceu em 1949, em Salvador, cidade que é referência na cultura negra. É uma importante personalidade do movimento negro no Brasil. Neste momento em que a direita ataca o direito democrático às cotas para negros nas universidades, acaba com o Estatuto da Igualdade Racial, fala de uma igualdade racial inexistente não para rejeitar o racismo, mas nega a causa e a opressão do negro, Edson Cardoso denuncia esta política criminosa.
Causa Operária – Você poderia falar um pouco de sua história, quando começou a militar no movimento negro?
Edson Cardoso - Meu primeiro contato com ativismo se deu no Colégio da Bahia, em 1968. Fiz parte de um grupo de estudos, ligado até onde sei à AP (Ação Popular), e comecei a ler livros de divulgação do materialismo histórico. Recordo-me ainda hoje como foi importante para minha cabeça de secundarista ler "Alienação e Humanismo", de Leôncio Basbaum. Fazia parte do grupo Roberto Santos, jovem intelectual negro, que me apresentou a Luiz Orlando, ambos responsáveis pela minha primeira aproximação com idéias de movimento negro. Em 1974, eles criaram um núcleo de estudos afro-brasileiros, que se reunia no Instituto Goethe, do qual fazia parte também Manoel de Almeida Cruz e um outro rapaz que estudava Geografia de que não me recordo o nome. Participei de uma reunião (a minha primeira reunião formal de MN) e aleguei mil razões para não assumir a parte de literatura. Fiz movimento estudantil, levado pela força das circunstâncias, em 1975 e 1976 e, em 1977, fui morar em Porto Alegre (participei lá do Qorpo Insano, um grupo de jovens escritores que publicou uma antologia). Vou ter contato efetivo e produtivo com o MN a partir de 1981, 1982, em Brasília.
Causa Operária – Como foi sua militância no PT, a experiência no jornal Raça & Classe, em 1987?
Edson Cardoso - Tive um vínculo curto e intenso com o Partido dos Trabalhadores, de 1984 a 1987. Entrei para construir a Comissão do Negro do PT, um grupo de grande fecundidade, responsável por propor e construir o I Encontro do Negro do PT, editar o jornal Raça & Classe, articular mais de uma centena de negros e negras no DF e participar com dignidade do processo eleitoral constituinte. Talvez seja importante frisar que, como fiz assessoria para parlamentares do PT (Florestan Fernandes, Paulo Paim e Ben-Hur Ferreira), muita gente associou meu nome ao PT ainda por muitos anos após meu rompimento formal em 1987. O jornal (com tiragem de 3.000 exemplares) era a prova de que, ao menos em Brasília, os negros do PT se dedicavam, com independência, a fazer agitação e propaganda de algumas idéias fundamentais, recusando-se a babar ovo de dirigente partidário, como era (e é) prática nacional bastante difundida. Aliás, fui membro da Executiva Regional, frise-se, com direito a voz e voto.
Causa Operária – Em 1989, você edita o jornal do MNU. Como foi a experiência?
Edson Cardoso - Esgotada a experiência partidária, o que propúnhamos então era a construção de uma organização política negra. No diálogo com lideranças do MNU e outras (chegamos a realizar três reuniões de relativa clandestinidade no final de 1987), acabamos cedendo ao argumento que insistia em não desprezar os 10 anos do MNU, alegando ser possível a construção da organização com amplo debate no interior da principal entidade política de MN. Na coordenação de imprensa da executiva nacional transformei o informativo da entidade em um jornal tablóide que, como o Raça & Classe, teve alguma sobrevida após meu desligamento. Os pesquisadores, aliás, saberão separar o joio do trigo, como convém à verdade histórica. Deixei o MNU após a Marcha de 1995, uma proposta que coordenei sob intenso tiroteio dentro e fora da entidade.
Causa Operária – Qual a avaliação que você faz do Estatuto da Igualdade Racial, que esperava aprovação desde 1998, e agora é aprovado pelo governo Lula?
Edson Cardoso - Que avaliação se pode fazer de uma proposta de legislação que, a rigor, não muda nada na vida das pessoas? Se DEM, PMDB, PSDB, etc., estão felizes com a proposta é razoável nada esperar dela que possa efetiva e concretamente beneficiar a população negra. O ministro da Seppir disse que o projeto era bom porque não causava conflito. Ao contrário, o projeto é ruim porque, na explicitação dos conflitos, os negros foram derrotados.
Causa Operária – Você acompanhou a votação do estatuto. Quais os interesses por detrás das alterações feitas?
Edson Cardoso - O principal interesse é nada alterar da dominação racial, preservando privilégios. Os intelectuais brasileiros mais progressistas andam escrevendo sobre a reação branca racista ao governo de Evo Morales. Assim, nesses termos. Impressiona a acuidade de visão demonstrada por esses intelectuais quando se trata de avaliar relações raciais que não mexem com seus privilégios.
Causa Operária - Partes relativamente positivas do projeto, como o sistema de cotas, apareceram muito desfiguradas na lei final, estão completamente abaixo em importância de medidas profundamente reacionárias como o processo de registro racial que está colocado no projeto. Qual sua opinião sobre isso?
Edson Cardoso - As cotas são medidas especiais que atuam sobre os efeitos das desigualdades. Não se pode exigir das cotas o que elas não podem dar, ou seja, elas não podem atuar sobre as causas estruturais das desigualdades. No entanto, elas são fundamentais para desnudar o conflito e fazer avançar a consciência social. Foram rechaçadas porque, além de ser uma indicação de ação prática do Estatuto, significam o desmascaramento da ideologia da democracia racial.
Quanto à declaração da cor, na minha certidão de nascimento e no meu certificado militar fui classificado como pardo. Tenho irmãos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe, pretos e pardos. No momento em que somos, de novo, maioria da população, com crescente consciência de que a afirmação de nossa identidade no campo da política é fundamental para alterarmos relações de dominação, surgem sensibilidades refratárias a qualquer registro de cor/raça. O que exatamente se teme perder com o fortalecimento da identidade política dos dominados?
Causa Operária – Numa enorme demonstração de racismo, em julho deste ano, o DEM contestou legalmente a constitucionalidade do sistema de cotas para negros instituído em diversas universidades públicas do país. Isso marca o início de uma campanha racista, feita cinicamente em nome da "não discriminação". Quais medidas você considera necessárias contra este ataque?
Edson Cardoso - O presidente do Supremo, Gilmar Mendes, já manifestou seu voto, quando declarou que no Brasil ninguém é discriminado por ser negro. Há iniciativas em curso, dezenas delas, que incluem negros e índios em universidades federais e estaduais em diferentes regiões do país. Mas os debates nos meios de comunicação costumam dar as costas ao factual, recusando-se a avaliar objetivamente as diferentes modalidades de ação afirmativa. A questão é ideológica e o debate midiático costuma inverter a realidade. Dentro da ideologia vigente, que oculta as desigualdades raciais, não há negros, não há racismo. É necessário então furar o bloqueio imposto pelos grandes jornais e revistas, redes de rádio e TV. Precisamos de mais agitação e propaganda para que possamos mobilizar amplamente em defesa da constitucionalidade das ações afirmativas. Os cotistas me parecem especialmente amedrontados.
Causa Operária – Sendo um dos setores mais explorados, os negros sofrem mais com a crise capitalista. Em sua opinião, qual o peso da crise sobre os negros?
Edson Cardoso - O que singulariza o Brasil é, a meu ver, o zelo com que instituições do Estado colhem e analisam indicadores sociais e econômicos das desigualdades raciais. Saúde, educação, habitação, mercado de trabalho, saneamento básico, temos uma requintada base de dados, uma sólida série histórica, com as quais se divertem as inteligências pervertidas de alguns pesquisadores institucionais. Todo ano tem carnaval, todo ano tem divulgação de dados sobre as desigualdades raciais – e nada muda. Uma celebração macabra, um componente sui generis da ideologia racial brasileira. Os negros continuam expostos à discriminação racial e ao racismo, antes da crise, depois da crise.
Causa Operária – Há uma intensificação da repressão policial nos morros nas favelas do Rio de Janeiro e São Paulo. Isso é uma maneira de aumentar a repressão à população negra?
Edson Cardoso - Em 1949, Abdias Nascimento fez uma carta aberta ao chefe de Polícia do Rio de Janeiro dizendo que pelo tratamento diferenciado com que distinguia a população negra se poderia dizer que a polícia considerava o negro um delinqüente nato e estava criando o "delito de ser negro". Em 1983, já deputado federal, Abdias encaminhou projeto de lei em que incluía o tratamento policial nos campos em que reivindicava a implementação do princípio da isonomia. O título do editorial do jornal Raça & Classe nº 2, de 1987, é "Furor genocida", não só o editorial, mas toda a edição é dedicada a denunciar a violência extrema contra a população negra. São práticas repressivas de longa duração no tempo, práticas incorporadas ao cotidiano de uma sociedade profundamente discriminatória, que renega a humanidade do negro. O que há de mais novo e promissor no movimento social neste momento é a reação organizada de mulheres negras e jovens negros às práticas de execução sumária nos bairros populares da maioria das cidades brasileiras.
Causa Operária – Você poderia falar um pouco sobre seu trabalho no jornal Ìrohìn, fundado por você em 1996?
Edson Cardoso - Estou fazendo imprensa negra há mais de vinte anos, com as limitações conhecidas. Atacamos uma importante deformação ideológica, que reafirma sempre a incapacidade intelectual do negro. Ao contrário, há negros e negras produzindo, pensando, participando de manifestações, escrevendo panfletos, artigos, dissertações e teses. No Ìrohìn pudemos acompanhar o adensamento da reflexão que deve desembocar mais à frente nas construções teóricas que darão sustentação a um projeto político libertador.
Causa Operária – Gostaria de fazer alguma consideração final?
Edson Cardoso - Vêm-se multiplicando iniciativas de comunicação no campo das relações raciais, conduzidas por jovens em todo o país, enfrentando todo tipo de dificuldade para fazer circular informações, avaliações, denúncias. Tudo vai sendo feito com muita energia militante e pouco dinheiro. Os recursos do FAT e do FGTS servem entre nós, via BNDES, para financiar o papel e as iniciativas da grande imprensa. A Rede Globo e suas Xuxas em Angola são também uma evidência de que a ideologia nunca erra seu alvo. Mas cheguei aos sessenta anos podendo dizer, com coerência, que a luta continua.
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Fonte: Ìrohin -
por: Edson Lopes Cardoso
Em 24 de novembro de 2000, num artigo para o Jornal do Brasil (“A integração racial no Brasil”, p. 9), o então vice-presidente da República, Marco Maciel, alertava: “O Brasil terá de convencer-se de que os negros e seus descendentes deixarão de ser minoria no próximo século, pois já representam maioria em três das cinco regiões brasileiras”.
Maciel aludiu ainda, em seu memorável artigo, a formas ostensivas e disfarçadas de racismo, a uma quimérica e virtual igualdade de oportunidades constitucional, e ensinava que “O caminho da ascensão social, da igualdade jurídica, da participação política, terá de ser cimentado pela igualdade econômica que, em nosso caso, implica o fim da discriminação dos salários, maiores oportunidades de emprego e participação na vida pública”.
Maciel fez referência também às cotas no mercado de trabalho, na universidade e na representação política como se fossem então possibilidades concretas de ação governamental, cujos resultados não podia antecipar – “uma incógnita a que de antemão ninguém ousará responder”. As cautelas se justificavam porque, como disse Rubem Ricupero, num simpósio sobre relações Brasil-África na Câmara, em 1986, “o tema é complexo e nos divide como nenhum outro”.
Não sei se o senador Marco Maciel guarda cópia de seu artigo, mas eu o conservo com zelo beneditino. Seu texto poderia, a meu ver, servir de referência para um pronunciamento contundente, no momento em que o Senado se dispuser a apreciar o projeto que cria o Estatuto da Igualdade Racial, embora, como se sabe, o senador pernambucano seja avesso a estardalhaços.
Os leitores do Ìrohìn devem estar pensando, como eu, em reminiscências camonianas, avaliando com amargura o fato de que onde a gente põe nossa esperança, a realidade política nos deixe tão pouca segurança.
Afinal, as preocupações levantadas por Maciel, na conjuntura pré-Durban, são bem distintas daquelas manifestadas por seu partido, o DEM. Esqueça. A novidade é que o DEM, em seus tenebrosos desígnios, seja hoje diligentemente coadjuvado pela bancada negra.
Ao reler o artigo de Maciel, a sensação que se impõe é a de que perdemos uma oportunidade valiosa na virada do século. O discurso de um político conservador de menos de uma década parece hoje séculos à frente dos parlamentares negros do PT, desvinculados de qualquer realidade. Associaram sua causa (se é que tinham uma) à causa dos opressores da população negra.
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por: Edson Lopes Cardoso
Ainda restam algumas questões a serem compreendidas no acordo que uniu governo e oposição em torno da mutilação do Estatuto da Igualdade Racial. Uma inusitada referência em "O Globo" (edição de 24 de setembro de 2009, p. 2), registrando a presença de deputado negro em ato contra a intolerância religiosa na Esplanada chamou-me a atenção:
"O ato teve a participação de deputados, entre eles o presidente da comissão especial que aprovou o Estatuto da Igualdade Racial na Câmara, Carlos Santana (PT-RJ)."
Um afago cordial, talvez ilustrativo das ligações invisíveis tecidas entre governo e oposição nos subterrâneos da comissão especial. Ânimos apaziguados (nenhum conflito, disse o ministro da Seppir), sobrevivem no entanto algumas objeções de princípio, essencialmente ideológicas, e só por isso "O Globo" mantém a matilha solta na página de opinião, acuando, latindo e ganhando fama e dinheiro.
No rastro de ressentimentos e desencantos, já se podem ouvir, reforçadas, as vozes de jovens lideranças negras elogiando publicamente a "política de segurança" desenvolvida pelo crime organizado. Sim, isso mesmo que você ouviu. Se não acontecer nada pela via institucional, quem poderá se eximir de responsabilidades em um contexto de violência extrema contra a população negra?
Os interesses a que servem os veículos da grande mídia, porém, estão convencidos de que o movimento negro jamais será capaz de representar uma efetiva ameaça. Talvez isto seja hoje verdadeiro exclusivamente para aquela parcela mais visível e maleável do movimento.
Até mesmo porque o escandaloso fracasso do Estatuto contribui, de fato, para reduzir as opções de luta. Abordagens mais de confronto poderão arrastar outros atores - assim entendo a observação do rapper paulista, que aludiu em sua fala na Câmara Municipal às ações "pacificadoras" em bairros periféricos de São Paulo.
Estou ainda ruminando também alguns discursos de mulheres negras da periferia de Salvador, no último mês de agosto, na praça em frente à Secretaria de Segurança Pública, no ato público de abertura do I Encontro Popular pela Vida e por Outro Modelo de Segurança Pública. "Vamos pra cima deles, somos maioria, essa cidade é nossa e temos o direito de criar nossos filhos."
Trata-se de filhos reais, mortos reais. Um sentimento forte de pertencimento étnico-racial e a consciência aguda do terror e da crueldade racistas. Na Praça da Piedade, não havia espaço para postulações acadêmicas sobre o conceito de raça. Ali o verbo era carne. Botas arrombam portas, corpos jovens arrancados da cama, cadáveres no sofá, no mato, na vala.
É possível dizer que a derrota na Câmara abala um tipo de convicção, mas libera outras - aquelas indispensáveis e necessárias à ação? Angela Davis estava presente ao ato da Praça da Piedade e, eletrizada pelos discursos, subiu ao palanque. Segundo ela, o que ocorria ali iluminava a luta em todo o mundo. Se as coisas são assim, nem tudo está sob controle. Matéria original
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Por Edson Lopes Cardoso
O repórter Bernardo Mello Franco, de "O Globo", escreveu que a "Câmara dos Deputados aprovou ontem uma versão esvaziada do Estatuto da Igualdade Racial". Na mesma reportagem, o ministro Edson Santos afirmou que "o grande avanço é que ele não vai gerar conflito". (O Globo, p. 11.)
O Dep. Luiz Alberto (PT-BA) por sua vez afirmou, em pronunciamento da tribuna da Câmara, que o texto aprovado era "o possível". E acrescentou: "Em caráter conclusivo, a matéria vai ao Senado Federal, onde também há um acordo para imediatamente se constituir uma Comissão Especial para aprovar o Estatuto, a fim de que o Presidente Lula, ainda este ano, possa sancioná-lo e dar ao Brasil uma oportunidade de se criar uma verdadeira democracia."
Segundo ainda a reportagem de Bernardo Franco, "o DEM elogiou as mudanças". Quem conduziu as negociações pelos Democratas foi o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) e já se pode bem avaliar a profundidade (e a realidade) da "verdadeira democracia" para a qual se abrem agora todas as oportunidades.
Johanna Nublat, repórter da "Folha de S. Paulo", escreveu que a oposição, comandada por Lorenzoni, afirmou "ter tirado todos os pontos com os quais não concordava". (FSP, p. C9.) Ao "Correio Braziliense", o deputado fez declarações mais incisivas: "Tiramos qualquer tentativa de racialização do projeto". (CB, p. 11.)
Nublat, aliás, é autora da pérola mais preciosa escrita sobre a versão do Estatuto aprovada ontem na Câmara dos Deputados: "Há também pontos mais práticos, como a possibilidade de o governo criar incentivos fiscais para empresas com mais de 20 empregados e pelo menos 20% de negros."
Quando o ponto mais prático é uma possibilidade, o leitor pode bem dimensionar o que representa a proposta aprovada para a superação das desigualdades raciais. Nem falo de racismo, porque a Comissão Especial, a rigor, nunca tratou do tema. Mas é fato que, sem falar de racismo, não alcançamos as motivações fundamentais.
Há algumas semanas, a mídia divulgou a discriminação sofrida por Januário Alves de Santana, agredido por seguranças do supermercado Carrefour numa cidade da Grande São Paulo. Todos conhecem a história do homem negro, técnico em eletrônica, que foi acusado de tentar roubar seu próprio veículo, um EcoSport. Acusado e violentamente espancado nas dependências do Carrefour.
Segundo ainda o noticiário, Januário viveu tantos constrangimentos após a compra do veículo, que decidiu se livrar dele. Creio que deveríamos fazer uma reflexão sobre como essas imposições violentas de limites têm afetado a população negra. Inclusive entidades e parlamentares.
Por causa de seus traços fisionômicos, seu fenótipo, e de um conjunto de injunções decorrentes da hierarquização do humano vigente entre nós, Januário vê-se obrigado a rever seu projeto, reduzindo suas dimensões, buscando adequar-se aos limites impostos pelo racismo.
Um modelo mais modesto de veículo talvez lhe permitisse acomodar-se aos limites rígidos preestabelecidos, seguramente é o que pensa Januário.
Segundo os seguranças do Carrefour citados na revista Carta Capital, tudo, toda a informação estava na cara de Januário. Sua cara não nega, teriam dito os seguranças. E mais: "Você deve ter pelo menos três passagens pela polícia". Sendo assim, não admiraria que Januário, renunciando a seu projeto legítimo de possuir um EcoSport, fosse preso ou assassinado conduzindo uma bicicleta.(Carta Capital, nº 560,25/08/09 p.16.)
O fato é que os negros vivem em um mundo em que se sabe de antemão muita coisa sobre eles. Impressiona a quantidade de informação que o olhar racista pode colher em um rosto negro. Os negros são no Brasil a evidência pública de um conjunto de delitos.
Apoiado por muitos outros autores, Umberto Eco afirma que é o outro, é o seu olhar, que nos define e nos forma. E não se trata aqui, diz ele, de nenhuma propensão sentimental, mas de uma condição fundadora (ver Cinco escritos morais. Editora Record, 1997, p. 95.)
Já sabemos como somos vistos e, a partir desse olhar, como devemos nos definir e conformar nossos projetos. Seria melhor dizer como devemos amesquinhar e reduzir nossos projetos. Sonhos não realizados, esperanças frustradas reafirmando e reforçando a ideologia que previamente nos classificou a todos.
Os parlamentares negros que ontem cantaram e ergueram os punhos fechados e se abraçaram ao DEM, o ministro Edson Santos, a Seppir, a Conen, a Unegro, todos comemoravam no fundo a redução e o amesquinhamento do projeto de Estatuto. Conformaram-se ao "possível". Confiam que na redução ainda se podem projetar ganhos eleitorais. Vão colher, seguramente, o que plantaram. |
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por Edson Lopes Cardoso
Na última sexta-feira (04/09/2009), o jornalista Heraldo Pereira esteve na bancada do Jornal Nacional. Não apresentava o telejornal, mas era convidado para rápida entrevista dentro das comemorações dos 40 anos do JN. Uma homenagem que o programa da Rede Globo vem prestando a seus repórteres mais antigos.
Desde novembro de 2002, o repórter participa também da bancada do JN, aos sábados e durante as férias dos titulares. Sua presença como âncora foi saudada na ocasião como um “grande passo” da televisão brasileira. “São com mudanças assim que o País vai se modernizando”, afirmava anúncio da Africa Propaganda, dirigida por Nizan Guanaes, divulgado em vários jornais.
Africa Propaganda imaginava então que “se a programação avança, os comerciais, a publicidade, como um todo, tem que avançar”. A programação, no entanto, não avançou e permanece verdadeiro (com raras exceções) o que disse Marilene Felinto: “A mídia (...) esconde a cor e a cara do povo brasileiro, a não ser quando quer vendê-lo como bundas de mulatas carnavalescas ou músculos de jogadores”. (FSP, 12/07/1998.)
Na dramaturgia global, Aguinaldo Silva defendia em 2002 que “a realidade devia mudar primeiro”. Os personagens de sua novela (médicos, empresários...) não podiam ser interpretados por atores negros porque isso não seria “real” (Revista Bravo!, ano 5, fevereiro de 2002, p. 70). E mandou os negros correrem atrás do prejuízo. A representação da realidade nas novelas da Globo tem nos permitido saber tudo sobre médicos, empresários e a Índia, não é mesmo? Agora ficção de verdade é uma lei do DF que estabelece proporcionalidade étnica na publicidade, desde 1997.
Mas voltemos ao Heraldo da última sexta-feira. Eu não conseguiria descrever aqui as reações fisionômicas constrangidas de Fátima B. e William B., apresentadores titulares, diante da notável freqüência e intensidade com que Heraldo, numa rápida entrevista, se referiu a circunstâncias de sua trajetória profissional que permitiam a afirmação de seu pertencimento étnico-racial. Perder a graça, o rebolado, não diz muito, mas é o que temos no momento.

Heraldo priorizou em seu relato visita a antigo porto de embarque de pessoas escravizadas em Angola, apartheid na África do Sul, e o acidente que mutilou o atleta João do Pulo (“meu herói, negro como eu”). A declaração intensa, mas tranqüila, parecia conter uma reivindicação. Pode-se bem imaginar que Heraldo, ainda que ocupando um espaço limitado na bancada do JN, seja “herói” de muita gente por esse Brasil afora.
A situação evocada por Heraldo em sua reportagem na África do Sul, jornalistas brancos de um lado, negros de outro, flutuava também como ilustração doméstica. Não é necessário sondar profundezas para se alcançar o que Heraldo Pereira quis comunicar com sua afirmação de negritude, com projeção histórica de modos diversos de dominação. São narrativas associadas dramaticamente à idéia de limites – extremos e dolorosos, coletivos e individuais, numa prolongada linha do tempo.
Mas a idéia de se ver representado em alguém, de poder projetar-se no outro visível permitiu talvez ao telespectador do JN tomar consciência da impossibilidade de tais identificações para milhões de brasileiros. Heraldo ocupava momentaneamente o lugar do não-existente, e, num breve intervalo, deu um forte testemunho que ali soava como expressão de uma aspiração real e legítima: “negro como eu”.
Matéria original |
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Fonte:Írohín - Jornal Online
Edson Lopes Cardoso
A questão racial fez um de suas raras aparições na prestigiosa coluna de Jânio de Freitas (Folha de S. Paulo, edição de 16/08/09, p. A8). A eventualidade da candidatura de Marina Silva à presidência da República foi avaliada positivamente pelo colunista, segundo o qual suas possibilidades eleitorais se fortaleceriam em razão do pertencimento racial.
Jânio de Freitas constrói uma espécie de ideologia do mérito, em que se destaca, além do gênero e da temática ambiental, a cor da pele de Marina Silva.
Penso que os limites do reconhecimento de uma identidade étnico-racial de uso ocasional e eleitoral saltam à vista. Por essa visão, as vantagens de uma candidatura negra são avaliadas exclusivamente por sua possível aproximação com a candidatura de Barack Obama nos Estados Unidos.
Parece que o conteúdo da identificação quase se esgota numa semelhança física mais que oportuna, aos olhos de Jânio. Extraídas de seus processos e referências, se tornariam candidaturas irmãs. Jânio de Freitas não se preocupa em apontar vínculos com questões locais relacionadas à subcidadania do segmento negro da população e suas implicações e desdobramentos (exceto pela alusão ao fato de que nos EUA os negros têm renda para fazer generosas doações de campanha). Ao menos por enquanto, a perspectiva de vantagem eleitoral da cor é meramente simbólica.
A alusão aos negros nesses espaços e nessas ocasiões não costuma passar mesmo de vagas referências epidérmicas. Neste caso, apenas sinaliza a viabilidade de se capitalizar o previsível "efeito Obama" com uma bem dosada combinação de sentimentalismo e oportunismo eleitoral, sem maiores conexões existenciais e políticas. Não significa nenhuma ruptura com a interdição da participação do negro no processo político. Ao menos para a política institucional como é concebida hoje no Brasil.
Matéria original: A irmã de Obama |
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por:Edson Lopes Cardoso
Leio opinião de Clovis Rossi (FSP, 29.07.09, p. 2) sobre características brasileiras, que faltariam ao governo chinês, na briga por um futuro grandioso no século XXI: nossa "democracia, porca, mas democracia, e a ausência de conflitos étnicos".
Já fomos, em plena ditadura, uma democracia racial. Sobram evidências retóricas de que aceitamos viver na pocilga, mas não aceitamos o racismo. Com a ajuda da negação tudo leva a crer que construímos um curral de porcos, é verdade, mas nossos grunhidos não cessam de refutar com veemência o racismo. O que vale são os grunhidos.
Fernando Henrique Cardoso ("Os limites da tolerância", Correio Braziliense, 02.08.09, p 21) concorda com Clóvis Rossi, mas acrescenta algo: "Temos a sorte de viver sob uma cultura que também aprecia a tolerância ( a despeito de recentes tentativas de fazer nascer um ‘racismo antirracista', como diria Sartre)". FHC acrescenta que todo aquele que não aceita seu "proper place" pratica racismo. A tolerância brasileira tem, portanto, o pavio muito curto.
Não há nada que se possa comparar, em nosso mundo intelectual, a essa negativa (não confundir com incapacidade de percepção). Obra maior da civilização nos trópicos, essa negação (não deve, não pode) concentra e resume o verdadeiro sentido de nossa existência como nação. Viva o (nosso) não!
A democracia porquinha confia ao "não" a tarefa sublime do aperfeiçoamento de suas instituições. A negativa é o sujeito de uma construção futura grandiosa que nos projetará como nação adiante da China e dos EUA, nações divididas. O não existe na e para o aperfeiçoamento da nação.
O desaparecimento forçado de antigas oposições e a plena aceitação de que tolerância tem limites tornam absolutamente dispensável a pronúncia de certas palavras (negro, afro, etc.). Como disse Rossi, o país tem que explorar melhor suas características se quer realmente ser cachorro grande no século XXI.
Matéria original: Porcos e cachorros ou da grandeza última do não
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por: Edson Lopes Cardoso
Segundo Yvonne Maggie, existe racismo no Brasil - mas não somos uma sociedade racista. "Há uma espécie de alucinação coletiva", conforme ensina a professora da UFRJ, que leva a confundir desigualdade entre ricos e pobres com desigualdades raciais.
Como uma alucinação puxa outra, ainda segundo Maggie, as pessoas interessadas em destruir a paz e a ordem, a serviço de países imperialistas, acabam defendendo a criação de leis raciais para combater a desigualdade.
Felizmente, no país que bebe cerveja junto, que joga futebol junto e casa entre si, conforme as palavras da ilustre antropóloga, há um Congresso que tem "mais juízo" e "as leis raciais não vingarão" (ver entrevista de Maggie em O Globo, edição de 31 de maio de 2009, p.10).
O leitor tem o direito de pensar que está diante de uma nova versão de "O Alienista", conto de Machado de Assis. Talvez. O que não sabemos é se Maggie irá seguir os passos do ilustre sábio de Itaguaí e recolher-se definitivamente à Casa Verde, para entregar-se "ao estudo e à cura de si mesma".
Enquanto aguardamos o desfecho das peripécias da ilustre professora que, como Dr. Simão Bacamarte, "tem os olhos acesos da convicção científica", vale a pena assistir ao que os editores consideram "uma pérola em homenagem a Michael Jackson". Dita "homenagem" feita pelo programa "Vídeo Show", da Rede Globo, no dia seguinte à morte do artista, recuperava cena veiculada no antigo TV Pirata.
Parece tratar-se de inequívoca demonstração das relações cordiais vigentes entre os brasileiros, segundo a doutrina Maggie. Um homem negro, Edmilson dos Santos (Guilherme Karan pintado de preto, tipo "Nega maluca"), apresentado como sociólogo e guardador de carros (contraste entre formação e ocupação real permite várias leituras, inclusive a da existência de barreiras de cor) é abordado em um supermercado por propagandista (Diego Vilela) de sabão em pó. O nome do sabão é Omolu.
Há um sabão em pó "Omo", que lava mais branco, e há esta paródia com o nome do Orixá, que realiza os desejos de embranquecimento de guardadores de carros formados em sociologia ("fez milagre em Edmilson dos Santos") e ridiculariza a ancestralidade afro-brasileira. Um mês após a "experiência", Edmilson transformou sua aparência, sugerindo ser agora Michael Jackson. Está feliz, "branquinho, branquinho", e dança imitando gestos de Jackson, com música ao fundo.
No final da exibição da seqüência do TV Pirata, os apresentadores do Vídeo Show riem divertidos. "Vale a pena rir de novo" é o nome do quadro que no dia 26 de junho fez esta "homenagem" a Michael Jackson.
Na construção do esquete, valores religiosos de herança africana socorrem um homem negro em dificuldades com sua própria cor, presume-se. A superação de suas limitações, digamos assim. Ao final, ficou branquinho e feliz, usando "o sabão em pó das estrelas". Não é mesmo divertido isso? A herança cultural e religiosa africana acionada para servir ao embranquecimento e à felicidade de Edmilson e de todos? Divirtam-se. Creio mesmo que essa sincera e cordial "homenagem" seja de grande utilidade para que possamos avançar no conhecimento e domínio das alucinações coletivas e do conteúdo mágico dos rituais midiáticos, ontem e sempre.
Materia original: Írohín Jornal Online - OPINIÃO |
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Edson Lopes Cardoso
- Fonte: Írohín Jornal Online -
Na última sexta-feira (29.05.2009), a coluna "Panorama Político ", do jornal "O Globo", comentou brevemente uma "curiosidade" da pesquisa sobre reforma política realizada por Diap/Inesc.
"Dos 150 parlamentares ouvidos, 16,7 defendem uma cota para representantes dos povos indígenas; 12% apóiam políticas afirmativas para garantir mais negros no Congresso" (p. 2).
Na noite da quinta-feira anterior, em intervalo do "Jornal Nacional", da Rede Globo de Televisão, foi ao ar mais um programa do Partido dos Trabalhadores. Eram claros todos os personagens que tinham expressão partidária, institucional ou sindical. Eram escuros os representantes do povo agradecido e o apresentador do programa.
No "governo de todos", a parte que representa o todo é clara. Os escuros, emocionados e dramáticos, agradecem as benfeitorias. O programa do partido mais "popular e democrático" tem a força da evidência que nenhuma manipulação verbal pode ocultar. Os negros não são visíveis nas propagandas partidárias, nem o são também no Congresso Nacional.
"Triste é não ser branco", anotou em seu diário Lima Barreto, em 24 de janeiro de 1908, após ser barrado em uma visita a navios americanos ancorados no porto do Rio de Janeiro (Diário Íntimo. São Paulo: Brasiliense, 1956, p.130). Os políticos negros do PT devem ter anotado algo semelhante em seus diários, após a exibição do programa de TV.
Relacionado por Ilmar Franco de " O Globo" entre as "curiosidades da pesquisa", o tema transcende em muito essa avaliação frívola. Em 10 de janeiro de 1905, Lima Barreto (nascido a 13 de maio de 1881) anotava em seu diário, sobre o engavetamento da nomeação de um professor negro para o Colégio Militar:
"É singular que, fazendo eles a República, ela não a fosse de tal forma liberal, que pudesse dar um lugar de professor a um negro. É singular essa República" (Diário, p. 82).
O programa do PT e a pesquisa Diap/Inesc demonstram como igualdade e liberdade são ainda abstrações na política brasileira. Se o TSE incluísse o dado cor/raça nos formulários dos candidatos poderíamos dimensionar mais amplamente a participação política de negros e índios, inclusive avaliando o fosso que separa candidatos de eleitos.
É singular essa República que continua, mais de um século depois dos registros de Lima Barreto, excluindo negros e índios. É singular também o jornalismo que se recusa a explorar as possibilidades que uma pesquisa pode oferecer de aumentar nosso conhecimento da realidade social e política do país.
Matéria original: É singular essa República |
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Edson Lopes Cardoso fonte: jornal Irohin - Opinião data: 25/04/2009
“Aqueles que, em pleno século 21, insistem em ressuscitar o conceito de raça e em criar legislações baseadas na premissa de que eles merecem tratamento diferenciado pelo Estado devem ser contidos em suas ações e pretensões, sob pena de incitarem, em algum momento do futuro, processos odiosos que não podem ser aceitos pela humanidade.”
O parágrafo transcrito acima foi escrito por José Serra (PSDB), governador de São Paulo, e faz parte de artigo publicado ontem no jornal “Folha de S. Paulo” ( “Nenhum genocídio deve ser esquecido”, 24.03.2009, p.A3).
Depois de evocar o extermínio dos armênios promovido pelos turcos, em 1915, José Serra, preocupado e atento às possibilidades de ocorrência de novas práticas genocidas, alerta no final de seu artigo os leitores da Folha para o perigo que representa no Brasil a “incitação de processos odiosos” realizada por “Aqueles” que defendem o projeto de cotas em tramitação no Senado Federal.
Não me pergunte onde a imaginação do governador de São Paulo foi achar conexão entre o massacre dos armênios e a reivindicação dos negros por políticas públicas. Semelhante disparate já tinha ocorrido a Maggie e seus companheiros mágicos do Rio de Janeiro. Mas essa turma do Rio sempre buscou correlacionar movimento negro e nazismo, tendo como pano de fundo o genocídio judaico.
A questão é saber se colocadas as coisas nesses termos teremos em algum momento a oportunidade de debater. Ou essas correlações e correspondências contrárias à razão e ao bom senso não passam de dissimulação hipócrita da norma há muito estabelecida de que a questão racial brasileira não pode ser posta em discussão? O fato é que não existem limites para a imaginação e a hipocrisia, quando o assunto é população negra e responsabilidade coletiva – dos governos e da sociedade.
Reivindicações e demandas voltadas para a superação das desigualdades raciais parecem provocar entre nós um processo muito louco de manipulação intelectual, cujas dimensões irracionais são amplificadas a um ponto máximo, que impede qualquer aferição minimamente razoável.
A acusação de incitação ao ódio é uma das fórmulas repetidas com despudor pelo governador de São Paulo, sugerindo visão do futuro, preocupação com a “humanidade”, mas grudando o olho do leitor no passado, no genocídio dos armênios, que lhe deve servir de parâmetro para julgar a ação política atual dos negros brasileiros.
É pura má-fé , portanto, utilizar o argumento de que os negros ressuscitam o conceito de raça, quando pressionam por políticas que levem à superação do abismo que os separa dos não-negros.
É preciso advertir também a esse tipo de político que os negros não vivem de horizontes humanitários. Aliás, os negros sabem muito bem como os impulsos “humanitários” acionados pelo Estado para conter suas ações e pretensões desencadeiam práticas genocidas, que permanecem impunes entre nós – e não serão consideradas jamais pelo estreito horizonte intelectual e humanitário do governador de São Paulo. Nenhum genocídio deve ser esquecido, exceto o dos negros. |
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Verga, não verga |
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| Edson Lopes Cardoso fonte: Jornal Irohin - Opinião data: 24/04/2009
Ou o uso da força (capangas), ou a fraude (confundir deliberadamente falta com licença médica). São estes recursos tradicionais do poder utilizados pelo presidente do STF, segundo intervenção do ministro Joaquim Barbosa, no bate-boca desta semana no plenário do Supremo.
Sem esquecer a utilização da mídia, de que o presidente do STF estaria também abusando. A oposição das locuções na rua/na mídia, levantada também pelo ministro Barbosa, sugere, entre outras coisas, que os meios de comunicação estão longe de expressar a opinião pública.
Não pode mais ser ocultado também, após essa rica sessão do STF, que o momento crítico vivido pelo ministro Joaquim Barbosa se manifesta sob a forma de intensas dores na coluna. Agora estamos falando, portanto, de idéias, de oposição a práticas consagradas no judiciário, e, ao mesmo tempo, estamos falando de pele, carne e osso, de intensa luta corporal.
Verga. Não vergo. Verga, sim. Não vergo, não. O ministro Barbosa não se verga, mas está quase entrevado. A dor intensa no corpo retesado, mal disfarçada na expressão indignada do ministro, parecia tirar qualquer sentido figurado à oposição verga/não verga.
O ministro Barbosa, aliás, já havia afirmado, em entrevista à Folha de S. Paulo meses atrás, que se enganavam no STF os que o supunham mais um “negro submisso”. Agora na discussão áspera com o ministro Gilmar Mendes, declarou que não era um de seus “capangas”, o que vem a dar no mesmo. Os cabras e capangas sempre foram pinçados, preferencialmente, na grande massa de não-brancos.
É chover no molhado dizer que a persistência de representações ideológicas que reafirmam a inferioridade do negro está também na base das tensões desencadeadas a partir da simples presença de Joaquim Barbosa no plenário do STF (“Crioulo já entra aqui?”).
As significações envolvidas nessa polarização Joaquim Barbosa versus os signatários da nota de solidariedade transcendem em muito o plenário do STF. E, portanto, nenhuma nota vai poder reverter o desmascaro do ministro Gilmar Mendes ( e com a presença da mídia, que ele preza tanto). A emergência do conflito neste lugar, com estes atores, é reveladora do que se vai deflagrando mais amplamente, por influência de mudanças no comportamento individual e coletivo.
A frase de Gilmar Mendes sobre Joaquim Barbosa “não ter moral para...” deve ecoar no plenário quando o ministro negro fizer a leitura de seu parecer que envolve a constitucionalidade das ações afirmativas. Uma sessão imperdível. |
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