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Onde estão as pessoas brancas como eu?

Onde estão as pessoas brancas como eu?

Uma vez, uma amiga me disse, enquanto me explicava sobre colorismo: “quem tem a régua pra medir a negritude das pessoas e decidir quem é negro e quem não é?”. Hoje, eu responderia pra ela que essa pessoa não existe, mas há um consenso geral na sociedade – e até na militância – que exige que você tenha determinado tom de pele para se autodeclarar negro. Pelo menos para que você se declare e não haja controvérsias. É aquela clássica frase: branco demais para os negros, negro demais para os brancos.

Enviado por Caio dos Santos Monteiro para o Portal Geledés 

Certa vez, um total desconhecido disse que eu não era branco durante uma palestra sobre cotas no Acepusp, um cursinho popular aqui de São Paulo. Isso aconteceu porque em determinada parte da minha pergunta eu disse “…eu, sendo branco…”, então o palestrante esperou eu terminar e iniciou: “alguns podem até não concordar comigo, mas eu não acho que você seja branco”. De repente um menino pálido com o cabelo do Zac Efron e os olhos azuis entoou que se achava negro porque o avô dele era.

O palestrante ficou desconcertado. E caso você esteja se perguntando, essa não foi a única vez que eu alguém me disse algo assim. Também não foi a única vez que alguém que nunca será lido como negro em nenhuma parte do globo terrestre usa os (bis)avós pra se enegrecer -geralmente essa gente adora falar sobre o famosos Sangue Negro que corre nas veias. No fim, o sangue é vermelho mesmo.

Falando no Zac Efron, preciso dizer que ele foi a causa de muitas progressivas que fiz na vida. Se as meninas da escola nunca se interessavam por mim e eu nunca estava na lista dos mais bonitos, só podia ser pelo meu nariz de batata, minha boca larga e meu cabelo “duro”. Se os outros meninos com a pele clara como a minha eram bonitos, por que eu também não era? A resposta era que se eu parecesse com o Efron, tudo mudaria.

Contei essa história pra ilustrar o quanto eu lutei contra minha fisionomia pra me sentir bonito. Na época, eu achava que era “encontrar meu estilo”, hoje vejo como embranquecimento. Mas… que embranquecimento? Eu mal tenho melanina suficiente pra ser chamado de moreno. Então, como posso me embranquecer se teoricamente sou branco? Será que eu pertenço ao grupo do menino pálido de olhos azuis do dia da palestra e do Zac Efron?

Sinto que a exigência da sociedade para com gente como eu é que  nos comportemos como brancos, pelo nosso tom de pele, que nos identifiquemos com brancos, que nos sintamos à vontade nas baladas indie da Augusta, que tenhamos ídolos brancos, que nos pareçamos brancos e nos rodeemos de brancos. Aposto que não é só comigo e vejo que realmente não é quando leio os textos do Tumblr Bicha Nagô e me identifico; quando vi a Rayza Nicácio receber milhares (literalmente) de críticas quando se declarou negra.

Enfim, pra nós, miscigenados, o processo de identificação racial é mais confuso e lento, mas não pode deixar de ocorrer. Eu olho pros irmãos de black power na Batekoo, festa voltada pro público LGBT negro, e sinto a conexão natural. É quase que espiritual! E mais: pelo menos essa confusão me rendeu uma das melhores frases que já ouvi, da mesma amiga do primeiro parágrafo: “nego, fica tranquilo que com o tempo você se acha. E tenha certeza que uma pessoa branca nunca vai se olhar no espelho e se questionar se é branca mesmo. Gente branca tem certeza que é branca a vida toda, o tempo todo”.

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