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Tecendo a luta e a lira: Vida e morte na poesia de Dinha
Photo Credit To Foto: Eduardo Mota

Tecendo a luta e a lira: Vida e morte na poesia de Dinha

(Dinha e Julia (uma das minhas meninas)

Amor
Teça
sua teia
e amorteça
a morte.

(Dinha)

por Mariana Santos de Assis enviado para o Portal Geledés

Na atual conjuntura, cada dia mais me convenço de que o amor é a única alternativa para povo preto escapar da morte ou, parafraseando as belas palavras de Dinha: o amor tece a única teia capaz de amortecer a morte. Com apenas oito palavras, incluindo o título, Dinha consegue sintetizar a importância do sentimento mais político e mais representativo do que entendemos por humanização, sobretudo para o povo negro.

O poema que inaugura o livro “Zero a zero: quinze poemas contra o genocídio da população negra” nos coloca bem no centro do círculo vicioso de amor/ódio, vida/morte que marca a história do povo preto no Brasil. Por meio de um belíssimo jogo com as palavras “amor”, “tecer” e “morte”, colocando-as para transitar livres pelo texto, fundindo-as ou separando-as, de modo a expandir o pequeno espaço ocupado no papel para um infinito de sentidos em nossos corações e mentes, nos faz girar e sentir a intensidade de tudo que virá.

Os poemas são repletos de imagens que desnudam a crueldade do genocídio da população negra. Porém não esperem feridas abertas e sangue negro escorrendo para deleite dos abutres que buscam o exotismo da morte preta e pobre. Ao contrário, o que vemos é a imensa capacidade de um povo, cuja humanidade é constantemente atacada e questionada, para se reconstruir e ressignificar a própria dor, bem como uma síntese do que é ou deveria ser a militância preta.

Nossa luta não se dá somente nas trincheira, no embate direto, corpo a corpo, mas principalmente, a partir de um longo, doloroso e poético processo de resistência, sobrevivência, criação e recriação de nossa humanidade, sobretudo por meio da (re)invenção do amor e da família preta. É no seio dessa família que a luta se mantém e se fortalece a cada novo Ricardo, Rivaldo, Jefferson… afinal “nas barrigas das meninas/ inda o sol ainda/ brilha – rancoroso carnaval” (p. 08).

Dinha nos mostra que as mulheres pretas conseguiram atribuir novos sentidos à maternida, ao lugar social e político das mulheres na sociedade e até mesmo à luta das mullheres contra o machismo que, no nosso caso, adquire cores mais cruéis e devastadoras. Nesse contexto, a maternidade, mais que um ato de amor, passa a ser a ação mais revolucionária e ameaçadora para o projeto racista de genocídio físico, emocional e epistemológico do negro. As mulheres negras, nossa primeira morada – como diria meu babalorixá – representam o ventre que gera e unifica a família preta, criando e recriando a sua própria história, ao mesmo tempo que mantêm viva a dos seus irmãos e irmãs devorados até os ossos pelo Estado racista, combatendo o ódio com o amor, enquanto

De olho, o cachorro gordo percebe
nas barrigas da família
pequenas revoluções
repondo a morte com vida.
Repondo Ricardo a Ricardo
Rivaldo a Rivaldo
dobrando os soldados
perpetuando a ira
e a lira (p. 30-31)

Enfim, é na barriga das mulheres pretas que a luta e o amor se renovam a cada novo soldado. Mas esse amor também tece a morte, pois gera mais alvos, mais mortes, mais dor. A poetisa segue delineando esse belo e terrível quadro lírico-político, com pinceladas fortes e ousadas, usando analogias e imagens compostas por uma linguagem marcada pela variedade periférica, com referências à chamada cultura de massa e abusando, com extrema maestria, do que há de melhor na poesia moderna.

A autora vai buscar a beleza sob os escombros de um povo devastado. A esperança, por exemplo, vem da morte, pois os meninos mortos não apenas renascem a cada novo filho gerado por um ventre negro, a cada família preta que se expande, Dinha declara que nossos pequenos não serão repasto para as aves de rapina do capital, ao contrário

[…]os meninos todos mortos
não estão mortos
semeados
[…]
Declaro.
De hoje em diante vai ser assim:
nos meus versos não mais mortos
somente hortas
e jardins.”
(p. 16)

Porém, dessa semeadura surgirá mais que flores, mais que a beleza calma e pacífica esperada pelo opressor. Em uma belíssima e ousada brincadeira com o nome do herói negro Zumbi e a figura mítica, adorada na ficção hollywoodiana, do morto-vivo devorador de cérebros, Dinha nos mostra, finalmente, o confronto direto e definitivo, a revolução negra, liderada por nossos meninos, aqueles mesmos que foram mortos e

“[…] devidamente detidos, devidamente linchados, devidamente jogados na vala comum da nossa paralisia; […]
desse chão se erguerá uma orda de zumbis.
E vai ser um corre corre doido.
Eles vão comer teu cérebro.
Não haverá nenhum remédio, filósofo ou prefeito capaz de deter seu rolê.
E aí, nesse mundo virado, onde a flor que se cheira não abre com medo de também ser (morta bem morta), a hora terá chegado.
E o reino de Palmares será enfim restaurado.” (p. 29)

Nesse embate, novamente as mulheres negras surgem como o pilar da nossa revolução. Ao assumir a responsabilidade de manter viva a família preta, financeira e emocionalmente, desde o pós-abolição, essas mulheres contituíram-se como fortalezas que protegem os seus e atacam os inimigos. Provando, a cada demonstração de força e resistência, que os ataques do racismo não foram capazes de minar nossa capacidade de lutar, tampouco de amar.

Leia também: 

Zero a zero: 15 poemas contra o genocídio da população negra


Mariana Santos de Assis

Licenciada em Letras e Mestra em Linguística Aplicada

pela Universidade Estadual de Campinas

http://folhetinsmodernos.blogspot.com.br/

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