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Hamilton  Cardoso

Hamilton Cardoso

  


 

Hamilton Cardoso (1953-1999)
Sensibilidade, inteligência e solidariedade na luta contra o racismo

Dulce Maria Pereira, Diretora do Interfórum Global.

No dia 25 de Abril de 2004 a”Folha de S. Paulo” publicou uma foto com articuladores das “Diretas Já”. Hamilton está lá, no movimento pelas Diretas Já, em 1984. 20 anos depois era um dos ausentes, entre aqueles que voltaram para a foto atualizada, revivendo duas décadas de avanço da democracia. Certamente, se aqui estivesse faria um balanço para dizer que, além das formalidades e de obtermos alguma representação e visibilidade, como coletivo pouco caminhamos. Apoiaria os programas de cotas, mas certamente diria que são insuficientes.

Hamilton Bernardes Cardoso nasceu em Catanduva, em 10 de julho de 1953. Filho de Onofre Cardoso, músico, e de Deolinda Bernardes Cardoso, responsável pela estruturação da família e educação dos filhos. Segundo filho de quatro irmãos, cresceu em São Paulo e tinha muito orgulho de ter estudado no Colégio Caetano de Campos. Foi aí que começou a entender as desigualdades raciais. Formou-se em jornalismo tendo estudado na Faculdade Casper Líbero e na Metodista de Rudge Ramos.

Em 1978, foi um dos principais articuladores do Movimento Negro Unificado, levando políticos, estudantes , trabalhadores e intelectuais a se engajarem na luta contra o racismo no Brasil.

Após um atropelamento, no dia 1 de maio de 1988, depois de uma festa na Escola de Samba Peruche, onde com amigos havia assistido a uma apresentação do Olodum, Hamilton não se recuperou plenamente,pondo fim à propria vida, anos mais tarde. Foram muitas suas perdas no período . Havíamos nos divorciado e ele iniciava nova vida com sua companheira, também jornalista, que muito o motivava. Durante, entretanto, mais de um ano, em decorrência do acidente, viveu entre dores e grande confusão emocional, sentindo-se perseguido, deprimido. Em sua instabilidade emocional acreditava que eu, entre outros, queríamos sua morte. Perdeu o irmão mais velho e seus pais adoeceram.

Hamilton Cardoso, apesar do sofrimento , não deixou de escrever, de militar e influenciar muitos militantes que bebiam de sua sabedoria. Alguns valorizaram sua trajetória até mesmo acrescentando-lhe motivos para que continuasse a jornada.

A vasta, embora pouco acessível, produção de Hamilton Cardoso inclui livros dos quais é co-autor como “Movimentos Sociais na Transição Democrática”, editora Cortez, organizado por Emir Sader, e “Dez Coisas sobre o Direito do Trabalhado”, com Claudius Cecon. Matérias no “Diário Popular”, na Ilustrada e no Folhetim da “Folha de S. Paulo” ilustram o trabalho como repórter. Seus textos políticos, do Jornal Versus aos de maior densidade no final dos anos 90, e algumas tentativas de crônicas representam contribuições ímpares.

Extraordinário repórter, mesmo no inferno de suas dores relatou dia a dia sua trajetória nos últimos anos, descrevendo os personagens com quem convivia com a sensibilidade e maestria de quem sabe tocar o imaginário dos leitores com fatos cotidianos. São cadernos reescritos e páginas coletados pela família, cartas e rabiscos organizados, todos pelos filhos, que deverão, no período de um ano, ser compartilhado em forma de publicação, como ele certamente os organizou para que assim fosse.

Irreverente, embasado em sólido e diversificado conhecimento teórico, incorruptível,intransigente na defesa do livre-pensar, transitava entre conservadores e revolucionários, sendo um dos intelectuais que sensibilizaram muitos de seus pares não negros para que abandonassem a conivência com o mito da democracia racial, para a compreensão da origem étnica como definidora da desigualdade e da pirâmide social.

Mas foi para dentro, com os negros, que viveu seu inferno e paraíso, que consolidou sua obra na curta existência. Mesmo sangrando em público suas mazelas , ou exibindo seu charme e carisma, Hamilton Cardoso, repórter e militante, se fez eterno por ser a cada instante um mobilizador de consciências. Hamilton Cardoso faleceu em São Paulo no dia 5 de novembro de 1999.

Hamilton Cardoso é tão presente,tão necessário e atual, que imagino, com seu sorriso maroto, vá reportar a Marcha Zumbi +10, no dia 16 de Novembro, em Brasília, para os ancestrais e para os que estão por vir. Espero que ele escreva, no infinito, que valeu a pena gastar sua energia vital conosco, que ainda estamos por aqui.

 

Fonte: Jornal Irohin – Edição nº 11

Pérola Fina –  Homenagem a Hamilton Cardoso da [email protected] – Sua Revista Virtual!

Fonte: [email protected] – Sua revista virutal

Hamilton Bernardes Cardoso foi jornalista e trabalhou como repórter especializado de polícia no Diário Popular, ex-repórter do Povo na TVS, canal 4, TV Cultura, canal 2, jornal  Versus.  Nasceu em Catanduva, interior paulista, em 10 de julho de 1954. Representou o Brasil em vários encontros de organizações e partidos políticos da África, Caribe, Europa e EUA, na Inglaterra onde proferiu uma série de palestras.

Foi fundador do Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial em 1978 – hoje MNU, consultor de Comunicações da OAB e do Instituto da Mulher Negra, Geledés e co-fundador da revista Lua Nova/Cedec.

Em 1981, no Brasil, criou a revista Ébano, e organizou, junto com o dançarino Ismael Ivo, a passeata anti-racista do silêncio no campus universitário da Universidade Federal da Bahia – UFBA, durante a SBPC de Salvador, onde foi proferir a palestra O NEGRO NOS MEIOS DE COMUNICAÇÕES. Em 87 participou como co-autor, do livro Movimentos Sociais na Transição Democrática, editora Cortez, organizado por Emir Sader.

missaquilomboOrganizou, em 1991, na serra da Barriga, em União dos Palmares, a Missa dos Quilombos.
Poeta, jornalista, escritor foi atropelado no dia 1º de maio de 1988, dia do trabalhador. Isto lhe marcou a vida. O acidente deixou seqüelas. Hamilton suicidou-se em novembro de 1999.

Carta Aberta (Parte 1) que Hamilton Cardoso escreveu e entregou ao líder sul-africano Nelson Mandela em 1991. Um texto crítico, polêmico e poético a espera de um editor.

 

Meu caro Rei e presidente Mundial:


Quero manifestar e demonstrar-lhe a minha gratidão ao Cedec – Centro de Estudos e Cultura Contemporânea do Brasil. Eles me ajudaram a escrever-lhe esta carta. São meus amigos e o José Álvaro Moisés, de lá e, hoje na Inglaterra estudando, contribuiu decisivamente para que eu pudesse retirar as primeiras gotas de lama do país – cadáveres de todos nós – dos ombros. Ele me revelou – e eu demorei a concluir – que esta história de “jeitinho brasileiro” e da “malandragem compulsiva inerente do negro” são cadáveres siameses em nós.

O Marcos Faermam, um jornalista judeu como a maioria dos personagens de Richard Wright e da vida anti-racista negra norte-americana além de mostra-me, indicando livros para ler e ma dar tempo para faze-lo – garantiu, e criou condições para eu pensar e refletir sobre eles. E me convencer que eu sou uma ostra. Convenceu-me também de que o que eu gosto mesmo é jornalismo literário, e que poderia fazer uma grande reportagem. Tentei. Este é o esforço das ostras – e eles as nossas esperanças.

Tudo depois que o ex-deputado federal Adalberto Camargo me financiou os estudos na faculdade e o Wanderlei José Maria leu para mim a frase do Marx que diz que “quem tem fome não tem tempo para ver o por do sol”. Ele, o Wanderlei, me ensinou a escrever o que realmente penso. A Dra. Iracema de Almeida deu-me o primeiro empurrão e o “catiça” e a Deodô, meus pais, carregavam-me, sobre os ombros deles.

Ela pagou matrícula da faculdade. Caí no mundo.

O meu irmão Airton (fale rápido!) B. Cardoso, ao meu lado era invisível. E continua. Ele está morto e é um cadáver, belo e leve, como o do Eduardo de Oliveira e Oliveira, o sociólogo que dizem, suicidou-se porque não agüentou, mestiço, a tortura de ser negro e refletir sobre si mesmo e viver entre e, nos Dois Mundos. Ele me abriu as portas para escrever aquele artigo que o Francisco Weffort, com o Paulo Sérgio Pinheiro, Passado sem Mácula!, adoraram. Ele abriu as portas da minha auto-confiança.

De qualquer modo, se não fosse o Cedec, onde há mais de meia década eu e o Weffort – que conversava muito comigo e me revelou, mostrando a inutilidade deles, que um dia eu teria que derrubar cadáveres – ele escreveu sobre isto em relação ao socialismo, sem o Cedec eu não teria como lhe entregar esta carta. Ela poderia ser mais um cadáver da minha vida. E diante dela. E eu o desconheceria. Não saberia que estes defuntos existem.

Como você vê, eu estou por conta própria – mas nem tanto assim. O Orestes Quércia, ex-governador, quando eu estava quase afogado – e com a ajuda do ex-secretário dele, o Oswaldo Ribeiro, negro como nós- mostrou-me como sair do lodo. E a minha companheira, a mulher, Maria Cristina Brito Barbosa, sempre olhava para mim cuidadosamente e , por receio, talvez, – ela é branca – não deixava eu me liberar repentinamente dos entulhos. Ela temia, em mim, um choque anafilático e a loucura em minha mente. Eu seria um dos cadáveres dela. E Ela sabia que eu precisava do equilíbrio que você, meu caro Rei, demonstra. E também que eu não sou – talvez não tenha nascido para isto – um Estadista. E antes do meu isolamento – nos buracos das periferias repórter do povo – eu vi a loucura mental e a miséria (é uma loucura!) social dos descendentes dos seus compatriotas escravizados. Como muitos eu colocava a mão na cabeça e chorava… Você estava preso na África do Sul.

Mas como bom e fiel súdito, eu lhe peço: lembre-se sempre desta contribuição do Cedec. Nele, eu tenho amigos de verdade. Não que eles não tenham compromissos com a branquitude deles, mas é que a branquitude – e a minha companheira me ensinou – não é como a negritude: uma condição. Eles, e muitos deles – a maioria dos que tenho – são meus amigos.

Um ex-governador, por exemplo, se elegeu sendo chamado de brega. E ele, que agora “e um dos homens mais poderosos deste país, gargalha com o porta voz, à respeito disto – a acusação ou xingo. E ele é adorado e admirado, por uns, por muita gente, inclusive, que discorda dele na política – com raiva e inveja, até. E foi rindo e gargalhando dos acusadores, que ele construiu o prestigio o poder e a tranqüilidade. A Beatriz do Nascimento, a socióloga, do filme Ori, é a melhor que conheci na área e invisibilizada, por bem menos é o que é. Ela não matou ninguém – nunca foi chamada de japonesa, apesar de Ter os olhos puxados. E eu penso, às vezes, que ela deglutiu ou teve a língua deglutida…

Aliás, falando dos meus amigos, principalmente os do Cedec, lembrei-me da historiadora Maria Victória Benevides – que é de lá -, e eu a ouvi muitas vezes citar o Getúlio Vagas, que dizia: “Aos amigos, tudo, aos inimigos, a Lei.”

Eu não sei, e gostaria de ouvir ou ler a sua opinião à respeito, sobre o ditado do Getúlio Vargas, pai dos pobres -, se ele é certo… O fato é que é assim que as coisas funcionam aqui no Brasil, na democracia racial.

Se eu lembrasse, antes de lhe escrever, talvez eu pudesse, ao invés desta longa carta, enviar-lhe um bilhete com aquela frase. Ela sintetiza o Brasil e os mitos da de democracia racial e do país cordial. E, ao que parece, é no que o Frederico quer transformar a África do Sul. O De Klerk. O nome dele é Frederico, não é? O nome é popular no Brasil…

Mas existe o Mandela lá, – a Pérola, e o ANC. São populares lá…(O que eu penso sobre LÁ é positivo – e sua passagem, ela é “purificadora” pelo Planeta. E sobre o Conselho, acho que você dirá o seguinte: “TEMOS QUE MUDAR A LEI”.

É por isto que eu gosto de afirmar: TEREMOS A NOSSA CHANCE.

Aliás: acho que criarei um jornal com este nome. Este, esta carta, é o registro. O meu registro de nomes, marcas e patentes. Direto com o Rei.

Bem…, agora eu vou pegar o meu ganzê e o ganzá e ao invés de Não sei por que sou tão preto e azul, de Louis Amstrong, eu vou ouvir a festa para o rei negro. Com a minha mulher…

Afinal, o Mandela é tão preto, mais azul que eu. E eu sei o porquê disto…

 

Os dois Mundos

Meu caro: estamos organizados, no Brasil. Temos os nossos movimentos sociais, integramos os Partidos Políticos em comissões esportivas e o Estado em Conselhos e Coordenadorias especiais municipais ou estaduais, ou Fundações e repartições específicas, para organizar a nossa gente. Mas existe o Rap, são os rappers da Massa que em São Paulo se desenvolveram à partir dos EUA, mas foram impulsionados pelos FATOS do Zimbabwe. São do outro mundo!.

Ele é formado pelos sobreviventes do extermínio de crianças, colocado em andamento nos últimos dez anos. O jornal da Tarde, de São Paulo, do dia 19 de julho de 1991 entrevista um, e o pai de outro deles, Bezerra da Silva, o cantor dos bandidos, e revela isto: eles estão revoltados.

O jornal afirma que eles são os “sem nada”. Basta ser sensível: eles são uns macacos!

Meu caro:

Eu sou jornalista e repórter e você, advogado e ex-preso político, atual presidente do Congresso Nacional Africano nasceu, viveu, foi criado e estudou; defendeu, ou tentou defender as causas justas na África do Sul, colonizada por diferentes nacionalidades européias que se impuseram ao mundo e transformaram o seu país, onde criaram o sistema do apartheid, no lodo da civilização. O seus antepassados esperavam que você fosse um homem, e eles fizeram de você uma ostra…

Existe um samba no país onde nasci – dizem e eu acredito que é meu – que diz o seguinte “o ouro afundo afunda, madeira bóia por cima; a ostra nasce do lodo, mas gera pérola fina…”

O seu país deu ao mundo os mais belos e os maiores diamantes da humanidade e o meu, o ouro – ou parte considerável dele – que foi necessário, durante o mercantilismo para que surgisse o capitalismo – este tipo de economia tão contestado desde a Europa, condenado por milhões de pessoas, mas que se impõe cada vez mais, de forma definitiva sobre todos. Muitos o abominam, mas vários deles, quando podem, dele se apropriam. A escravidão, aqui no meu país, que atingiu a maioria dos meus antepassados de mais de três gerações, que custou caro até hoje, acabou oficialmente em 1988, dia 13 de maio, mas até hoje uma frase perturba-nos a vida: “todo mundo tem seu preço…” (Conduzindo Miss Dayse- filme dirigido por Bruce Beresford). Nós já não custamos nada. Deixamos de ser VENDIDOS

Mas eu não escrevi para fazer digressões. Todo negro, digo a maioria, tem esta tendência, de querer falar de tudo de uma só vez. E se prejudica por causa dela. Mas eu, um prejudicado como todos os negros do mundo até Collin Powel, que é o chefe do Estado Maior dos EUA – atuais donos do mundo e que há algumas semanas decidiram tirar a África do Sul do isolamento – também tenho esta tendência.

Escrevi para lhe falar do Brasil, – o meu país.

Você, que nasceu confinado no seu país, foi preso depois do massacre de Shaperville e, mais confinado ainda numa prisão, ficou nela por 27 anos, desde os 45 – de vida confinada pelo apartheid, submetida a uma maior -, foi à força no fundo do lodo onde, certamente se encontrou com outras ostras. Dentre elas, por causa do seu reconhecimento como líder e dirigente delas e de outros é, certamente, a mais fina das Pérolas – Você poderia, e nós sabemos que até por razões táticas, beneficiar-se como o fez e corretamente o guiano, sul americano, como eu, E. R. Braithwaite, da mania dos racistas de todo o mundo que, na África do Sul recebeu o título de Branco honorário.

Ele denunciou, a partir desta brecha, (ou honra, sei lá), a tragédia sul-africana, uma tragédia da humanidade deles e não nossa. Mas você, um negro, negou-se. Ninguém é o que não é. Você combateu a tragédia.

Recentemente um brasileiro, filho de imigrantes japoneses, Terumi Maeda, que foi para o Japão trabalhar na Honda do Japão, foi contratado lá como imigrante, entrou em depressão, visitou uma japonesa – que dizem, ele queria conquistar ou seduzi e foi recusado. Ele a estrangulou. Agora corre o risco de ser condenado à morte.

Os jornais brasileiros disseram algo interessante: ele tinha cara de japonês, jeito de japonês, mas não era. Era brasileiro. O ex-embaixador guiano que foi condecorado com o título de “Branco Honorário” por sorte não acreditou na história. E denunciou o fato em um livro publicado em 75 na Inglaterra, com este título: Branco honorário. Ajudou a matar um pouquinho do apartheid.

Aqui no Brasil, onde o racismo não é e nunca foi legal, – é péssimo, por sinal – existe a condecoração, concedida no plano individual e emocional – o Negro de Alma Branca – que foi rejeitada, inclusive, pelos negros da África do Sul e é utilizada para muitos dos nossos, até publicamente. Mas você, ao que me consta, e pelo que demonstra, rejeitou as duas…

Tudo isto, meu caro, o torna uma Pérola Fina.

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