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Parem de criticar a Geração Tombamento

Parem de criticar a Geração Tombamento

“A noite tá perfeita eu saio ”cas” amiga loca
Joias, maquiagem, muito capricho na roupa
Versatilizando no estilo com muito brilho”

Música: Gandaia. Letra: Karol Conka

Por Lorena Lacerda Do Imprensa Feminista

Atualmente nas redes sociais, nas rodas de conversa, nos encontros, nas festas, dentro e fora da militância, ou seja, everywhere tem muito se falado na geração tombamento. Mas o que é tombamento? Que geração é essa? Tombamento é uma termo que caracteriza o ato de “tombar”, “arrasar”, “fechar sem ser feriado”. Essa geração é a nova roupagem do reconhecimento e fortalecimento da negritude através da estética. Por que falo de nova roupagem de uma geração atual? Porque não é de agora a preocupação de negras e negros em se apresentarem com roupas bonitas, sapatos e penteados para reforçarem sua beleza. A exemplo disso temos os “sapeurs” uma subcultura dos “dandy” originários do Congo – Brazzaville onde suas vestimentas são caracterizadas com uma mistura de cores, uso de paletós, gravatas e brilhosos sapatos. Os sapeurs são os alfaiates das suas próprias roupas e através delas expressam sua forma de ser e estar no mundo. Se vestir bem para os sapeurs é um estilo de vida e também uma maneira de apagar as diferenças marcadas pela pobreza das suas comunidades.

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Como reconhecer os vários tombamentos?

Cabelos coloridos

A geração tombamento vem com tudo, usando e abusando dos cabelos coloridos (verdes, azuis, roxos, descoloridos, grisalhos) onde anteriormente, no Brasil as cores nos cabelos tinham referenciais as meninas brancas como a apresentadora dos anos 2000 da MTV Mari Moon. As meninas negras sempre escutavam das pessoas: “Ah, mas essa cor não combina com você”. Hoje temos referências negras de cabelos/box braids coloridos como Bea Caixeta, Magá Moura, Maia Boitrago, Rafaela Franco e entre tantas outras meninas que estão tombando na internet. Para nós, negras e negros, ter representatividade importa e muito, pois nunca éramos vistos nas capas de revistas, nos programas de televisão, nas passarelas como símbolos de beleza. Atualmente é possível ver meninas negras tendo mais de 10 mil seguidores no Facebook e empoderando umas as outras, nas rodas de conversa sobre estética e até diferentes temas que envolve a negritude.

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Batons Coloridos

Os batons coloridos (verdes, azuis, rosas, roxos, pretos) fazem e deixam ainda mais marcantes as bocas das mulheres negras dentro da geração tombamento. Anteriormente tínhamos muita cautela para usar qualquer cor de batom, só ficávamos com os mais discretos ou com no máximo a cor vermelha, pois corríamos o risco de ouvir: “mas esse tom não combina com a sua cor”. Hoje, e cada vez mais, estamos usando quais cores quisermos nos nossos lindos lábios sem medo de sermos tombamento, sem medo de sermos felizes.

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A Importância da Geração Tombamento no Combate ao Racismo

O racismo é uma estrutura de poder onde pessoas negras são colocadas num lugar de subalternidade em relação as pessoas brancas. As características negras sempre foram alvos de xingamentos. Segundo Nilma Lino Gomes o corpo negro durante o processo escravista sempre foi coisificado, tratado como mercadoria. Nesse processo de objetificação os senhores de engenho violentava os negros à base de açoites, mutilação, e as mulheres negras eram vítimas de estupros.

O resultado de um histórico de escravidão no Brasil fez com que nossa estética fosse ridicularizada. Os nossos cabelos eram/são vistos como “ruins”, “duros”, “bombril”, “pixaim”, “rompe fronha” e diversos outros nomes depreciativos que nos faziam/fazem ter baixa estima de ser quem somos: negros. Hoje, e aos poucos, estamos recuperando a nossa própria autoestima, e o primeiro passo se dá através da nossa estética. Uma palavra que está muito alinhada, e acredito que foi a partir dela o surgimento do termo “tombamento”, é empoderamento. Empoderar se refere a dar poder e condições ao indivíduo para criar mecanismos de fortalecimento individual que influência no coletivo, e por conseguinte, o coletivo que influência no individual. Em Torna-se negro, Neusa Santos Souza define empoderamento de uma forma bem pontual nessa passagem: “Uma das formas de exercer autonomia é possuir um discurso sobre si mesmo”. Portanto, é através do nosso corpo e estética que se configura também a nossa maneira nos colocarmos no mundo, ressignificar o local que o racismo nos atribuiu, e a partir disso reescrever uma história de pertencimento no lugar da beleza.

Criticar a geração tombamento é tentar barrar pessoas negras de se sentirem e serem visto como belas, é impedir que essas pessoas exerçam sua liberdade de ser o que quiserem e se vestirem como quiserem.

O termo “tombamento” como empoderamento das mulheres negras

Nós, mulheres negras, estamos na base da pirâmide sócio racial e somos atingidas duplamente, tanto pelo racismo quanto pelo machismo. Os valores estéticos empregados na nossa sociedade reforça o ideal de beleza da branquitude e as suas próprias características: cabelo liso, nariz afilado, os ditos “traços finos”. A prática do raci-machismo coloca a mulher negra num lugar de inferioridade e feiura em relação as mulheres brancas e quem dita isso são os homens (negros e brancos).

Reconstruir a nossa autoestima e estar dentro do que é considerado belo nos custou e ainda nos custa muito, pois desenharam e limitaram um lugar para mulheres negras: o da inferioridade. Mas o feminismo negro e a solidariedade entre mulheres negras nos ensinam todos os dias a nos olharmos no espelho, a trocarmos elogios e chamar umas as outras de lindas e divas. Pois tempos atrás o elogio não era comum para mulheres negras e muitas vezes vinham carregados de racismo: “nossa, que NEGRA LINDA!” como se fosse uma raridade existir mulheres negras lindas e estamos aqui para confrontar desconstruir essa mentira.

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Mas como a geração tombamento empodera a mulher negra? É muito simples e visível, quando estou usando o Facebook e vejo várias mulheres negras postando suas fotos elas  geralmente obtêm vários likes e ganham diversos elogios como: “Que tombamento!” “linda!”, “diva!” vindo de amigas, colegas de trabalho, conhecidos. Quando estou numa festa onde a maioria é negra, percebo quantas mulheres lindas estão naquele espaço e vem mais tombamento, e claro, mais elogios, vindo de mulheres negras para mulheres negras. Além de ter um apoio mútuo entre mulheres negras para a reconstrução da nossa auto estima, estamos derrubando a falácia machista de que mulheres estão no mundo para competir com outras mulheres, principalmente quando ao assunto é beleza. Então vejo como a geração tombamento e o ato de tombar empodera a mulher negra a se sentir mais bonita (tombadora) e como estamos ajudando umas as outras nesse processo.

A Geração Tombamento Presente na Marcha do Empoderamento Crespo

A marcha do empoderamento crespo é um movimento político idealizado por afro feministas, na qual faço parte da comissão organizadora, tem como principal foco encorajar negras e negros no de combate ao racismo através da estética – porque a nossa estética e o nosso corpo é político. A marcha teve sua primeira edição no dia 07 de novembro de 2015, na cidade de Salvador. Mas o que a marcha do empoderamento crespo pode dizer sobre a geração tombamento? Acompanhei várias pessoas criticando a geração tombamento, críticas infundadas, inclusive, de que essas pessoas tombadoras não buscam ler autores negros, não participam de coletivos, não vão a palestras, não estão interessadas em fazer política, mas as fotos da marcha estão logo abaixo para desmentir sobre “o não fazer política”:

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Comparecer num movimento de rua como esse e gritar “eu tô na rua / é pra lutar / pelo direito do cabelo encrespar” diz muito sobre política e de como essa geração está se organizando contra o racismo. Criticar essas pessoas e a maneira como elas se apresentam esteticamente é muito bizarro, pois estamos lutando pela afirmação da nossa estética como um modelo natural de beleza. Se essas pessoas não estão no mesmo coletivo que você milita, isso também não é motivo para criticar a geração tombamento, ninguém é obrigado a ser militante ou estar dentro de alguma organização para defender o debate racial e falar sobre racismo. O nosso corpo, a nossa cor, as nossas características já dizem bastante sobre o fazer política sem que para isso estejamos na mesma via de pensamento sobre “o que é ou como devemos fazer política”.

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Portanto, finalizo o texto com um pedido: Parem de criticar a geração tombamento. Afinal, lutamos para que nossos corpos, a nossa estética, as nossas escolhas e vontades sejam livres de limitações e posturas racistas. Eu posso sim, usar o cabelo colorido e ler Chimamanda Ngozi Adichie. Eu posso sim, usar batom preto, ir na Batekoo e estar apta para falar sobre temas raciais. Eu posso sim, ser negra e tombadora nos dois sentidos, na aparência e na forma de fazer política. Eu posso sim, ser apenas tombamento. Porque estética negra e política nunca se desvincularam. Então, eu termino o texto como ele começou: PAREM DE CRITICAR A GERAÇÃO TOMBAMENTO.

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