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Moderado, nasce o partido Frente Favela Brasil

Moderado, nasce o partido Frente Favela Brasil

“Esse partido é de negros e moradores de favela”, diz o fundador Celso Athayde

Por Igor Carvalho Do Revista Trip

Às vésperas de completar 54 anos e duas décadas após criar a Central Única das Favelas (Cufa), uma das maiores e mais conhecidas ongs do país, Celso Athayde trabalha para a fundação do 36º partido do inchado cenário político brasileiro, o Frente Favela Brasil (FFB) – mas se apressa em informar, antes mesmo que comece a entrevista, que apesar de idealizador da legenda, nunca será candidato pela FFB. Presidente da Favela Holding, criada para atrair empresários que topem investir nas favelas, e sócio em 21 empresas, Athayde está deixando a Cufa depois de vinte anos e sabe que o partido lhe trará visibilidade e influência para continuar administrando os seus negócios. “As favelas consomem R$ 68 bilhões por ano. Por que podemos consumir, mas não podemos fazer gestão do que é consumido?”, diz.

O partido já existe e está regularizado, mas para que receba a autorização do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para disputar o pleito eleitoral de 2018 precisa conseguir 450 mil assinaturas distribuídas em pelo menos nove estados. Athayde está otimista. “Nós conseguiremos, tenho certeza disso. Após o dia 27 de fevereiro, vamos às ruas do país buscando os apoios necessárias e as favelas farão a diferença. É um momento histórico.”

Fluminense nascido em Nilópolis, Athayde começou a ter contato com a política com o traficante e amigo Rogério Lengruber, fundador da Falange Vermelha, que gerou o Comando Vermelho. “O Rogério e outros líderes da Falange liam muito, ouviam falar de ‘revolução’ e achavam que poderiam mudar a realidade das pessoas. Rogério nos falava sobre Che Guevara e de como poderia ser nossa participação na sociedade se a revolução tivesse acontecido”, explica Athayde, que se lembra de ter recebido do traficante um exemplar de Guerra e Paz, do escritor russo Leon Tolstói. “Ele mandava a molecada ler o livro e dizia que quem não respondesse as perguntas dele, ia levar tiro na mão. Ele nunca deu tiro em ninguém por isso, mas muitos leram o livro.”

RINHAS E BAILES

Foi com 14 anos que Athayde chegou à favela do Sapo e começou a lutar nas rinhas promovidas por Lengruber. “Não demorou muito e eu comecei a servir o café, esse negócio de rinha não dava certo, eu mais apanhava do que batia”, lembra. Antes, havia morado quatro anos sob o viaduto Negrão de Lima, em Madureira. Neste período, vendia os doces que sua mãe produzia. “Ela me passou disciplina. A roupa e o meu comportamento tinham que ser impecáveis para convencer os clientes.”

Algum tempo depois, já trabalhando como camelô, surgiu a primeira experiência de organização coletiva. “Eu convenci a rapaziada que unidos poderíamos reivindicar melhores condições de trabalho e a regulamentação da nossa atividade”, conta. Para promover os encontros entre os camelôs, Athayde organizava o Baile Charme, que se tornou uma marca de Madureira e continua sendo feito até hoje sob o viaduto Negrão de Lima, exatamente onde ele morou na infância. No local, também foi fundado um centro cultural que leva o nome de sua mãe, Marina Soares Athayde.

Mas Athayde não queria apenas música e cerveja. “Começou a virar só festa e pouca política, acabou a contestação. Aquilo me incomodou e eu decidi que precisava de algo mais sério: comecei a andar com o pessoal do rap”, conta. A migração do charme para o hip hop amplia o lado empreendedor de Athayde, que se torna produtor e passa a organizar shows de. Do contato com rappers, nasce, em 1997, a Cufa.

PODER MODERADOR

A primeira vez que Athayde tentou fundar um partido foi em 2001. O Partido Popular Poder Para a Maioria (PPPomar) deveria ser formado só por negros. “O dia que entrar um branco, eu saio”, ele afirmou em entrevista à Folha de S. Paulo na época. A legenda não conseguiu sair do papel.

Mais de uma década depois, Athayde está moderado. No site da Cufa, quinze empresas, algumas multinacionais, são anunciadas como parceiras da ONG. Em 2014, lançou o livro Um país chamado favela em parceria com o publicitário Renato Meirelles, com apresentação do global Luciano Huck. O partido da FFB, diferente do PPPomar, aceitará brancos. “Desde que sejam moradores da favela”, afirma.

A criação do partido gera críticas e desconfianças do movimento negro. “Para tocar no cerne da questão racial é preciso uma proposta mais radical possível”, diz Douglas Belchior, militante do movimento negro e fundador da UneAfro, que recentemente foi candidato à vereador em São Paulo pelo PSOL. “Até que ponto a FFB está disposta a enfrentar os interesses dos poderosos de nossa país, a medida que tal iniciativa reúne empresários e guarda intima relação com grandes corporações midiáticas e personalidades carimbadas da direita brasileira?”

Para Athayde, a crítica é “um pensamento lógico de alguém que desconhece o processo. O que ele [Douglas Belchior] está dizendo está conectado com o que pensa os partidos, que nos reserva um quartinho nos fundos do gabinete. Se a gente colocar mais pretos nos partidos, não teremos poder em partido algum, apenas daremos legitimidade para que esses partidos falem em nome de negros”, argumenta. Leia a seguir a entrevista sobre a FFB.

“A favela é o espaço que está associado a violência e degradação. Reconhecer isso e não partir para a política seria um erro”

Como surgiu a ideia do partido? Quando começa o julgamento [do impeachment] da Dilma Rousseff. Ficamos assistindo aquela putaria, com aqueles votos malucos, cheio de interesses obscuros e notamos que não tinham negros no Congresso. Tem poucos, mas é o negro que vota com os evangélicos. Ele não é um deputado do povo negro. Se você é negro no DEM, você vai rezar a cartilha do partido. Se teu partido é contra as cotas, por exemplo, você vai ser contra as cotas. A favela é o espaço onde eu posso morar porque não tenho para aonde ir, mas não é ali que vou sentir orgulho. Esse é o espaço que está associado a violência e degradação. Reconhecer isso e não partir para a política seria um erro.

Você participou da tentativa, em 2001, de criar um partido de negros, o PPPomar. Por que deu errado? Descobri duas coisas: precisávamos de dinheiro e de um discurso menos agressivo. Mas você não tem como tirar o discurso agressivo do rap, isso está na base dele.

“As favelas consomem R$ 68 bilhões por ano. Por que podemos consumir, mas não podemos fazer gestão do que é consumido?”

Você moderou o discurso? Hoje, você é muito próximo do mercado e não é comum vê-lo discursar por políticas sociais. Há alguns anos atrás, eu saí do discurso social e comecei a entrar em um discurso de mercado. O meu maior problema é que a Cufa tinha que fazer projeto com o poder público e isso é bom e ruim. A grana é legal, mas você tem que conviver, por exemplo, com o Sérgio Cabral. Bom, aí você fica entre não fazer críticas públicas contra esses atores

porque isso acaba gerando inimigos importantes que vão cortar suas verbas e a frustração por não dizer o que você pensa. Sabe, criou-se uma cultura de que não podemos ganhar dinheiro, como se fosse um pecado mortal. As favelas consomem R$ 68 bilhões por ano. Por que podemos consumir, mas não podemos fazer gestão do que é consumido?

Não é contrassenso criar um partido no momento em que as pesquisas mostram que é a instituição mais desacreditada da sociedade? Não acho, pelo contrário. Só existe um caminho capaz de nos levar à mesa que decide os destinos do povo negro: é a política. Hoje, 56% da população é de negros e não temos nenhum negro que esteja nessa mesa. Nós não queremos mais que essas pessoas continuem a decidir nosso destino, estamos cansados de ser administrados. Apesar da política ser um câncer, precisamos ocupar esse espaço. Os negros devem estar na política, é importante para a afirmação da nossa identidade. Até pouco tempo eu não era negro, era marrom bombom, era moreno, mas não era negro. Era tão horrível e difícil ser negro que eu não queria admitir que era.

Vocês afirmam que o partido não será de esquerda e nem de direita. Porém, a favela não é um espaço homogêneo. Na favela, o militante de esquerda é vizinho do evangélico e eles defendem pautas distintas. Como garantir uma agenda comum que agrade esse universo tão diverso que é a favela? Esse partido não tem a ambição de atender todo mundo na favela. Como você disse, a favela tem de tudo, evangélicos, homossexuais, tem anão, mulher, militantes de esquerda, enfim, tem de tudo. O Partido da Favela vai construir uma agenda e quem quiser vai nos seguir. Nós não podemos bater em negros do PT, PSDB ou DEM, mas não queremos uma salinha dentro dos partidos para fazer figuração.

Mas não é possível adiantar uma linha política? Por exemplo, o que vocês pensam da reforma da Previdência, anunciada pelo governo Temer? Existe uma série de discussões sobre reformas como a da previdência e a trabalhista. São diversas as opiniões e nós teremos a nossa. Porém, eu não posso expor isso agora porque ainda estamos debatendo internamente. Criamos núcleos de cultura, esporte, educação e outros temas. Nós não podemos criar uma casta de intelectuais que falam em nome da favela, precisamos dialogar com ela. Existe um grupo de intelectuais liderado pelo professor Julio Cesar Tavares [da Universidade Federal Fluminense], que é morador do Jacarezinho, que está pensando em tudo isso. Seria injusto eu colocar isso agora, com o partido ainda discutindo essa questão.

A política brasileira é forjada em coalizões. Quais apoios de dentro da política vocês já buscaram e receberam? Olha, a recepção ao nosso partido tem sido muito boa, já recebemos apoio de mais de dez partidos.

Quais? Eu não quero falar em nome de partidos, posso falar em pessoas. A ministra dos Direitos Humanos, Luislinda Valois, do PSDB, já se colocou a disposição e abriu as portas dos PSDB. O deputado federal Orlando Silva (PCdoB) também já se manifestou declarando apoio ao nosso partido. Mas esse negócio de apoio de político é complicado, eu não gostaria de receber determinados apoios, porque a nossa ideia é que o partido atraia pessoas de fora da política, que queiram construir algo diferente. Esse partido é um projeto para disputar espaço e poder em lugares onde nunca os pretos estiveram.

Os candidatos serão todos da favela? Sim. Esse partido é de negros e moradores de favela. No entanto, se tiver um loiro de olho azul morando na favela, ele pode ser candidato. Se for loiro de olho azul e morar fora da favela, ele não será candidato. Porém, um negro rico pode ser candidato.

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