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Seu ‘amor livre’ não chega na favela

Seu ‘amor livre’ não chega na favela

Durante minha vida nunca havia imaginado que existiria uma outra forma de relacionamento. O contexto que estou inserido, é um contexto extremamente machista e LGBTfobico.

Enviado por  Ítalo Barbosa de Oliveira para o Portal Geledés 

Vivenciava, dentro de casa, um relacionamento extremamente abusivo. O machismo sempre esteve presente por onde andei, seja em casa ou na rua, onde passava maior parte do meu tempo.

Durante minha infância/adolescência, sempre estive muito próximo dá vida real nas ruas. Cresci muito próximo de traficantes, usuários, aviãozinho, assaltantes, enfim, mais uma vez, o machismo esteve próximo de mim. O crime é machista.

Meus pais, com muito esforço, me puseram pra estudar fora do bairro, para me afastar das amizades que fiz aqui. Chegando na escola, um outro mundo.
Eu era o que pode-se dizer, o mais vivido. Era o negro, gordo, numa escola particular.

Entre os homens, era o centro. Sempre tive muita vivência pra contar. Lembro de quando falava de cocaína, maconha… Eles mal bebiam cachaça, ainda.
Entre as meninas, chamava atenção daquelas que se encantam pelos ‘almas sebosas’.

Mas no rolê, era o mundo real. Era o negro, quase sempre sem dinheiro no bolso. Os caras fortaleciam esse corre. Não me deixavam na mão.
Mas nas relações afetivas? Aí é diferente. As preferências são sempre os outros. Era foda…

Sempre tive uma carência muito grande afetivamente. Em casa, não tinha nenhuma figura que pudesse me encostar.
Chorar? Era vergonhoso, não tinha nenhum ombro pra escorar também. Sempre quis alguém… Nunca havia parado pra pensar sobre isso.

Mas depois descobri um tal de ‘amor livre’. Essas coisas que a classe média adora discutir na universidade.
Tive oportunidade de conhecer alguns adeptos, quase todos atendem aos mesmos padrões. Geralmente são os ‘bonitos’ esteticamente – que atendem aos padrões-, que nunca sentiram o gosto do desprezo, da humilhação afetiva, os secundários do rolê. Se aproximam mais da galera que geralmente é paquerado, que é procurado pra passar o número do celular, enfim…

Aqui, no mundo real, na periferia, o negro já é secundarizado. Imagina a mulher preta.
Esse suposto mundo desconstruido, na verdade, é só um outro padrão formulado. A lógica monogâmica é abusiva e cruel.
Mas sua desconstrução, não pode atropelar a subjetividade de nenhum favelado.
O papo fora do seu mundinho, é diferente.

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