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A perversidade da branquitude biscoiteira

Não é sobre você, mas sim sobre a trajetória de sua classe perante este mundo

Manifestantes pintam frase #vidaspretasimportam na avenida Paulista (SP), em prostesto pelo assassinato de Beto Freitas, em Porto Alegre - Bruno Santos/Folhapress

Talvez a melhor analogia de “lugar de fala” seja a geografia social, este termo que teve sentido ampliado magistralmente pela nossa mestra Djamila Ribeiro e que constantemente tem seu primoroso sentido distorcido e esvaziado pela branquitude acrítica delirante.

Termo que poderia também ser a resposta de “quem é você no xadrez da vida?”. Venha cá, seja sincero. Você, que está lendo este texto agora, já se deu o privilégio de se entender a partir do lugar que você se elabora dentro da organização social de pessoa latina e sul-americana? Essa provocação e perspectiva alterariam todo seu contexto de oratórias completamente sem sentido que nós, corpos dissidentes, somos submetidos exaustivamente na trajetória deste país.

Pessoas brancas, ao falarem de racismo e outras opressões, deveriam —se assim se importarem com a ética— enxergar a faca que carregam alegoricamente em suas mãos. E entenderem que é dessa forma que seu corpo político performa historicamente perante todos os corpos dissidentes, não apenas negros, mas também LGBTQIA+, pessoas com deficiências e povos originários. Este é o seu lugar político na dinâmica social que temos hoje como fruto da colonização. Tal configuração de poder deveria estruturar tudo que reverbera, leitor branco. E, agora, responda-me: o que faz com essa faca suja de sangue e que muitos nem se dão conta? Caso você não se sinta à vontade de andar armado por todo esse tempo, e ainda assim se preocupa com sua reputação na clássica e ensurdecedora frase “nem todo mundo…”, é porque a lição ainda não foi compreendida na totalidade.

Existem alguns entendimentos primários sobre estruturas de opressão. Talvez o mais importante deles é que opressões não se apresentam no âmbito individual. Não é sobre você, mas sim sobre a trajetória de sua classe perante este mundo até que você tivesse acesso a ler este artigo. Coisa que meus pares (em sua grande maioria) jamais terão; ou seja, mesmo que eu tenha entrado aqui e possa disputar a narrativa neste importante veículo de comunicação, continuo dialogando com pessoas brancas, e este texto não conversará com meus pares para promover a emancipação.

Outro ponto sumário é: “não existe simetria de poder entre opressores e oprimidos”. Por isso, não existe racismo reverso e outros delírios. Se pessoas negras não têm domínio das mídias, do capital e dos sistemas de poder, não existe a possibilidade de um oprimido performar a opressão; é ilusão. Lembrando que racismo “’é um sistema de práticas sociopolíticas e econômicas que se estruturam basicamente em três pilares: exploração do trabalho, negativas de direitos e imagens de controle” (bell hooks). Dinâmica esta que marca a existência de pessoas a partir de raças (socialmente concebidas) e bloqueiam estruturalmente a mobilidade social.

Logo, Antonio Risério (“Racismo de negros contra brancos ganha força com identitarismo”, 16/1) sabe exatamente o que está fazendo. Ele aprendeu com seus ancestrais e ainda não se constrange em ter orgulho disso. Orgulho de ter um gene que representa a desumanidade histórica dos meus ancestrais e, reacionariamente, sempre se comporta de forma infantiloide, ao passo que os filhos das domésticas conquistaram o direito de participar da disputa do debate.

Prepare-se, xará: prazer, filho de empregada doméstica. Vamos ser seu pesadelo.

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