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Manaus Hoje revela um jornalismo misógino

Manaus Hoje revela um jornalismo misógino

No dia 12 de dezembro, “Manaus Hoje” fez a seguinte manchete para informar que a seleção feminina de futebol fez 4 X 0 no Torneio Internacional contra a seleção russa: “MENINAS DÃO DE QUATRO”.

Enviado por Gerliani de Oliveira Mendes para o Portal Geledés 

Essa tentativa de tornar pornográfico todo movimento feminino é o que os meios de comunicação mais sabem fazer quando se trata da imagem da mulher. Gostaria de pensar brevemente sobre as consequências disso.

Não basta dar o adjetivo de machista para o título da matéria. Não basta porque essa acusação já caiu na mesmice. Machista parece não ter mais a capacidade de informar a violência de sua prática. Parece apenas o oposto de feminista, uma escolha razoável.

Por isso, gostaria de enquadrar esse título desrespeitoso numa das práticas misóginas comuns da sociedade viriarcal em que vivemos. Sim, trata-se de uma manchete misógina. Uma manchete que revela ódio pelas mulheres. Parece exagero? Vou tentar explicar:

Estamos falando de futebolistas e esportistas que, nos últimos anos, provaram uma capacidade superior à demonstrada pelos homens. Foi um tema recorrente nas última Olimpíadas: o destaque feminino, o protagonismo negro, a capacidade da favela etc. Mas passou um mês e não mudou o respeito por essas pessoas.

Muitos se incomodam com as comparações feitas entre Neymar e Marta, onde Marta só saía em desvantagem quanto a reconhecimento por seu talento. Esse reconhecimento significa visibilidade e dinheiro. O primeiro é de importância simbólica para ela e todas as mulheres, especialmente as profissionais que estão inseridas em campos de trabalho tradicionalmente masculinos.

O segundo, dinheiro, torna Marta igual a todas as mulheres que ganham menos pelo simples fato de ser mulher. A própria Marta não gostou das comparações pois ela e Neymar têm uma relação de amizade. Porém, as comparações buscam percebê-los dentro de categorias de gênero, ou seja, entendê-los enquanto homem e mulher e perceber como aparecem nos indicadores sociais. Desse modo, não se trata de uma comparação pessoal e de rivalidade mas sim de interesse público. Como Marta e Neymar podem nos representar? Pois bem, estamos falando de um problema cultural, mesmo quando o argumento que justifica essa disparidade salarial seja o mercado. Sim, o mercado é misógino também, e capitalismo é uma possibilidade cultural, entre tantas. Mas isso é quase outro assunto. Voltemos:

Quando as mulheres ameaçam as hierarquias, elas sofrem retaliações. Não é de se surpreender que a seleção feminina tenha sido enquadrada num quimérico título de filme pornô. É uma forma de nos dizer o lugar que podemos ou não ocupar. E somos reduzidas sempre a atração sexual.

Estar no futebol é como estar na rua. Ainda acham que não é lugar de mulher e por isso ela é sexualizada. As cantadas no espaço público mostram o retardo masculino para entender que o tempo em que mulher não podia sair desacompanhada foi tarde.

É misoginia porque esse tipo de discurso tem efeitos práticos de violência simbólica e física. Todas nós sofremos as consequências físicas de uma sociedade acreditar que a mulher deve servir sexualmente o homem. A chamada cultura do estupro pode ser percebida nessa manchete, onde profissionais são passivamente enquadradas como objetos sexuais. Suas imagens são usadas com a finalidade de vender jornal para homem, gerando lucro para a empresa.

A violência simbólica diz respeito aquela sensação de impotência que temos ao ler essa matéria. Pensemos na falta de reconhecimento pelo trabalho árduo de um time inteiro e sua técnica, Emyli Lima. Pois quando não reconhecem o sucesso de um time nacional feminino ao fazer 4 X 0, quiçá a simples prática de dirigir que, absurdamente, ainda é tema de piadas. Sim, estamos todas implicadas nesse sadismo machista.

Também tem o efeito de violência patrimonial, já que isso determina o salário ou ainda a profissão que uma mulher pode ter ou não. E isso é muito importante.

É uma prática de ódio. É misoginia produzir discursos que causam prejuízos simbólicos, físicos e materiais às mulheres.

Vejamos além do velho termo machista. Não estamos falando de piadas, de pequenas coisas do cotidiano. Machismo é misoginia e sempre tem duras consequências para as mulheres.

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