Bebê nasce com o DNA dos dois pais no dia do combate à homofobia

Casal homoafetivo do Rio Grande do Sul realiza sonho de ter filha biológica graças a uma rede de apoio para fertilização in vitro

FONTEFolha de São Paulo, por Tatiana Cavalcanti
Jarbas, 48, e Mikael de Bitencourt, 35, olham a filha Antonella logo após o nascimento, em 17 de maio, em Porto Alegre - @historiasdonascer

Antonella nasceu em uma data simbólica e de resistência, 17 de maio, quando é celebrado o Dia Internacional contra a Homofobia e a Transfobia. Com 13 dias de vida, a recém-nascida já fez história ao ser o primeiro bebê do Rio Grande do Sul a ter o DNA de seus dois papais, Jarbas e Mikael, após tratamento via fertilização in vitro que contou com uma rede de apoio para acontecer.

Quem alega o pioneirismo no estado é o gerente comercial Jarbas de Bitencourt, 48. Ele conta que o desejo da paternidade biológica surgiu após uma adoção frustrada. Ao ver o casal homoafetivo sofrer por não conseguir seu bebê do coração, a amiga Jéssica Konig, 31, decidiu ajudar e falou sobre a barriga solidária, possibilidade do qual ambos nunca ouviram falar até então.

Jarbas e o fotógrafo Mikael de Bitencourt, 35, começaram a pesquisar tudo a respeito. “Foi quando vimos que era possível termos um filho biológico. Aí começamos a correr atrás de tudo o que a clínica solicitava. Mas quando chegou na parte dos óvulos, nos perguntaram se tínhamos algum, e respondemos que não.”

O casal Jarbas Mielke de Bitencourt, 48, e Mikael Mielke de Bitencourt, 35, enquanto esperavam pela filha, Antonella; a amiga deles Jéssica Konig, 31 (ao centro) foi a barriga solidária – Daniel Marenco – 13.abr.24/Folhapress

Foi quando Mikael decidiu consultar suas irmãs, e uma delas, a estudante Marrienara Bortolanza, 22, logo se prontificou a ser a doadora de óvulos. Jarbas doou o sêmen e, após a formação do embrião, Jéssica topou engravidar do filho dos amigos.

Então, Antonella tem o DNA de seus dois pais: Jarbas, que forneceu seu próprio material, e Mikael por meio de sua irmã. “Nesse momento começamos a gerar uma linda história e sabíamos que a nossa filha teria o nosso DNA. Isso foi emocionante, embora a carga genética nunca foi uma demanda que buscássemos, porque até então nós estávamos fazendo o processo de adoção. Ter uma filha com o DNA de nós dois foi um bônus maravilhoso”, afirma Jarbas.

Mikael e Jarbas estão juntos há 15 anos. Enquanto o primeiro era louco para ser pai, o segundo queria esperar a estabilidade financeira chegar. “Meu marido sempre teve a questão da maternidade à flor da pele”, afirma Jarbas.

Ele conta que Mikael teve um relacionamento difícil com seu próprio pai, que não aceitava ele ser gay, e isso despertou nele uma vontade ainda maior pela paternidade. “Ele tem um carisma enorme, é um pai surreal.”

Jarbas só teve esse desejo lá pelo oitavo ou nono ano de casamento. “Ali eu comecei a entender que nós seríamos pais. A gente aflorou isso. Casamos, fizemos uma grande festa, tentamos adotar e depois viramos pais da Antonella.”

A rotina dos dois pais tem sido tranquila, segundo Jarbas. Troca de fraldas e de roupinhas, banho e alimentação com fórmula na mamadeira são o paraíso. Ele diz que Antonella é calma (espere até ela começar a andar!), mama, fica quietinha e não tem cólica.

“Ela está se apresentando muito calminha, isso nos deixa felizes, porque somos papais de primeira viagem. Ainda não vivemos aquele perrenge de passar noites em claro, mas ela já tem enfrentado o frio do Sul. Temos uma rede de apoio enorme também, com apoio dos pais, sogra, cunhadas e irmãs, estão todos envolvidos nos cuidados da Antonella.”

Para Jarbas, o aniversário da filha sempre será um marco especial. “Para nós, um casal homoafetivo, é emocionante que Antonella veio ao mundo justamente no dia do combate ao preconceito. Vamos comemorar o aniversário dela com uma causa extremamente linda, que combate tudo o que há de errado e afeta o segmento LGBTQIA+, comunidade que a sociedade ainda tem muita dificuldade até hoje em aceitar.”

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