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Precisamos falar dos Lanceiros

Precisamos falar dos Lanceiros

Hoje eu quero falar da Dona Jussara. Essa senhora simpática que aparece carregando uma térmica na foto da Joana. Puta sorrisão gostoso. A foto é do dia 24 de maio de 2016. Ela tava feliz pra burro. Tinha passado a noite inteira do lado de fora da Lanceiros temendo que os filhos e netos dela, que estavam lá dentro, pudessem ser despejados a qualquer momento. Naquele dia, não foram. E a Jussara ficou feliz da vida. Poderia voltar para aquele prédio na esquina da General Câmara e da Andrade Neves. A casa dela.

Por Luís Eduardo Gomes do Sul21

Foto: Joana Berwanger / Sul21

Entre novembro de 2015 e esse dia, eu tinha falado com a Jussara umas três, quatro vezes. Ela sempre tinha um sorrisão gostoso no rosto. Daqueles que nos aquece o coração. Porque é sincero. Tirando nos momentos que ela falava sério, porque daí ela falava sério mesmo, especialmente para mandar o recado que as famílias iriam resistir às reintegrações de posse. Porque, afinal, elas não tinham mais para onde ir.

O Samuel, filho da Gabriela, nasceu dias antes da operação de reintegração de posse que foi suspensa. Nem um mêzinho depois, ele tava bem quentinho num puta berço que doaram para o berçário e a creche que inauguraram na ocupação. Tinha que ver, um lugar super bonitinho, bem arrumadinho, tinha espaço para desenhar, rabiscar, guardar gibi. No dia da inauguração, o Joca, filho do meu colega Guilherme, lavou a alma brincando com os filhos da Lanceiros na cama elástica que conseguiram para a festa. Aquele dia foi massa. Mas imagina onde o Samuel estaria se a reintegração tivesse rolado? Certamente não tão quentinho.

Também queria falar da Cristiane. Eu conversei com ela uma vez só. Tinha duas filhas pequenas. Coisas mais lindas. Também tinham sorrisos fáceis. Ela me contou que uma vez morou no Centro, depois o marido ficou desempregado, não tinham mais condições de pagar o aluguel, aí foram morar com a mãe dela, na Vila Chocolatão. Aí ela também ficou desempregada. E conheceram o MLB. Aí disseram para eles desse tal prédio abandonado no Centro de Porto Alegre. Precisando de um lugar para a família, ela foi. E que beleza, tinha creche perto, posto de saúde perto, podia estar perto do trabalho, não era lá que nem na periferia, que não tinha nada.

Foto: Joana Berwanger / Sul21

Também podia falar da Marindia, do Queops, do Merong, da Nana, do Matheus, da Lucimara e de tantos outros. Nesse um ano e meio, eu, o Marco, a Débora, a Fernanda, falamos com vários e vários moradores. Tentamos pedir licença para contar um pouquinho da história deles. Muitos já não moravam mais lá. Outros chegaram. A Lanceiros também era assim, um espaço de passagem, um abrigo para quem não tinha muita alternativa, ou nenhuma. Não sei o que se passou com a Jussara. Não sei se o Samuel dormiu quentinho na noite de quarta-feira, ou se sentiu o cheiro do gás de pimenta, das bombas. Bom, se não ele, muitas crianças sentiram, algumas delas mais novas que ele, que já era tão pequeno.

Foram nossos vizinhos. O Sul21 é um pouco em cima. Passava ali na frente todos os dias. Sempre tinha gente entrando e saindo. Indo trabalhar. Participando de alguma oficina que rolava lá dentro. Um pessoal muito de boa. Nunca se ouviu nada de errado vindo da ocupação.

Eu queria agora falar do José Ivo. Ele, o governador. José Ivo sempre diz que é preciso cortar os gastos para poder ajudar os mais pobres. Olha lá, vai nos discursos. No dia 14 mesmo, pouquinhas horas antes, ele fez um discurso sobre educação. Vejam só, educação. E lá falou dessa necessidade de ajudar os mais pobres.

José Ivo, ao que consta, nunca pisou na Lanceiros Negros. Claro que não. Ele pode morar num lugar chamado Palácio, porque vai botar os pés numa ocupação? Mas se tivesse posto, teria então descoberto que ali estavam os mais pobres sobre os quais ele tanto gosta de falar. A dona Jussara. A Cristiane. As filhas dela. O Samuel.

O José Ivo não curtia que eles estavam ali no Centro. Invasores dizia a nota do governo do Estado. E então mobilizou sua cavalaria e mandou tirar todo mundo de lá. Para preservar o prédio, dizia a nota, enquanto a Brigada arrancava a porta com uma caminhonete e destruía tudo por onde passava, incluindo as pessoas, suas esperanças, suas pequenas posses, suas noites quentes.

Foto: Guilherme Santos / Sul21

Ah, José Ivo, então eu finalmente entendi sobre o que tu te referias quando falavas que precisava poupar para investir nos mais pobres. Eu não via nada, porque não tinha plano para educação, não tinha nada para a saúde, nada para a assistência social, muito pouquinho para a segurança. Mas o burro era eu.

Era óbvio. Tinha que guardar o dinheiro para comprar bombas, gás, pagar gasolina de dezenas de viaturas e horas extras para centenas de brigadianos, muitos dos quais riam ao tirar pessoas como a dona Jussara do lugar que chamavam de casa para colocá-las na noite fria. Pessoas que têm um nome, uma história de vida, que precisa ser contada.

Precisa.

Contaremos.

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