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Por favor, sem medo de me ofender, me chame de negra. Eu amo.

Por favor, sem medo de me ofender, me chame de negra. Eu amo.

Ilda Lando por Laine Alcântara (Foto: Divulgação/ Laine Alcântara)

Angolana que mora em MS desabafa na web: ‘me chame de negra, eu amo’

por Gabriela Pavão no G1 

Ilda diz que sente o receio de algumas pessoas em chamá-la de negra.
Ela chegou ao Brasil com três anos, graças a uma bolsa de estudos do pai.

“Por favor, sem medo de me ofender, me chame de negra. Eu amo. E se for com carinho pode me chamar de neguinha. Eu sou negra, nasci negra, vou morrer negra e tenho muito orgulho da minha cor”. O desabafo é da angolana Ilda Isabel Lando, de 23 anos, que mora em Campo Grande há duas décadas, e foi postado por ela nas redes sociais na segunda-feira (25).

Em entrevista ao G1, Ilda contou que a postagem não teve relação direta com alguma situação constrangedora ou de preconceito recente, mas foi feita para estimular outros negros a terem orgulho da raça.

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“Foi mais uma reflexão mesmo. A gente sempre vê que as pessoas acham que chamar de negra é uma ofensa. Tem gente que fala que eu sou uma morena bonita, com medo de chamar de negra, acha que vai ofender, talvez porque negra é uma palavra muito forte. Mas, pra mim é um elogio, eu gosto, tenho orgulho de ser negra”, contou.

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Ilda nasceu em Angola e chegou ao Brasil com 3
anos (Foto: Ilda Isabel Lando/ Arquivo Pessoal)

Filha de uma técnica em enfermagem e de um economista, Ilda nasceu na província de Luanda, em Luanda, na capital da Angola, e veio para o Brasil aos 3 anos, depois que o pai ganhou uma bolsa de estudos para a faculdade de economia.

Na época, Angola vivia uma guerra civil que durou 27 anos. A luta na ex-colônia portuguesa foi o conflito militar mais longo da África e deixou um milhão de mortos e quatro milhões de refugiados, além de destruir a infra-estrutura do país.

Dificuldades
Chegar ao Brasil criança, negra e com sotaque e cultura diferentes tornou o processo de adaptação mais difícil, principalmente no convívio com outros colegas na escola, lembra Ilda.

“Quando entrei no pré ainda tinha aquela coisa do sotaque, além de negra e africana, mas, graças a Deus e com ajuda da minha família superei e deu tudo certo”, afirmou.

Ter orgulho da própria beleza e se enxergar tão bonita quanto as outras colegas foi questão de tempo.

“Antigamente eu me incomodava um pouco, mais na questão da escola, porque tinha aquela coisa de se autoafirmar, de ter o padrão de beleza, durante a infância e a adolescência tinha esse negócio e foi difícil, porque a beleza negra nunca foi vista como padrão”, afirmou.

Sobre o preconceito e o racismo, ela afirma que já foi vítima de situações veladas, mas que aprendeu a lidar. “Já passei sim, por situações de racismo, mas não explícito. Foi aquele preconceito mais escondido, porque hoje em dia as pessoas sabem que é crime, então, a pessoa não vai chegar em você e falar que não gosta de negro”, ponderou.

Segundo dados da Secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), de janeiro a dezembro de 2015 foram registrados 12 casos de racismo, preconceito e discriminação em Mato Grosso do Sul, sendo 4 deles em Campo Grande.

Superada a fase difícil, Ilda passou a ser ícone de beleza negra para si mesma e para os outros também. Em 2011, foi eleita miss beleza negra de Campo Grande. Nos anos seguintes participou de outras concursos de beleza e até hoje faz alguns trabalhos freelances de modelo, mas atualmente divide a maior parte do tempo entre os estudos e o trabalho em um hospital de Campo Grande.

 

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