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Tinga, racismo e a colonialidade do poder – Por: Douglas Belchior

Tinga, racismo e a colonialidade do poder – Por: Douglas Belchior

“Trocaria um título pela igualdade entre raças”.

Tinga, jogador negro, volante do Cruzeiro, foi alvo de manifestações racistas da torcida do Real Garcilaso, nesta quarta feira (12), em jogo válido pela Copa Libertadores, em Huancayo, no Peru.

Pouco depois de sua entrada em campo, substituindo o meia Ricardo Goulart, os torcedores do time peruano começaram a importunar o jogador cruzeirense a cada toque seu na bola, imitando sons de macaco num claro ato racista contra o brasileiro.

“Fico muito chateado. Joguei quatro anos na Alemanha e nunca passei por isso. Agora acontece em um país parecido com o nosso, cheio de mistura. Trocaria um título pela igualdade entre raças e classes e respeito”, disse o jogador em entrevista à emissoras de rádio.

As cenas rodaram o mundo e ganhou mais destaque que os próprios resultados dos jogos. A Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL) se pronunciou imediatamente após o ocorrido por meio da conta oficial da Copa Libertadores no Twitter:

“Queremos tranquilizar os torcedores do Cruzeiro. A Confederação julgará o caso e todas as medidas possíveis. Sem dúvidas, sabemos que é repudiável”.

Los Incas e a Colonialidade do Poder

A Asociación Civil Real Atlético Garcilaso é um dos clubes mais jovens do Perú, fundado em 2009 e tem sede em Cuzco, uma cidade do Vale de Huatanay, conhecido como o Vale Sagrado dos Incas, na região dos Andes. Era o mais importante centro administrativo e cultural do Tahuantinsuyu, o Impérico Inca.

E que ironia, logo no Peru, terra mãe de Anibal Quijano, sociólogo e pensador humanista, conhecido por ter desenvolvido o conceito de “Colonialidade do poder”.

A colonialidade do poder é o padrão de poder que se constitui juntamente com o capitalismo moderno/colonial eurocentrado, que teve início com a conquista da América em 1492. O world-system moderno/colonial, que se constituiu a partir daquela data, deu origem a um novo padrão de poder mundial fundamentado na ideia de raça, que passou a classificar a população mundial, produzindo identidades raciais historicamente novas que passariam, por sua vez, a ficar associadas a hierarquias, lugares e papéis sociais correspondentes aos padrões de dominação (QUIJANO, 2005).

Todos seríamos, no processo “civilizatório” dirigido pelos colonizadores, contaminados com os ideais de primazia e superioridade europeia versus a subalternidade e inferioridade indígena, africana e por consequência, de sua descendência. Essa mentalidade, no contexto da demanda cotidiana pela sobrevivência incutiu em nossos povos valores depreciativos de nós mesmos indígenas, negros, latino-americanos.

A postura infeliz e equivocada da torcida demonstra o quando o colonialismo nos deixou marcas na consciência e na mentalidade. Os descendentes dos colonizadores – os mesmos que destruíram a avançadíssima civilização Inca, permanecem no comando político e/ou econômico das Américas. O racismo sempre foi e continua sendo elemento central na estrutura de dominação das elites racistas em nosso continente. O Brasil, país da democracia racial, que o diga!

Importante registrar o quão curioso é a reação hipócrita dos meios de comunicação que condenam o racismo dos outros (Peru), ao mesmo tempo em que promove uma cotidiana desigualdade e violência racial no Brasil. Foram inadmissíveis e absolutamente desrespeitosos os insultos dirigidos a Tinga. Mas é preciso dizer que são muito piores as formas como o racismo se manifesta cotidianamente no Brasil: nos números de corpos presos, espancados, desaparecidos ou assassinados e em todas as dimensões da desigualdade social. E onde está a imprensa para construir uma cobertura descente?

Povos irmãos, de matrizes raciais fundantes da humanidade e com história de violência e opressão também comuns, deveriam se reconhecer e irmanar não apenas em momentos festivos, mas principalmente na busca um mundo mais justo. Essa ainda é uma grande tarefa!

Fonte: negrobelchior

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