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Um desabafo sobre a série ‘Chewing Gum’ ou porque Tracey é uma personagem fantástica

Um desabafo sobre a série ‘Chewing Gum’ ou porque Tracey é uma personagem fantástica

O dramaturgo francês Georges Feydeau certa ocasião recomendou que para ser engraçado, é necessário refletirmos sobre a tristeza.

Por Renata Martins Do Huff Postbrasil

ATENÇÃO: ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS

O dramaturgo francês Georges Feydeau certa ocasião recomendou que para ser engraçado, é necessário refletirmos sobre a tristeza. Se ser mulher negra é um in-evitável chamado à reflexão sobre os des-encantos da vida, Chewing Gum é um inusitado convite para rirmos de nós mesmas. Para quem não conhece, Chewing Gum é uma série com selo Original Netflix, protagonizada pela brilhante Michaela Coel que dá asas ás desventuras da hilária Tracey. Sim, ela é negra, inglesa e de periferia e isto não é fortuito. Tracey desafia sua repressora educação protestante por vias insólitas e a cena de estréia anuncia de pronto o embate entre religião e sexualidade. Ajoelhou, tem que rezar. E ela reza para perder a virgindade, a princípio com seu noivo, frio e indiferente como um mármore que respira. Cenas mais tarde descobrimos que ele é um coquetel de mau gosto que mistura sexismo, homossexualidade e certa dose de colonialismo para tentar amargar a vida da Tracey. Mas ela é muito mais nobre do que sua performance avacalhada possa sugerir. Ela o apoia em sua orientação sexual e o perdoa por ser um negro light skin misógeno e encharcado de preconceitos de classe. E sua busca por amor e sexo continua. Assim, ela vai bater na porta de um relacionamento inter-racial e dá de cara com um white loser que do alto de sua branquitude lança mão de fantasmas racistas para acertar seu coração, buscando capturá-la com sua suposta superioridade racial. Mas ainda assim a Tracey sai por cima, mostrando o quão pífios são os truques que ele traz na cartola.

Nossa protagonista tem traços de heroína que enfrenta machismos, racismos, intolerância religiosa, xenofobia e tantos outros espinhos com as armas que possui: a coragem de um humor no-sense e inocente que a faz forte e vulnerável a um só tempo. Ela parece des-conhecer a dimensão dos monstros que cutuca com vara curta e é assim que ela nos faz rir: esgarçando estereótipos no sentido de esvaziá-los. Não sei porque gente branca ri da série, mas suspeito que entre nós, gente preta, o caráter cômico de Chewing Gum depende da nossa in-disposição em concordar com a estratégia da protagonista. E ela convoca a nossa cumplicidade, oferecendo carona numa viagem pelas mazelas sociais para garimparmos instantâneos que nos divirta. Mas seu roteiro é des-confortável. Tracey nos constrange a encarar seu rosto preto, seus lábios grossos, seu nariz grande, seu corpo musculoso, seus peitos caídos com uma performance que nos questiona se comédia física seria privilégio de gigantes do porte de Charles Chaplin. E divagando um pouco sobre filiações étnicas, se existe alguma dúvida a respeito da origem judaica de Chaplin, Tracey por sua vez é flagrantemente afro-européia. Entusiasta que sou da série, acredito numa Tracey ousada a ponto de in-conscientemente perseguir uma pista proposta há muito por um inconteste judeu chamado Sigmund Freud; quando considerou a importância dos chistes e do humor como mecanismos fundamentais para encarar diversas formas de mal estar psíquico e social. Tracey supera a superficialidade da piada fácil e oferece a possibilidade transgressora do riso que advém do extra-ordinário, revelando que nossa vida in-consciente prescinde a obviedade. Se discutir sexualidade já é pisar numa seara inóspita, imagine o quão corajosa é esta comédia sobre hipersexualização da mulher afro-européia. A partir do suposto fardo da virgindade, Chewing Gum debocha do estereótipo da crente da bunda quente e não se esquiva dos fantasmas da repressão religiosa quase vitoriana e nem da de-formação sexual em tempos de tutoriais de internet. Tracey não é careta, lê o cardápio com atenção, prova conselhos sexuais in-digestos, analisa pornografia e considera suas in-plausibilidades; experimenta menàge a trois, casa de swing, facesitting, sadomasoquismo e outras sugestões sem torcer o nariz. E quando algo não lhe cai bem, ela vomita e risca da lista de recomendações.

Percebo ainda em Tracey um quê de Buck Henry, um diretor e roteirista estadunidense bem considerado na proposta de satirizar a partir de inversões. Assim, na série Chewing Gum o debate sobre violência de gênero é por vezes sarcasticamente apresentado como se as mulheres fossem agentes da violência enquanto os homens passariam por vítimas. A título de aperitivo, é o que acontece quando o antigo noivo da Tracey a acusa de assediá-lo sexualmente; ou quando sua melhor amiga, a Candice, humilha o namorado por não ser violento na cama, levando-o ás lágrimas. Forjando o deslocamento das posições de violência, a série a um só tempo tensiona o imaginário sobre as assimetrias nas relações de poder entre homens e mulheres, bem como aponta para a re-ação feminina como um túnel no fim da luz e evidencia de modo magistral a esterilidade de algumas fantasias sexuais.

Considerando a história dos conflitos raciais brasileiros, a série ainda nos desloca das nossas ardilosas zonas de conforto raciais e racistas. Ou seja, decolamos nos conflitos raciais ingleses e quando estamos no auge da viagem, nos damos conta de que não existe o pára-quedas da democracia racial para amortecer o tombo. Assim, o subúrbio de Tower Hamlets que abriga os dilemas de Tracey e de sua vizinhança multifacetada é um palco nada monolítico do debate racial; para o qual não cabem análises engessadas em esquemas apressados, como sugere o filósofo Kwame Anthony Appiah (que assim como Michaela Coel, também descende do encontro entre as culturas ganense e britânica). Com a despretensão ir-responsável de quem masca chicletes, Chewing Gum é um bom motivo pra ruminar as ideias com sabores de novidade e comicidade ousada. E como qualquer produto de entretenimento e consumo em massa, tem também seus limites de validade. E por fim, se eu teria alguma crítica à série, diria que talvez ela aposta muito alto no entendimento da audiência sobre as provocações que traz a respeito de raça, gênero, classe e diáspora. Mas tenho minhas dúvidas se estamos preparados para a potência das suas caricaturas, bem como de suas muitas sutilezas.

Texto escrito por Viviane A. Pistache. Preta das Minas Gerais, com mania de ter fé na vida. Graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutoranda em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP).

Pretas Dramas é o encontro entre a roteirista Carolina Gomes, a cineasta Renata Martins e a psicóloga Viviane Angélica, três mulheres negras que se reuniram para pensar, refletir e produzir crítica e dramaturgia

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