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A escrita machadiana e a literatura negra

A escrita machadiana e a literatura negra

Resumo

Este artigo tem como objetivo a reflexão sobre a relação entre literatura e sociedade, tendo-se em vista que é impossível pensar na literatura como um fenômeno isolado. Visa-se também analisar os elementos que permitem considerar o conto “Pai contra mãe”, de Machado de Assis, literatura negra. Para estreitar a relação entre a situação da população afrobrasileira na sociedade e a escrita machadiana, pretendemos informar ao leitor que o conto que será analisado foi publicado no ano de 1906, poucos anos após o fim do período da escravidão no Brasil, abolida formalmente no ano de 1888.

Do Periodicos

Refletindo sobre a relação entre literatura e sociedade, Antonio Candido afirma que o “externo (no caso o social) importa não como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha certo papel na constituição da estrutura, torna-se, portanto, interno.” (CANDIDO, 1976, p. 4). Na mesma linha de raciocínio, Todorov (2009) aponta que é impossível pensar a literatura “como fenômeno isolado”. Afirma, ainda, que ela “não pode ser separada da política, da religião, da moral. Como tudo na natureza, ela é, ao mesmo tempo, causa e efeito.” (TODOROV, 2009, p. 60).

Coadunando com as ideias deve Candido e Todorov, analisaremos o conto “Pai contra mãe”, de Machado de Assis, visando apontar de que maneira ele traz, para a produção literária, elementos que nos permitem considerá-la, do âmbito que alcunhamos, “literatura negra”. Defendemos, junto com Duarte (2007), que na escrita machadiana é possível encontrar o embate literário em relação ao regime escravocrata de negros no Brasil. Percebemos que o conto analisado é fortemente influenciado pelo meio social em que viveu o escritor, e essa influência leva-nos a aproximá-lo do conceito de literatura negra e das suas proposições.

Além dessas observações, detectamos, na obra de Machado, uma escrita marcada pela crítica e pelas proposições de deslocamento do senso comum em uma sociedade elitista. Pensamos que, já no contexto histórico em que o escritor construiu seu perfil literário ocidental, ele contribui para que possamos refletir sobre a ordem política-social vigente daquele período.

Para fins de estreitar a relação entre a situação da população afrobrasileira na sociedade e a escrita machadiana, cumpre-nos informar ao leitor que o conto que será analisado foi publicado no ano de 1906, poucos anos após o fim do período da escravidão negra no Brasil, abolida, formalmente, no ano de 1888.

Duarte (2007) dedicou-se a uma vasta pesquisa e releitura da obra machadiana, com vistas a compilar e dar visibilidade às manifestações de afrodescendência, evidentes nas obras em que o intelectual faz alusão à escravidão e às relações inter-raciais no Brasil no século XIX. O conto “Pai contra mãe” faz parte desse compêndio organizado por ele.

Na linha de pensamento de Candido (1976), Duarte (2007) apresentanos Machado de Assis de duas formas. Inicialmente, o autor informanos que ele dirigiu um órgão do governo federal que se ocupava de garantir a aplicação da Lei do Ventre Livre1 . Ele cumpriu com empenho o seu papel de cidadão responsável, seguindo o preceito que libertava os filhos de escravos. No que concerne ao papel de representante das letras, o escritor aponta Machado como um intelectual que apresenta a condição dos afro-brasileiros de modo a desvelar as agruras do regime patriarcal e escravista.

Segundo Duarte, o perfil de Machado, primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, configura-se no universo de um mundo bastante privilegiado pela sua condição de poliglota, conhecedor de Dante, Victor Hugo e tantos outros intelectuais universais. Por isso mesmo, os textos de Machado cotejam com as obras de escritores clássicos como Shakespeare, Sterne, Flaubert, Tolstoi, Gogol. Duarte ainda pontua que o perfil literário de Machado fez-se tão ocidental que acabaria deixando suas marcas na imagem pública construída ao longo do tempo e até mesmo na aparência física, transformada em efígie emblemática do processo de branqueamento identitário”. (DUARTE, 2007, p. 7).

É exatamente esse perfil machadiano que leva vários críticos a considerarem o escritor alienado em relação aos problemas da sociedade de sua época, sobretudo à condição escrava de afro-brasileiros, que perdurou durante quase toda a sua existência. Entretanto, alguns escritos machadianos remetem-nos ao seu contentamento em relação ao fim do movimento escravocrata no Brasil, como, por exemplo, uma crônica publicada em 1893

 

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