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Precisamos falar da prevenção de DSTs entre lésbicas e bissexuais

Precisamos falar da prevenção de DSTs entre lésbicas e bissexuais

A prevenção de DSTs é tema de campanhas constantes, mas a principal ação é a distribuição de camisinhas. Não haveria nenhum problema, se não fosse o fato de que nem todo ato sexual envolve penetração. E mais, nem sempre há um homem presente no ato.

Por Vanessa Sagrado, do Catraca Livre 

O sexo entre mulheres e a prevenção de DSTs entre lésbicas e bissexuais ainda recebe pouca importância do governo e da indústria farmacêutica.

O Catraca Livre entrevistou Thais Machado Dias – médica de família e comunidade pela Unicamp, que atua também no Coletivo Feminista Sexualidade Saúde, Consultório na Rua e Caps AD – para levantar temas como as principais doenças que podem ser transmitidas nesse tipo de relação, formas de prevenção, cuidados importantes com a região genital e outras partes do corpo.

Também questionamos a especialista sobre o motivo da falta de atenção da sociedade, administração pública e indústria para a prevenção de DSTs no sexo entre mulheres. E se clínicos e ginecologistas estão preparados para orientar mulheres sobre o assunto.

“Sempre que estou numa discussão sobre esses assuntos me vem uma frase famosa do Boaventura de Souza Santos ‘lutar pela igualdade sempre que as diferenças nos discriminem, e lutar pelas diferenças sempre que a igualdade nos descaracterize’. Acho que a questão é a luta pela visibilidade e debate que aproxima o sexo lésbico do sexo heteronormativo e também pelas especificidades que os distanciam. Ir construindo essas aproximações e ao mesmo tempo as delimitações de espaços, diferenciações”, diz Thais.

Veja a entrevista completa:

Catraca Livre: Quais as DSTs que podem ser transmitidas no sexo entre mulheres? 

Thais Machado Dias: Sexo entre mulheres é sexo, portanto sua prática é passível de transmissão de doenças sexualmente transmissíveis. Parece pouco a afirmação, mas ela importa no contexto em que por muito tempo isso não foi visto assim, sexo lésbico foi visto como um sexo menor, ou apenas como “brincadeira” por não terem a presença do falo, chegando ao ponto de muitas mulheres em consulta médica quando dizem que nunca tiveram relações com homens serem tratadas como “virgens” pelos profissionais de saúde. Logo, alça-lo a prática como um ato sexual completo, com suas possibilidades de prazer pleno e também, infelizmente, de transmissão de doenças é aproximá-lo da concepção de sexo heteronormativo vigente na nossa sociedade de dar visibilidade a ele.

A transmissão de doenças como sífilis, herpes genital, HPV, ou mesmo tricomoníase, gonorreia clamídia é perfeitamente possível. Sabemos, no entanto, que no sexo entre duas vaginas a transmissão de HIV é consideravelmente menor, quase inexistente, mas não há estudos ainda em grande escala que comprovem taxas de infecção.

É importante lembrar que mesmo entre mulheres lésbicas, (e não bissexuais), há uma parcela considerável que já teve relação com penetração masculina em algum momento da vida, por diversos motivos. O que as expõe muitas vezes ao mesmo risco de mulheres heterossexuais. Portanto, para além da orientação sexual, é preciso no caso dos profissionais de saúde questionar a prática sexual, que são coisas diferentes.

Catraca Livre: Existem atualmente formas de prevenção? Quais?

Thais: As formas de prevenção, no entanto, são um debate extenso. Se o número de estudos sobre saúde da população lésbica ainda é muito pequeno, saúde sexual também para a definição dos problemas e da magnitude deles o numero de pesquisas e empenho da indústria para a resolução dessas questões está muito aquém do que seria necessário. Existe a possibilidade de uso de preservativo masculino no caso de práticas sexuais lésbicas que usem dildos/ vibradores, para que caso o dispositivo seja usado nas duas parceiras, na troca de parceira seja realizada a troca do preservativo masculino, para a diminuição da troca de secreções entra as parceiras. Para as outras práticas já foi usado dedeiras (dispositivo muitas vezes usado em fonoaudiologia, como um preservativo de dedo, de látex) ou mesmo luvas para as praticas manuais. Há também a possibilidade de uso de plástico filme, ou preservativos masculinos ou femininos cortados em forma de barreira, ou mesmo dental dam (uma barreira usada em tratamentos odontológicos) na vagina para práticas orais ou que envolvam o contato entre as duas vaginas. O preservativo cortado tem as vantagens de serem distribuídos gratuitamente na rede de saúde e serem mais resistentes que o plástico filme, e poderem ter as opções de sabor e textura diferentes.

Como fazer a barreira preventiva com a camisinha masculina

Nestes casos, acho que vale ressaltar que são em sua maioria adaptações de dispositivos diversos, e que ainda não há no mercado um produto que seja específico para essa prática, o que é um reflexo de muitos anos de invisibilidade, o que diferencia bastante do sexo heteronormativo que tem opções próprias disponíveis. Outra ponderação importante é, visto que não são produtos específicos, são adaptados, muitas vezes seu uso é considerado demasiadamente desconfortável, o que reduz muito a adesão às práticas de prevenção. Também vale a pena dizer o debate da prevenção de DSTs no sexo oral é bastante complexo e extenso, com dificuldade de práticas preventivas muito grandes mesmo entre parceiros de sexo oposto. Essa dificuldade é um ponto de aproximação importante. Assim como o debate de sexo sem proteção dentro de relacionamentos estáveis. Uma das orientações mais eficazes é a prática de troca que sorologias (exames de HIV sífilis e hepatites) entre casais sejam homo ou hétero afetivos, que desejam sexo sem proteção. E, claro, refazer esses exames de sorologia de tempos em tempos.

Isso toca num ponto importante. De fato, uma das grandes formas de prevenção de DSTs e de promoção de saúde da população lésbica é frequentar adequadamente o serviço de saúde. O HPV, que é sexualmente transmissível, é o principal fator etiológico do câncer de colo uterino. Para a prevenção deste câncer é fundamental o rastreamento com exame de Papa Nicolau (que deve ser feito em mulheres sexualmente ativas, a partir de 25 anos de forma anual, e depois de dois resultados normais, trienalmente). E já foi visto numa pesquisa do ministério da saúde em 2002 que mulheres heterossexuais a cobertura de Papa Nicolau chegava a 89,7% e entre mulheres lésbicas ou bissexuais 66,7%. Isso por que as mulheres tem receio de ir ao profissional por diferentes motivos como medo de julgamento, preconceito que – infelizmente – não são infrequentes e, às vezes, quando procuram assistência não são examinadas adequadamente seja na delicadeza necessária ou na correta solicitação dos exames sorológicos e coleta de citologia.

Catraca Livre: Além dos cuidados com a região genital, quais outras partes do corpo devem receber atenção especial antes do sexo?

Thais: Em relação ao cuidado com outras partes do corpo é importante pensar que há um aumento de infectividade de DST quanto maior a exposição à secreção, mucosa, e em especial sangue. Logo, quanto menos exposição a sangue melhor para ambas as partes. A higiene das mãos, boca assim como dos genitais é importante não só para DSTs, mas para a saúde em geral, para a manutenção adequada da flora vaginal e pH vaginal. E o cuidado com machucados em bocas e mãos ou unhas que possam machucar a parceira também, que aumentam portas de entrada para infecções bacterianas e hepatites.

Catraca Livre: A que podemos atribuir a falta de atenção da sociedade e, principalmente, da indústria para a prevenção de DSTs no sexo entre mulheres?

Thais: Em relação à sociedade e indústria creio que é um tema que daria sozinho uma entrevista inteira. A medicina e a indústria não existem fora da sociedade, são produtores e produto dela, e numa sociedade estruturalmente machista não deixam de ser também. Machismo na medicina é estrutural, se olharmos hoje em livros de ciência básicas quantas páginas estão dedicadas à anatomia do pênis, a fisiologia do orgasmo masculino, as fisiopatologias de disfunções sexuais masculinas. E quantas páginas estão dedicadas ao clitóris, à fisiologia do orgasmo feminino, ou as questões sexuais femininas (ainda mais quando esse sexo não se relaciona com o homem)?

Catraca Livre: Acreditam que a maioria dos clínicos e ginecologistas estão preparados para orientar mulheres sobre o assunto?

Thais: Demoramos muito na saúde da mulher para superar o paradigma reprodutivo e materno-infantil que era o cerne do discurso, da pesquisa, e da intervenção em saúde da mulher. Para tratá-la como um ser sexual, e mais tempo ainda como um ser cujo sexo não depende do homem. A indústria é um reflexo disso, e da sociedade em que se insere. Nesse sentido as mudanças sociais só tendem a acontecer sob pressão social dos movimentos e isso vai com o tempo mudando a qualidade da atenção prestada pelos profissionais, assim como ocorreu na reforma psiquiátrica, como tem acontecido na luta pela humanização do parto… os profissionais não foram preparados para essa assistência adequada à população lésbica, e só vão ser à medida que o movimento lésbico, em parceria com os movimentos feministas, e LGBT forem construindo a pressão social e essa demanda, seja coletivamente nos coletivos, na mídia, seja individualmente nas consultas.

Mas há avanços, em 2006 foi publicado o dossiê “Saúde de mulheres lésbicas: promoção de equidade e integralidade” em 2013 foi publicado o manual do ministério da saúde Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. E em 2015 aberto um curso gratuito na UNA SUS para profissionais se formarem nas temáticas. Agora, é preciso garantir manutenção dos avanços. Vivemos num tempo de retrocesso de muitas políticas públicas, e a saúde não está fora disso, pelo contrário. É preciso luta política para garantir os financiamentos de pesquisas na área, de educação permanente de profissionais e espaços de assistência, o que vai ser um caminho árduo nos próximos anos.

 

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