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Uma mulher, tantos preterimentos

Uma mulher, tantos preterimentos

Fonte: Enviado para o Portal Geledés

Quem viu o último vídeo que postei no Preta Expressa, sabe que eu tenho me esforçado para lidar com a questão do preterimento afetivo sobre outro prisma, um que dê conta de superar as consequências subjetivas desse fenômeno ao mesmo tempo que abarque uma análise coletiva que proponha uma superação desse cenário para as mulheres negras. Contudo, uma situação recente fez com que eu mais uma vez sentisse a necessidade de abordar essa temática pelo mesmo viés. Esse texto não tem nada de inédito, é um mais do mesmo do que tantas teóricas tem escrito. Dessa vez, vou tentar escrever para além da seara afetiva, através de uma abordagem que dê conta de outros preterimentos que também nos atingem no coração embora não tenham conexão direta com relacionamentos.

Eu tenho um seguidor no meu perfil do Facebook que sempre refuta minhas considerações sobre a questão do preterimento afetivo. Suas análises sempre versam sobre como os padrões estéticos atingem tanto homens negros quanto mulheres negras e, invariavelmente, aponta para que mulheres negras também preterem homens negros. Eu explico, sempre, recomendo textos, links, mas a abordagem nunca muda. Há uma negação do papel que os homens negros exercem nesse cenário de abjeção das mulheres negras. É a partir de mais uma negação dessas, de mais uma discussão, que escrevo esse texto. Acessei mais uma vez minhas leituras sobre a temática na tentativa de organizar algo que provoque reflexões. Vou dividir essa escrita em duas abordagens, uma que busque abarcar o cenário da solidão afetiva das mulheres negras e outra que dê conta de um outro preterimento, o preterimento intelectual.

Do começo: mais uma vez, pretas e solitárias.

Ativistas e intelectuais negras tem denunciado o cenário de solidão das mulheres negras há algum tempo, as redes sociais tem potencializado esse debate. Segundo os dados do Censo do IBGE de 2010, 52,52% das mulheres negras não estão na constância de um relacionamento, independente do estado civil. Ou seja, há números, dados, não são constatações que surgem a partir da minha dificuldade em ter relacionamentos. É uma realidade comprovada estatisticamente. Mas, ainda que uma breve pesquisa em sites de buscas apresente um número considerável de materiais sérios que apontam para esse diagnóstico, a insistência em desvalorizar essa questão permanece. E ela permanece fortemente entre os homens negros. Já percebi, mas essa é apenas uma percepção, ainda não comprovada com números estatísticos, que os homens negros são os que mais tem resistência em tratar dessa temática. Ignoram tanto as experiências das mulheres negras quanto os estudos que essas mesmas mulheres, de forma comprometida, produzem.

Há uma dificuldade absurda de assumir o preterimento que relegam as mulheres que tem a pela parecida com as de suas mães, irmãs, tias. Compreensível, porque ao assumir que preterem mulheres negras nas suas relações afetivas, cria-se um cenário imaginário em que também desvalorizam as mulheres negras de sua família. E isso é absurdamente dolorido e cruel. Todo o tópico que necessita de uma reflexão das violências que nós mesmos reproduzimos no cotidiano é difícil, por isso que brancos tem tanta dificuldade de discutir racismo, por isso que homens negros tem tanta resistência em debater a solidão afetiva das mulheres negras.

O “gosto”(aqui entendido enquanto escolha afetiva) por mulheres não negras é a regra. O“gosto”(aqui entendido enquanto fetiche sexual) das mulheres negras se dá nas curiosidades que se manifestam através da manutenção de uma ideia socialmente construída sobre a forma com que essas mulheres transam. A objetificação das mulheres negras ainda apresenta os mesmos contornos da escravização, elas são experimentadas, como alimentos, apropriadas como objetos, predestinadas a instabilidade de relações afetivas problemáticas ou inexistentes. Somos as mais propensas ao celibato definitivo e não é incomum ouvir de mulheres negras que elas tem consciência disso. Eu mesma estou trabalhando a minha mente em aceitar esse diagnóstico. Conforme vou aprimorando meus estudos, conforme vou acessando lugares que não são pensados para mim, como a pós-graduação, maior será a impossibilidade de um relacionamento com outro homem que seja do tipo “namoro/casamento”.

A fragilidade do ego masculino e os padrões de masculinidade fazem de mim uma mulher pouco atrativa. Negra, com ensino superior, ativista social com alguma visibilidade. Difícil de apresentar para família. Se for um homem negro com o mesmo status que eu, ele certamente acessará uma mulher branca, que lhe confirmará o sucesso social. Além de bem sucedido profissionalmente, bem sucedido afetivamente para os olhos do mundo, um negro tão diferenciado que ostenta um casamento com uma branca. Para um homem branco, assumir uma mulher negra implica na necessidade de enfrentar o racismo nas suas relações familiares e entre os amigos, e, ainda, se este homem estiver em um status social inferior ao meu, seu ego é reduzido. Não há disponibilidade para isso. Ainda que exista amor. O mesmo se dá para um homem negro em status inferior. Nesse diagnóstico, de novo, os números falam mais alto, segundo o Censo, “homens pretos tenderam a escolher mulheres pretas em menor percentual (39,9%) do que mulheres pretas em relação a homens do mesmo grupo (50,3%)”. Ou seja, homens negros escolher mulheres brancas mais do que mulheres negras se relacionam com homens não- negros. Uma obviedade, as relações inter-raciais se dão em maior ocorrência entre homens negros/mulheres brancas.

Sendo assim, os cenários de relacionamento disponíveis à minha condição de mulher heterossexual negra me relegam a constância de “não relacionamentos”. Junta-se a isso a pele retinta, o cabelo carapinha, o corpo redondinho, pronto. É um pacote para o estado de celibato. Eu sou sempre a “não namorada” de alguém. Aquela que se relaciona, mas que não é a namorada, a esposa. A que aparenta ser namorada, ser parceira afetiva, mas não é. Poderíamos imaginar que meu caso é especial, já que vivo no Rio Grande do Sul, um lugar em que o número de pessoas negras é reduzido em comparação com outros estados, como a Bahia por exemplo. Infelizmente essa premissa não se comprova. Ana Cláudia Lemos Pacheco, em sua tese de doutoramento, abordou as nuances da solidão afetiva através de um estudo com mulheres negras na Bahia. Uma das mulheres que Ana Cláudia entrevistou para escrever sua tese é minha xará: Winnie.

Winnie tem 45 anos, é funcionária pública federal e não tem filhos. Estudou, graduou-se, foi militante dos movimentos sociais. É uma exceção a maioria das mulheres negras do Brasil. Winnie teve um parceiro, mas segundo seu relato : a sua “independência feminina”, a construção de sua feminilidade como “uma mulher que resolve tudo sozinha” acabou fazendo com que o relacionamento não perdurasse. A Winnie interlocutura da Ana Claúdia carrega mais do que o nome em semelhanças comigo, e não tenho muitas dúvidas que eu, aos 45 anos, serei um retrato ainda mais fiel de Winnie. Respeitada por muita gente, tolhida da possibilidade de afetividade inclusive por estas pessoas que me admiram e respeitam.

Se a branca fala a boca cala.

Apesar de hoje haver uma maior abertura para os debates que dizem respeito a solidão afetiva das mulheres negras, toda vez que esse assunto surge seja nos movimentos sociais, seja nas redes, cria-se um desconforto latente. Homens negros correm em negar seus papéis nesse cenário. Mulheres negras cansam de explicar os motivos da ocorrência do mesmo. Eu pude experienciar outra faceta desse diagnóstico, uma que me causou bastante dor. Embora eu escreva sobre isso, repita os escritos de outras teóricas negras, me deparei com um homem negro relativizando tudo que eu escrevia, utilizando a já conhecida técnica de desvalorizar o que eu digo através da pecha da agressividade, da arrogância, da soberba. Contudo, quando mulheres de pele mais clara que a minha escreveram sobre o mesmo fenômeno, com as mesmas conclusões, elas foram lidas, compreendidas e acolhidas. Aceitas. Os discursos das mulheres mais claras de pele do que eu foram facilmente sintetizados, o meu, cansado mas com o mesmo teor que o delas não.

Isso reflete hierarquias sociais de raça, gênero e classe. E por mais que tentemos romper com essas hierarquias, muitas vezes nossos pares as reforçam, que o que se dá com a deslegitimação do discurso das mulheres negras por parte dos homens negros. A hierarquia racial socialmente construída prevalece, fazendo com que as vozes das mulheres brancas sejam mais facilmente assimiladas do que as nossas, ainda que tenhamos mais expertise na temática em questão. Uma triste expertise, mas existente. Nossas vozes, pouco ouvidas em qualquer temática, no que diz respeito ao assunto tema desse texto, são abafadas com ainda mais força. Porque ao ecoarem, ecoam a permanência do tratamento servil que a população negra ainda experimenta.

Essa voz, desse texto, é minha. É de outras mulheres negras. É dá ciência. Dos números. Da consciência, mas infelizmente, a maioria dos homens, ouve só a voz da conveniência. E a conveniência silencia mulheres negras. Porque a conveniência é branca em essência.Penso que é preciso refletir seriamente sobre as consequências dessas abordagens, para que não tenhamos um ciclo sem fim de Winnies. Para que as Winnies que estão por vir tenham menos ferimentos não cicatrizados de dores históricas e sociais.

Referências:

PACHECO, Ana Claudia Lemos et al. Branca para casar, mulata para f… e negra para trabalhar”: escolhas afetivas e significados de solidão entre mulheres negras em Salvador, Bahia. 2008. Tese de Doutorado. Tese de Doutorado em Ciências Sociais: IFCH, Campinas.

 

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