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Juventude negra contra a violência: “somos nós por nós”

Juventude negra contra a violência: “somos nós por nós”

Rafael Bonifácio Enderson Araújo, que denunciou a Chacina do Cabula, ocorrida no carnaval de Salvador e que agora tem nove policiais com prisão decretada, pede que o ” caso sirva de exemplo para que outros sejam investigados”

Por Simone Freire Do Brasil de Fato

O carnaval nas periferias de Salvador (BA) não foi de festa. Ações da Polícia Militar (PM) deixaram 15 pessoas mortas no bairro do Cabula, Cosme de Farias e Sussuarana, nos dias 6, 7 e 8 de fevereiro. Das mortes ocorridas no bairro do Cabula (12 no total), o Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA) denunciou, na última segunda-feira (18), nove policiais, que também tiveram a prisão preventiva decretada.

Embora a notícia seja de uma ação efetiva do Poder Judiciário, há um longo caminho pela frente até diminuir os efeitos negativos da negligência do Estado nas periferias, uma vez que as mortes e a impunidade continuam. Semana passada, por exemplo, mais uma jovem foi morta no bairro de Periperi, durante uma operação policial.

A chacina no Cabula foi denunciada por Enderson Araújo, editor do blog Mídia Periférica, que, na época, sofreu ameaças e precisou sair da capital baiana por alguns dias. Em entrevista ao Brasil de Fato, ele falou sobre o caso e da necessidade da luta para que todos os crimes de violência sejam investigados.

O papel do Estado

Desde que foi criado por Enderson, em 2010, o blog Mídia Periférica tem atuado como um canal que deu voz às comunidades de Salvador. Os episódios de violência e abusos de poder por parte da polícia são corriqueiros. No entanto, para o comunicador, não basta olhar cada caso isoladamente. A questão é muito mais complexa e para entendê-la, se faz necessário olhar o Estado e quem o representa como um todo.

IMG-20150516-WA0010Enderson Araújo é o criador do blog Mídia Independente e sofreu ameaças
após denunciar a Chachina do Cabula, em Salvador, em fevereiro deste ano.
Foto: Bruno Pavan

“A violência nas periferias é institucionalizada. Ela é praticada pelo braço armado do governo que deveria propagar a paz e defender as leis, mas ele é quem burla as leis. Quando o governador legitima essas mortes, quando faz uma fala pública para a mídia dizendo que todo policial tem que ser aquele artilheiro na frente do gol e não pode errar, mostra o quanto nós, jovens negros e moradores de periferia, estamos fragilizados. A gente está à mercê. E a onda de mortes que vem acontecendo, não é só em Salvador, mas no Brasil inteiro”, diz.

Comunicação

Para além da denúncia que realizou, tanto no blog quanto em outros veículos de comunicação, Araújo apontou a atuação de entidades e campanhas que contribuíram e seguem contribuindo na denúncia dos episódios violentos contra a população negra e periférica. Dentro disso, ele destaca a campanha “Reaja ou será morto, reaja ou será morta”.

“Acho que a campanha REAJA concedeu um impulso ainda maior para este caso. O Hamilton Borges [organizador dessa ação] levou para além das fronteiras nacionais. O caso não só desta chacina, mas de outras mortes que acontecem nas periferias”, pontua.

Das mortes ocorridas no carnaval desse ano, apenas as do bairro de Cabula foram denunciadas pelo Ministério Público. Para Araújo, independente de divulgação ou não na mídia, todas as mortes devem ser investigadas e os casos não podem ficar impunes. “Mas que este caso sirva de exemplo para que outros casos venham a ser investigados também”, diz.

Nesse sentido, ele aponta que a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a violência contra jovens negros e pobres no Brasil, na Câmara dos Deputados, terá muito a contribuir. “Eu acho que com a instalação da CPI que investiga a violência, esses casos vão vir à tona. E que realmente sejam cobradas investigações também dos outros casos que acontecem nas outras comunidades. Porque, senão fica o holofote, prendem esses nove policiais, levam eles a julgamento e aí acaba se esquecendo da outra parcela. A polícia não para de matar!”, afirma.

Nós por nós

Sobre a expectativa da juventude negra e periférica, Araújo é enfático. “Eu costumo dizer que o jovem morador da periferia, nós, não temos muita expectativa de vida. A nossa realidade mesmo é de expectativa de morte. É uma fala meio pesada, mas que é real”, lamenta.

Tudo isso, aponta ele, é efeito do tradicional posicionamento do Estado, que prefere injetar dinheiro em balas e viaturas – aparatos para a PM reprimir jovens da comunidade – do que patrocinar a sociedade civil que se organiza, como em grupos culturais que realizam ações nas comunidades e pensam na solução real do problema.

O lado positivo é que tais iniciativas se dispõem a existir independente do Estado apoiá-las ou não, o que, para o comunicador, tem feito com que a realidade da juventude mude aos poucos e seja um pouco melhor do que a de tempos atrás.

“Quando eu digo que a gente tem um pouco mais de expectativa é porque a sociedade civil organizada está criando mecanismos. Porque se o governo não trás lazer e outra oportunidade, a gente vai lá e cria. É a Mídia Periférica, são os saraus, jovens criando ferramentas dentro da comunidade. Tem uma frase que a gente costuma usar bastante nos nossos meios de diálogo com a juventude: ‘agora somos nós por nós'”, conclui.

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