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Perseguidas

Perseguidas

Elas recusam o silêncio e transformam ameaças em força para lutar

Histórias de resistência

Do 

No Dia Internacional da Mulher, flores foram substituídas por protestos no mundo inteiro. As típicas homenagens deram lugar à consciência de que falta muito a ser conquistado. Mulheres que ousam defender a igualdade de direitos e recusam o silêncio são perseguidas violentamente no Brasil. Na série de entrevistas que o Correio inicia hoje, 8 de março, você vai conhecer histórias de mulheres que resolveram não se calar. Com isso, encaram a violência diariamente, sem ver motivos para desistir (continue lendo)

..Entrevistas..

“Muitas mulheres preferiram morrer a ser escravas. Muitas mulheres lutaram. E seguimos lutando”

Djamila Ribeiro é um símbolo do feminismo negro no Brasil, transformou a perseguição em mais força para lutar e garantir a voz para as mulheres negras. Os insultos racistas e machistas chegaram até as mensagens privadas no Facebook no perfil pessoal. Mestre em filosofia política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ela usa a palavra “resistência” como forma de combater as perseguições e ainda se fortalecer (continue lendo)

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“Tem um motivo para eles me odiarem. Sou uma ameaça, e é claro que querem me calar. Isso não vai acontecer”

Lola Aronovich mantém um dos mais populares blogs feministas do Brasil e, por conta disso, sofre ameaças diárias de estupro, tortura e morte. Ela já registrou 10 boletins de ocorrência, e a Polícia Federal agora investiga um desses casos. Mesmo assim, garante que não tem medo nem pensa em parar (continue lendo)

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Leia na próxima quarta-feira: Débora da Silva, fundadora do grupo “Mães de Maio”, fala sobre as dificuldades de lutar na periferia

Mulheres que lutam e não se calam

No Dia Internacional da Mulher, flores foram substituídas por protestos no mundo inteiro. As típicas homenagens deram lugar à consciência de que falta muito a ser conquistado. Mulheres que ousam defender a igualdade de direitos e recusam o silêncio são perseguidas violentamente no Brasil. Na série de entrevistas que o Correio inicia hoje, 8 de março, você vai conhecer histórias de mulheres que resolveram não se calar. Com isso, encaram a violência diariamente, sem ver motivos para desistir.

Em casa, clamar pelo direito de se separar leva a índices crescentes de feminicídio. No mercado de trabalho, salários e direitos iguais ainda são ilusão para muitas empresas. E, na internet, defender a ideia de que homens e mulheres devem ter igualdade é motivo para ataques machistas, racistas e homofóbicos. “Sofro ameaças todos os dias. Dizem que vão me torturar, me estuprar e que têm meu endereço”, diz Lola Aronovich, professora da Universidade do Ceará e autora do blog ‘Escreva Lola Escreva’.

A defesa de direitos leva a índices preocupantes em diversas áreas. Em 2016, 67 ativistas morreram no Brasil. Sete eram mulheres. O índice — 10,4% — pode parecer pequeno em uma primeira análise. No entanto, para Lúcia Bessa, subsecretária de Políticas para as Mulheres do Distrito Federal, o grupo é considerado mais vulnerável, por causa do machismo naturalizado na sociedade. “Ainda se acredita que o lugar da liderança não pertence às mulheres, porque nasceram para ficar em casa e servir ao marido. Quem não se enquadra nesse perfil, vira uma ameaça. A violência contra a mulher não escolhe situação, principalmente se for para nos calar”, justifica.

O conservadorismo crescente no país é motivo de preocupação. Ativistas reclamam que, enquanto conquistas não avançam, a participação do Estado na proteção das mulheres ainda é pífia. Diante da omissão de quem ocupa lugar de destaque no governo, as militantes precisam recorrer às organizações não governamentais. O Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFemea) é uma das instituições brasileiras que promove rodas de conversa, apoio psicológico, emocional e, muitas vezes, financeiro às líderes, para que possam continuar na luta.

Para Jelena Djordjevic, integrante do CFemea que está à frente da Campanha de Autocuidado e Cuidado entre Ativistas, a rede de apoio é uma estratégia para minimizar o impacto da violência contra mulheres ativistas e contribuir para a sustentabilidade do ativismo. “O espaço é necessário. Elas lidam com os problemas de outras mulheres e muitas vezes se esquecem dos próprios. O debate é importante”, analisa.

O sentimento de insegurança e medo foi comumente relatado pelas ativistas para esta série. A cada 11 minutos, uma mulher é violentada no Brasil. Só no Distrito Federal, desde a tipificação do feminicídio como crime hediondo, em março de 2015, foram registrados 24 casos de feminicídio, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal. Só em 2016, houve o homicídio de 19 mulheres pela mera condição de serem mulheres — um aumento de 280% em relação ao número do ano retrasado, de cinco mortes. Apesar desse cenário,  a subsecretária Lúcia Bessa afirma que a “integridade física e psicológica são e sempre serão uma prioridade do governo”. Contudo, ainda não há registro de projetos que garantam a segurança de mulheres militantes no DF.

O lugar de poder dificilmente está na mão de quem precisa, de fato, de ações governamentais. Umas das poucas exceções é Djamila Ribeiro, feminista negra que ocupou a Subsecretaria de Direitos Humanos de São Paulo, na gestão de Fernando Haddad. Mestre em filosofia política, ela defende mais representatividade nos espaços de poder. “Temos de estar nesses lugares. Não podemos ser apenas beneficiários de políticas públicas, mas as pessoas que estão ali, pensando e executando essas políticas.”

Em algumas situações, as perseguições extrapolam o mundo virtual e chegam à porta das casas das ativistas. Jornalista e moradora da Favela da Maré, no Rio de Janeiro, Gizele Martins acusou a Polícia Militar por dois assassinatos na comunidade. Desde então, ela relata ameaças de membros da corporação. Ela entende que trabalhar com direitos humanos dentro de uma comunidade nunca será uma situação bem recebida pelo sistema. No entanto, não pretende parar: “Apesar de tudo, é muito gratificante levar o debate para dentro da favela. Eu amo fazer comunicação comunitária, me acrescenta como militante e como figura humana também”.

Apesar de serem pessoas completamente diferentes, Lolas, Djamilas e Gizeles só têm uma arma contra a perseguição: resistência, palavra repetida diversas vezes nesta série de entrevistas, publicadas semanalmente no Correio Braziliense.

Entrevista // Djamila Ribeiro

“Negras cuidaram da casa e permitiram que as brancas pudessem trabalhar fora”

Negra, Djamila Ribeiro começou a recusar o silêncio ainda criança. Do pai militante, ela não só recebeu o nome africano como também força para lutar contra o machismo e o racismo na infância. “Os meninos não queriam dançar comigo porque eu era ‘neguinha’, riam do meu cabelo. Eu sempre me defendi”, recorda.A luta continuou quando ela passou a integrar a Casa de Cultura da Mulher Negra, aos 19 anos. Hoje, aos 36, ela é uma das principais vozes do feminismo negro no Brasil. Mestre em filosofia política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Djamila usa a palavra “resistência” — repetida muitas vezes nesta entrevista — como forma de combater as perseguições e ainda se fortalecer.Por não ter medo de falar sobre feminismo, racismo, apropriação cultural, ela se destacou na internet. A militância a levou a um cargo político: foi secretária adjunta de Direitos Humanos em São Paulo, durante o governo de Fernando Haddad. Hoje, apresentadora de tevê, colunista na revista Carta Capital e pesquisadora, ela joga os holofotes ao feminismo negro, o que costuma despertar a fúria on-line.Um grupo de haters, como são chamados os disseminadores de ódio na rede, organiza ondas de ataque a feministas. Eles se unem para tentar tirar páginas do ar, fazer comentários em massa e até vídeos com ameaças. Djamila foi alvo dessa gangue por um ano e meio, quase diariamente. Os insultos racistas e machistas chegaram até as mensagens privadas no Facebook, no perfil pessoal.

Mulheres brancas ganham 30% menos que homens brancos, mas ainda ganham mais que homens negros. E as negras estão em um lugar ainda mais vulnerável”

Mesmo achando que tudo isso já estava indo longe demais, ela preferiu não acionar a Justiça e ignorou todas as ofensas para seguir lutando. Embora a perseguição seja assustadora, ela não é uma grande novidade para Djamila: “Existe um incômodo com mulheres negras que pensam, marcam sua posição. Tem um inconsciente coletivo de que mulher negra deve ser subalterna”, analisa.

Seu pai é militante também. O que a senhora aprendeu com ele? Como foi lidar com o combate ao racismo e ao machismo na infância?

Meu pai é militante, daí meu nome africano. Ele sempre falou o quanto a gente era bonita, e isso fez com que eu me defendesse desde cedo, mas não impediu que eu sofresse racismo na infância, ficasse magoada. Como criança, não absorvia essas questões. Na festa junina, nenhum menino queria dançar comigo porque eu era “neguinha”, riam do meu cabelo. Eu sempre me defendi.

O que é feminismo para a senhora?

É pensar em um modo de nomear a identidade. Classe, raça e gênero se cruzam, e não dá para pensar nisso de forma isolada. Durante um tempo, privilegiou-se o discurso das mulheres brancas, não das mais vulneráveis. Entendemos que somos diferentes, não partimos do mesmo ponto.

Como foi o seu primeiro contato com essa luta?

Em Santos, trabalhei na Casa de Cultura da Mulher Negra. Eu tinha por volta de 19 anos. Trabalhei lá por quatro anos, inclusive na revista da entidade. Tive contato com militantes mais velhos, viajei, participei de eventos. Ensinaram-me de modo lógico que a questão LGBT também deveria ser negra, já que existem negros nesses espaços. O mesmo com o feminismo. Os movimentos estão em caixinhas e não pensam em sujeitos que acumulam identidades. Não é somente pensar na questão das mulheres, mas em outro projeto de sociedade, que combata todos os tipos de opressão.

Somos todas mulheres, mas foram as negras que cuidaram da casa e permitiram que as brancas pudessem trabalhar fora. Não perceber essas diferenças é contribuir para a manutenção do status quo”

É o maior desafio…

Ainda há muita resistência em pensar essa questão, mas isso vem com perda de privilégio. Nem sempre as pessoas querem perder isso. As pessoas vêm com um discurso raso de divisões, quando a sociedade já é dividida.

Muitas pessoas refutam o feminismo negro, dizem que serve para segregar. Como a senhora responde a esse argumento?

Vivemos em um país com três séculos de escravidão, em que mulheres negras foram subjugadas. Depois, continuaram escravas, sendo domésticas, maltratadas, exploradas. Somos todas mulheres, mas foram as negras que cuidaram da casa e permitiram que as brancas pudessem trabalhar fora. Não perceber essas diferenças é contribuir para a manutenção do status quo. Não há problemas de mulheres atrizes na tevê, mas quantas são negras ou não estão reforçando estereótipos? Mulheres brancas ganham 30% menos que homens brancos, mas ainda ganham mais que homens negros. E as negras estão em um lugar ainda mais vulnerável.

A senhora já sofreu alguma perseguição em função da militância?

Quando eu comecei a militar, não tinha tanto isso da internet, não discordavam de forma tão agressiva. Com a internet, um hater passou a printar tudo o que eu falava, organizou ataques à minha página. Eu fechei meu Facebook para comentários externos, mas, ainda assim, ele criou uma página para atacar a minha. Fizeram vídeos me atacando, pedindo para as pessoas me xingar. Programavam ataques, denunciando meus posts no Facebook até a página cair.

Qual era o teor desses ataques?

Pegavam todos os meus artigos para tentar me rebater, dizendo que eu era desqualificada, que eu só havia me formado porque as pessoas tinham pena de mim. Me chamavam de racista reversa, diziam que eu odiava brancos, que eu era burra, não sabia do que falava. Eles iam ao site da revista Carta Capital para dizer que eu era a pior colunista. Tudo sempre no sentido da desqualificação intelectual, o que é muito comum. Eles me desafiavam, mas eu nem dei bola.

A senhora acha que, por ser negra, as perseguições são mais intensas e rotineiras?

É mais intenso e é diferente no tipo de xingamento. Existe um incômodo com mulheres negras que pensam, marcam uma posição. Tem um inconsciente coletivo de que mulher negra deve ser subalterna. Os xingamentos machistas são pesados, sempre querendo me colocar como inferior, uma lógica do tipo “Como ela não sabe o que está fazendo, não tem capacidade de estar nos espaços em que estamos”.

Muitas mulheres preferiram morrer a ser escravas. Muitas mulheres lutaram. E seguimos lutando”

A senhora sente medo? Como lidou com essa onda de ataques?

Não me dá medo. Pensei em acionar essas pessoas judicialmente, achava muito pesado porque era todo dia, toda semana, por um ano e meio. Quando estava passando dos limites, conversei com advogadas feministas e achei melhor não fazer nada. Parei de dar ibope e passei a ignorar tudo o que a pessoa fazia, porque era cansativo. Mas nunca deixei de ir a lugar algum.

Por que desistiu de acionar a Justiça?

A gente sabe o quanto o Judiciário é difícil com essas questões. É um sistema que não foi feito para nos atender. Seria ainda mais cansativo. Acabariam achando que não era uma violência. Esses ataques são uma tentativa de nos enfraquecer. Em muitos casos, enfraquece mesmo, muita gente acaba saindo desse cenário. Para mim, serviu para fortalecer.

O que pode ser feito para que se acredite na mulher?

O Judiciário é feito por homens brancos de grupos privilegiados. É muito difícil que nossas pautas sejam atendidas. Temos que trabalhar na educação. Os homens se sentem confortáveis para violentar e não são punidos por isso. O trabalho de base é essencial. Enquanto não entenderem que a mulher é um sujeito, não seremos protegidas de fato.

Mesmo com tantas dificuldades, o que a motiva a continuar na militância?

É estar muito em contato com as feministas negras, estabelecendo uma relação de acolhimento muito importante. Reconheço muito do que já foi feito. Muitas mulheres preferiram morrer a ser escravas. Muitas mulheres lutaram. E seguimos lutando.

A senhora acha que há outros caminhos em tempos de conservadorismo tão grande?

A gente vive um período preocupante em relação às políticas públicas. Não nos resta outra opção que não seja resistir. Vamos continuar nos mobilizando de fato para lutar por esses direitos. Não existe outra opção que não seja mobilizar, resistir, fazer a disputa no campo político, com mulheres comprometidas.

Durante a gestão do governo Haddad, a senhora tinha uma ferramenta de transformação nas mãos, a chamada “máquina pública”. O que conseguiu implementar e quais são os principais desafios para a defesa dos direitos humanos dentro do governo?

Foi importante. Temos de estar nesses lugares. Não podemos ser apenas beneficiários de políticas públicas, mas as pessoas que estão ali pensando e executando essas políticas. Muita coisa foi feita, sobretudo na coordenação da juventude, para os jovens negros. Cursos foram feitos, eles recebiam uma bolsa em parceria com a Secretaria do Trabalho. Dentro das políticas LGBTs, muita coisa foi feita, como um programa para trans e travestis, entrega de quatro centros de atendimento para esse público. Fiquei muito pouco tempo, mas consegui fazer muitas coisas.

Entrevista // Lola Aronovich

Ela luta, ensina e escreve, escreve, escreve

Feminista desde os 8 anos, Lola Aronovich é a autora de um dos blogs brasileiros mais acessados sobre o assunto, o Escreva Lola Escreva. Quem visita a página e lê seus textos logo percebe a paixão com que a professora na Universidade Federal do Ceará (UFC), de 49 anos, trata o feminismo. Como consequência, o reconhecimento. Como ônus, as perseguições. A militância da brasileira nascida na Argentina incomoda os antifeministas, que a ameaçam diariamente de estupro, tortura e morte. Ela já registrou 10 boletins de ocorrência, e a Polícia Federal agora investiga um desses casos.

A maioria dos ataques chega virtualmente. Outros acontecem por meio de telefonemas, com ameaças diretas a Lola e à família. Com perfis falsos e números privados, os perseguidores se juntam para atacar não só a ela, mas também às suas leitoras. O blog dela já foi, inclusive, retirado do ar, após uma mobilização de denúncias relacionadas ao material publicado — acusaram-na de publicar conteúdos pornográficos.

Diante de todas as perseguições que vive, Lola não se intimida; só se chateia pelo tempo e energia gastos para lidar com elas. A professora relata que chorou apenas em um desses casos: quando um site com discurso de ódio foi criado como sendo dela. Embora o blog verdadeiro dela tenha precisado de nove anos para, aos poucos, acumular milhares de seguidores, a página falsa logo viralizou. “A luta é muito desigual”, lamenta.

No blog, principal veículo para dar continuidade à militância, Lola escreve e tira dúvidas sobre o feminismo. É frequente o contato com leitoras, que a procuram para pedir ajuda em relação às situações cotidianas em que são vítimas do machismo.

Enquanto muitas mulheres largariam a luta por sentirem medo, Lola garante que os “mascus”, termo com o qual se refere aos homens misóginos, só a motivam a continuar. “Tem uma razão para eles me odiarem. Eu sou uma ameaça, e é claro que querem me calar. Mas isso não vai acontecer”, orgulha-se.

Lola já morou no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Joinville (SC) e, depois de um ano fazendo doutorado em Detroit (EUA), foi morar em Fortaleza, onde leciona. Doutora em língua inglesa e literatura, Lola fez metade de uma graduação quando era mais jovem, em  publicidade. Trabalhou como redatora publicitária durante sete anos, mas não completou o curso. Só depois dos 30 voltou à faculdade. Começou a dar aulas de inglês e resolveu começar a graduação em pedagogia para poder fazer o mestrado em língua inglesa e literatura.

O que é feminismo para a senhora?

Feminismo é a luta contra todas as opressões. Eu compartilho da definição que não é a luta apenas pela igualdade. É uma luta muito restrita. A gente vive em um sistema tão desigual, não só de gênero, mas racial e social. O conceito de igualdade ainda é restrito. É uma luta contra todas as opressões, mas, principalmente, a da mulher.

Como foi o seu primeiro contato com o feminismo?

Eu tinha 8 anos. Eu tenho diários daquela época onde escrevi que homens e mulheres poderiam, sim, fazer a mesma coisa, que as mulheres não eram inferiores. Eu já me considerava feminista nessa idade. Eu tive a sorte de ter pais progressistas. Eu conheci o feminismo antes mesmo de conhecer as mentiras ditas sobre o feminismo.

A senhora já escreveu sobre algumas perseguições que sofre. Elas ainda acontecem? Como foram?

Não dá nem para falar no passado. Eu sofro perseguições todos os dias. Começaram há seis anos e continuam fortes. São vários tipos de perseguições, como ameaças de morte, estupro e tortura. Em novembro, começaram a fazer boxing na internet comigo (o ato de rastrear os dados pessoais de uma pessoa, como endereço, telefone residencial, número de documentos, parentesco, nome de vizinhos e divulgar para cometer ações contra ela). Fizeram comigo e com leitoras minhas. Às vezes, quando eu tuitava para alguém que eu sequer conhecia, mandando um tuíte me solidarizando, por exemplo, essas pessoas iam atrás da mulher que recebeu a mensagem e faziam montagens pornôs com suas fotos. Depois, as publicavam em sites de prostituição e suingue.

“Durmo tranquilamente à noite, porque sei que são covardes. Enquanto eu sou uma mulher de verdade, com família, número de telefone e endereço, eles se escondem atrás de perfis falsos e fóruns anônimos”

Todas as perseguições são virtuais?

Além de encherem minha caixa de e-mail, meu blog e meu Twitter, eles divulgam meu endereço todos os dias. Também recebo trotes a qualquer hora do dia ou da noite.

A senhora já chegou a levar para autoridades oficiais essas perseguições?

Sim. Já fiz 10 boletins de ocorrência. Todos foram crimes cibernéticos, entre eles de ameaça, calúnia e difamação. Eu me ofendo mais com as calúnias. Já me acusaram corrupção na universidade e de vender remédios abortivos. Esse foi o caso que mais me marcou. Fizeram um site em meu nome, em primeira pessoa, oferecendo esses medicamentos e dizendo que eu fiz aborto em uma aluna minha, dentro de sala de aula. Você não sabe se ri ou se chora.

Houve ameaças mais sérias?

Em dezembro do ano passado, o grupo de haters mandou um email para o reitor da UFC dizendo que se eu (ou “porco imundo” como fui chamada) não fosse demitida, a universidade sofreria um atentado terrorista. Como afetaria a segurança de outras pessoas, eu e o reitor resolvemos levar a situação para a Polícia Federal, que está investigando.

A senhora identificou algum dos perseguidores ou eles mantêm perfis falsos na internet?

Eu conheço dois homens que me ameaçam e, inclusive, já estiveram presos em 2012. Eles foram detidos na Operação Intolerância, da Polícia Federal. Moradores de Brasília e de Curitiba, foram detidos porque eram autores de algumas páginas que faziam apologia à violência, sobretudo contra mulheres, negros, homossexuais, nordestinos e judeus, além da incitação do abuso sexual de menores. Apesar de ficarem um tempo na prisão, atualmente eles estão soltos e continuam com as perseguições. Eles mantêm um fórum anônimo, onde combinam os ataques. Para você ter uma ideia, as peças me avisaram da página e eu consigo acompanhar cada movimento deles.

A senhora sente medo?

Não. Durmo tranquilamente à noite, porque sei que são covardes. Enquanto eu sou uma mulher de verdade, com família, número de telefone e endereço, eles se escondem atrás de perfis falsos e fóruns anônimos. Eu fico muito mais abalada quando ameaçam meu marido, por exemplo. Machuca mais mexer com quem a gente ama. Eu divulgo só 10% das perseguições que sofro, porque sei que o objetivo deles é me calar. E isso não vai acontecer.

Me chamam de ‘gorda e feia’. Mas eu acho que, mesmo se eu fosse a Gisele Bündchen, eles achariam outra característica em mim para abalar minha autoestima. Esse tipo de homem leva tudo para o lado físico, porque é um jeito de calar as mulheres”

A senhora acha que, por não se enquadrar nos padrões, as perseguições são mais intensas e rotineiras?

Sim. Apesar das perseguições que querem minha morte, tem também aquelas cotidianas, “leves”, que eu, carinhosamente, apelidei de “reaças zoeiros”. Eles fazem parte de um outro grupinho nas redes sociais que seguem a linha dos “mascus misóginos”, mas mais “lights”. Eles também querem te calar, mas eles fazem isso usando um humor que, na verdade, não tem graça nenhuma. Me chamam de “gorda e feia”. Mas eu acho que mesmo se eu fosse a Gisele Bundchen, eles achariam outra característica em mim para abalar minha autoestima. Esse tipo de homem leva tudo para o lado físico, porque é um jeito de calar as mulheres, enfatizando a beleza e comparando-as ao padrão. Mas isso não adianta comigo. É uma atitude muito imatura, que não vai afetar uma mulher de quase 50 anos. Infelizmente, é muito ruim. Eles têm um perfil pré-definido de que feminista é tudo lésbica, gorda, mal amada. Eu não me enquadro, porque sou casada, hétero e bem resolvida. Talvez isso os irrite.

Essas perseguições são uma forma de assédio psicológico. A senhora faz algum tipo de acompanhamento?

Na verdade, não. Não me afeta muito. O que acho ruim é que gasto muito tempo e muita energia com isso. A única vez que eu chorei foi quando um site de ódio viralizou em meu nome. Eu senti raiva, porque tenho um blog que dedico tanto tempo, tanto trabalho, tantos anos, que demorou a ganhar força. Mas no caso da página fake, ela viralizou muito rapidamente. É uma luta muito desigual, e o apoio de companheiras de luta às vezes demora um pouco.

Se é tão doloroso, por que continuar na militância? O que a motiva?

Confesso que eu já pensei em parar. Mas eu sei que os ataques não parariam, eu ficaria um alvo ainda mais fácil. Fico imaginando que, se me matassem, como dizem que farão, haveria uma certa revolta e, ao menos, ocorreria uma investigação. No blog, minha maneira mais concreta de militância, eu mostro um pouco das ameaças que sofro. Eu também não paro porque tenho uma troca muito legal de carinho e solidariedade com as minhas leitoras, que motivam a minha militância.

É triste ver como o machismo afeta as mulheres de qualquer idade. Um dia desses, recebi um email de uma menina de 13 anos dizendo que havia sido escolhida a aluna mais feia da escola. Imagina o que isso faz com a autoestima dela”

Com a mudança de governo, houve um redirecionamento nas políticas?

A gente está tentando sobreviver ao baque, porque, apesar das manifestações contra o golpe, não está tendo tanta luta assim, ao menos não nas ruas. Antigamente, havia alguns avanços, tímidos, mas havia. Com esse novo governo, estamos assistindo, de longe, à perda de algumas conquistas. Claro que estamos lutando e não devemos nos deixar abater. Este ano, é importante que a gente lute para tentar manter o que já conseguimos e, em 2018, com as novas eleições, voltar a eleger outro candidato de esquerda.

Como a senhora lida com pessoas que pensam diferente sobre o feminismo? Num almoço de domingo, por exemplo, como se comporta?

Depende. No blog, nos comentários e no Twitter, muitas vezes eu fico sem paciência, porque sei que é um perfil de um “reaça”, que eu já sei que não vai ter muito diálogo. Na vida pessoal, eu me deparo com pessoas antifeministas, mas ainda assim muito poucas. Sou uma privilegiada. Às vezes, eu tenho alguns alunos que são machistas. Geralmente, eles abrem a cabeça e acabam pedindo desculpa.

O blog recebe muitos relatos de mulheres vítimas do machismo e dúvidas sobre o feminismo. O que isso significa para a senhora?

Eu me sinto muito especial por ler confidências de tantas meninas e mulheres que depositam em mim tanta confiança. Também fico feliz de perceber que as leitoras do blog estão cada vez mais jovens, o que mostra o interesse pelo feminismo desde muito novas. Ao mesmo tempo, é triste ver como o machismo afeta as mulheres de qualquer idade. Um dia desses, recebi um email de uma menina de 13 anos dizendo que havia sido escolhida a aluna mais feia da escola. Imagina o que isso faz com a autoestima dela, como influenciará seu crescimento, sua confiança e seu posicionamento perante a sociedade. Eu disse a ela que não se importasse com isso, porque nós, mulheres, somos muito mais que isso. A vida vai além dessa competição eterna de concurso de miss. Então, você consegue imaginar como eu me senti?

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