Afinal, o que aprendemos com o BBB20?

FONTEPor Juliane Sousa , enviado para o Portal Geledés
Reprodução/Rede Globo

O Big Brother Brasil, em uma edição chamada por muitos de histórica, chegou ao fim. E a pergunta que fica é: o que foi possível aprender com o entretenimento mais assistido durante a quarentena? Alguns podem pensar que se trata apenas de um Reality Show para distrair os que já estão distraídos na vida, outros uma oportunidade para refletir sobre temas sociais pautados pelas falas dos participantes, como desigualdade social, machismo, relações abusivas, racismo, entre outros. 

Antes, vale lembrar aqui que o programa chegou à sua 20º edição, ou seja, são 20 anos em que o Reality torna a vida de anônimos entretenimento para milhares de brasileiros. E diria também, uma “máquina de fazer celebridades”, os quais, por meio de suas histórias, acabam fomentando debates e/ou polêmicas. Essa edição, por ser a 20ª, contou com 20 Brothers, dez homens e dez mulheres – muito equilibrado do ponto de vista cis-, e manteve a tradição de permanecer com as cotas raciais, com a participação de duas pessoas negras, um gênero para cada lado. O que já faz do programa “menos Brasil”, pois a maior parte da população do país é autodeclarada preta. Então, o que nos resta é sentar a mão no teclado para problematizar, apontar, debater e discutir racismo, feminismo e machismo. Bóra? 

Durante 20 anos de programa, o prêmio foi parar nas mãos de dez homens, todos brancos. Quanto às mulheres, até a última edição, eram nove vencedoras, entre eles, Gleice Damasceno, uma mulher negra e acreana, que foi a ganhadora do BBB18. Uma vitória importante do ponto de vista da representatividade, porque, além de negra,  Gleice vinha de um estado, que ainda é desconhecido para muitos brasileiros e motivos de piadas preconceituosas, o estado do Acre. 

No BBB19, a grande polêmica também ficou em torno do racismo. E aqui devo lembrar a você que lê este texto que o tema racial sempre será um tema pautado no nosso país por uma questão muito simples: o Brasil é um país racista. Dito isso, voltemos a vencedora da edição 19º, a qual não citarei o nome de propósito. Ela chamou a atenção do público principalmente por destilar suas falas racistas sem nenhum constrangimento ou medo de ser punida. Mesmo com esse histórico, levou o prêmio pra casa deixando como simbologia para milhões de brasileiros que racistas, no Brasil, não vão para cadeia, ao contrário, são premiados. 

O fato é que uma parte considerável do público, não engoliu essa história e ficou remoendo esse BBB19 até a edição de 2020 para, enfim, fazer Thelma Regina campeã, uma mulher negra, médica e bailarina. A sensação que fica com a vitória da Thelma é de missão cumprida por tudo que ela representa sendo uma mulher negra em um país que insiste em dizer que racismo não existe. Calma, todos nós sabemos que isso não significa o fim do racismo, mas também não podemos ignorar o seu significado, principalmente para milhares de mulheres negras que formam a base dessa pirâmide social. 

O reality sempre foi classificado por alguns como o programa da alienação brasileira, por se tratar de um grupo de homens e mulheres dentro de uma casa sem fazer absolutamente nada relevante, apenas conflitos, piscina, festas e relacionamentos. O que servia muito bem para um tal telespectador que queria apenas uma distração que não exigisse dele reflexão profunda sobre nada. Até essa edição, o programa ficou nesse lugar de aparente irrelevância. Digo isso porque nesse BBB20 entrou um personagem importantíssimo conhecido como o país Twitter. Essa rede social apontou todos os problemas da casa, as falas dos participantes foram problematizadas, discutidas e julgadas no tribunal dos tuítes, que gritavam “machistas e racistas não passarão”.

Sim, machismo e racismo foram os grandes temas dessa edição, não que nas outras essas questões não tivessem aparecido, a diferença é que nessa os twitters estavam bem afiados, de olho em cada palavra dos participantes e prontos para o julgamento final. Tanto que, principalmente, a questão racial foi percebida e apontada por quem estava de fora da casa assistindo, entretanto, em nenhsum momento os participantes foram acusados dentro da casa de racistas. Contudo, o país Twitter estava de olho em tudo e queimando o dedo de votar em racistas para saírem da casa.  

Portanto, devo lembrar que estamos em um país que não assume seu racismo. Pense comigo: só o fato de ter apenas duas pessoas negras em um grupo de 20 pessoas já é um retrato perfeito do racismo à brasileira, afinal, os negros somam mais de 54% da população do país, representando a sua maioria. Assim, o mais coerente com esse dado é que na casa tivesse mais negros que brancos, você não acha?.  Por isso, com todo o esforço do Twitter, ainda que com Thelma vencedora, não vencemos o racismo nem dentro e, menos ainda, fora da casa. Contudo, valeu muito o debate. É importante aproveitarmos as brechas no sistema para gritarmos “Fogo nos racistas!”, ops! “no parquinho!”

E quanto ao feminismo X machismo dentro da casa? Essa discussão foi o grande protagonista nessa edição do programa. As “feministas” brancas com o feminismo liberal, que serve muito ao capitalismo, conseguiram fomentar o debate dentro e fora da casa, que acabou resultando em paredão de todos que foram acusados de machismo, e o Twitter, por sua vez, morria de expectativa por uma #forafulano.  Assim, foi saindo um por um dos machistas até chegar no último participante da ala masculina, Babu Santana. O único homem negro do grupo, que, por um momento, acreditou-se que poderia ser o grande campeão da edição. No entanto, seria incoerente, pois essa edição ficou por conta do protagonismo feminino, desde o momento em que as mulheres da casa se organizaram para tirar satisfação com os “machos escrotos” sobre os seus comentários machistas a respeito de algumas participantes. O fato é que, gostem ou não do “feminismo” apresentado pelas participantes, elas conseguiram manter a narrativa da suposta sororidade e fizeram uma final só de mulheres, duas brancas e uma negra, sendo a última vencedora. 

Apesar de todas as superficialidades sobre a temática racial e feminista, do ponto de vista simbólico, as discussões promovidas foram importantes, porque apresentaram esses assuntos para quem, talvez, nunca tivesse parado para pensar sobre essas questões. Além do Twitter, é possível que alguém mais tenha entendido que racismo é crime, e não uma pisada de pé que você pede desculpas na sequência; e que machismo precisa ser debatido e encarado com firmeza, porque afeta a vida de todas as mulheres e dos homens também. 

Por fim, um dos maiores aprendizados que ficou dessa edição é que o país Twitter interrompeu, sim, a programação da família tradicional brasileira para mandar alguns recados: racistas serão expostos e acusados de racismo, porque é um crime e não seremos cúmplices; machistas não passarão e fadas sensatas não existem. Valeu, BBB20! Espero que você nunca mais seja o mesmo depois dessa. 

 

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*Juliane SousaFormada em Letras pela UNIFESP, jornalista, ambientalista, apresentadora de TV, roteirista e uma das responsáveis pelo projeto Mulheres Negras na Biblioteca. Uma pisciana Paranhense apaixonada por música brega, carimbó e reggae .

** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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