Brasil nunca foi tão negro, diz Edson Lopes Cardoso

Escritor e militante teve 151 textos escritos nos últimos 35 anos reunidos no livro 'Nada os Trará de Volta'

FONTEPor Fernanda Mena, da Folha de S. Paulo
Edson Lopes Cardoso, escritor e militante do movimento negro, na escadaria da praça Charles Miller, em São Paulo, durante a Feira do Livro (Foto: Gabriel Cabral - 12.jun.22/Folhapress)

“Para consolidarmos um processo democrático, é preciso superar ideologias hierarquizadoras do ser humano. Não só a racial, mas outras igualmente desumanizadoras”, diz Edson Lopes Cardoso, 72, escritor, jornalista, professor e militante histórico do movimento negro brasileiro.

Ele acaba de lançar “Nada os Trará de Volta: Escritos sobre Racismo e Luta Política” (Companhia das Letras), uma coletânea de 151 textos de sua autoria. “Afinal, somos todos humanos ou não?”, provoca.

A questão universal destacada por ele ganha, no entanto, contornos particulares no Brasil, país atravessado pelo trauma da longa escravidão e de sua abolição sem políticas que incluíssem as pessoas negras escravizadas.

“Quando você pensa na história do Brasil e na desumanidade que se fez com as pessoas de pele negra, precisamos colocar isso na frente. O combate ao racismo tem de ser uma das prioridades, porque é um tema central da nossa história”, afirma. Para ele, os negros hoje “querem discutir relações de poder, querem ir para a política, querem distribuir renda, querem casa, querem saneamento. Claro que isso vai fortalecer as reivindicações políticas e sociais”.

“Nada os Trará de Volta” evoca, desde o título, histórias que não deveriam ser esquecidas, como aquela que abre o livro, quando um muro da UnB (Universidade de Brasília) amanheceu, em junho de 1987, com frases como “Morte aos negros!” e “Viva o apartheid” pichadas.

“É preciso ativar a memória para que a coletividade ande. O passado não é para eu andar para trás. O passado me impulsiona para a frente.”

Doutor em educação, Cardoso aposta que a reversão do persistente estigma da pele negra no Brasil passa obrigatoriamente pela escola, pela valorização da diversidade e por políticas públicas universais de qualidade que, com o passar do tempo, dispensem a necessidade de ações específicas para a reparação de grupos sociais marginalizados.

“​Diversidade é solução, não problema. Temos diversidade, diferentes respostas, aportes diferenciados. Isso é bom para o PIB (Produto Interno Bruto) e para o desenvolvimento, bom para todos os ambientes, para tudo. Mas o racismo inverte isso e transforma o positivo em negativo, e insistimos em hierarquizar essa diversidade.”

Por que o título “Nada os Trará de Volta”? Ele remete à filósofa Hannah Arendt, que diz que não se faz política sem fatos nem eventos. O problema é que os fatos podem ser distorcidos ou apagados. Então, é preciso captá-los. Se não fizermos um esforço de recuperação de fatos apagados e distorcidos, eles não voltam nunca mais. O livro reúne parte dessas histórias que não podem ser esquecidas.

Steve Biko [ativista contra o apartheid da África do Sul] tinha uma forma de dizer isso que eu acho extraordinária: ele disse que um povo sem memória é como um carro sem motor. É preciso ativar a memória para que a coletividade ande. O passado não é para eu andar para trás. O passado me impulsiona para a frente. Sem passado, a gente não vai adiante.

Seu livro traz um texto de 35 anos atrás que fala de genocídio da população negra, algo muito evocado no debate atual. Como explicar essa permanência? Isso está aberto para se compreender no Brasil. Que papel cumpre no país manter a maioria da sociedade no estado de terror em que vive a população negra? Se você quisesse fazer um teatro e entrar invisível na casa de uma família negra e, por acaso, o filho não voltou para casa na hora esperada e não se consegue um contato telefônico… Pronto, se cria o pânico e o terror!

Por quê? Porque ele pode simplesmente estar morto. Em uma entrevista, a atriz Marieta Severo disse que estava preocupada com o neto dela, um menino negro com cabelos rastafári, por causa da ocupação do Rio pelo Exército durante o governo Temer. Ela pedia a ele para não sair sem documento e tomar cuidado porque os boatos pela internet eram terríveis. Ela contou que não falou nada sobre o assunto com sua outra neta, loira, porque a diferença de cor da pele pode decidir quem vai ficar morto e quem vai viver.

As pessoas negras vivem permanentemente assustadas nas suas relações comunitárias, constantemente fragilizadas do ponto de vista psicológico e emocional.

A polícia diminui a velocidade do carro, encosta no passeio e avisa: “Estou de olho em você, neguinho.” É suficiente! Agora em junho, estava no centro de São Paulo, indo ao Sesc, de paletó e gravata, e tomei o maior baculejo [revista policial] na rua. Fui para a parede.

Qual papel cumpre a polícia nessa dinâmica?​ Aquele que cumpre desde que foi formada: o controle da população negra.

A República produziu um Código Penal em 1890 antes da Constituição, em 1891. Quando ocorre a libertação das pessoas escravizadas, a República se preocupa primeiro em punir a vadiagem e em criminalizar as manifestações culturais negras, como a capoeira e o candomblé. O Estado vai atrás daquele corpo, que estaria livre, para pegá-lo de outra forma.

A epígrafe do meu primeiro livro [“Bruxas, Espíritos e Outros Bichos”, de 1992] é de uma carta aberta que Abdias do Nascimento fez em 1949 ao chefe da polícia do Rio de Janeiro, na qual ele se queixa de que pessoas negras vinham sendo presas por qualquer coisa, até por não ter um simples documento de identidade. Ele diz: “Parece até que cometeram o delito de ser negro”. O ser delituoso. O crime que você cometeu é ser quem você é.

Como o racismo se apresenta nos primeiros ordenamentos jurídicos do país? Estamos no Bicentenário da Independência, e José Bonifácio apresentou, na nossa primeira Constituinte, de 1822 e 1823, um documento com projetos para o país. Nele, Bonifácio escreve que, no Brasil, uma coisa é o escravo, outra coisa é a cor do escravo. Ele está falando de uma sociedade que tem escravos, mas também do preconceito contra a pele negra que, de tão arraigado, ele chega a chamar de “mancha indelével”. Ele está definindo o estigma, uma mancha ultrajante.

A Constituição sai dando direito de voto a uma renda de tantos mil réis anuais, exceto para os negros. Mesmo que você, como negro, tivesse a renda exigida pela Constituição para votar, a cor da pele não assegurava sua cidadania. Ou seja, o Brasil começava o Império assegurando a subcidadania aos negros mesmo que não fossem escravos, apenas por causa da cor da pele.

Por isso que me interessei tanto por “O Processo”, de Franz Kafka. Ele percebe isso em relação aos judeus. O problema não era que o protagonista, Joseph K., tivesse feito algo: ele não fez nada, sua condição que é criminosa. Um estigma desse porte reduz as chances de vida.

Como assim? É importante entendermos a definição de estigma social, elaborada pelo sociólogo Erving Goffman. Ele diz [abre o livro e lê]: “Por definição, é claro, acreditamos que alguém com um estigma não seja completamente humano. Com base nisso, fazemos vários tipos de discriminação, através das quais efetivamente, muitas vezes sem pensar, reduzimos suas chances de vida”.

Esse trecho é tão rico. Ele não só aponta o problema como a solução. Ele não está falando apenas sobre o estigma da pele, mas do sobrepeso, da mulher, de todos e diz que toda estigmatização é desumanizadora, a ideia de que o outro, portador do estigma, não é humano como eu. A partir daí, reduzem-se suas chances de vida.

Se o estigma é desumanizar, combater o estigma é humanizar.​ O ser humano não existe fora da história. Então, se você quer humanizar, a primeira coisa é reconhecer que são seres históricos, reconhecendo a língua, a cultura e a religião.

Qual é o papel da escola em relação ao racismo no Brasil? Físicos e matemáticos afirmaram que a Terra girava em torno do Sol, não o contrário, por meio de cálculos. Eles viram com o cérebro, não com os olhos, porque os sentidos nos enganam. A escola brasileira até hoje não nos dá os elementos necessários para enxergarmos os seres humanos para além dos sentidos e dos preconceitos.

No meu trabalho para a USP, peguei um livro de ciências que tratava da pele na sétima série. Imagine? Se eu deixar para falar disso na sétima série, a casa já caiu na cabeça das crianças. Em um país como o Brasil, diverso e desigual, eu tenho de encontrar uma forma de tratar desses conteúdos o mais cedo possível para desmistificar a ideia de que a pele está associada a valores de inteligência ou de personalidade.

Se alguns conteúdos deliberadamente ainda não entram na escola brasileira, isso ajuda o racismo. Uma escola que celebrasse a diversidade da espécie humana estaria celebrando a vitória da espécie humana —sermos diversos na aparência garantiu nossa sobrevivência. O racismo inverte isso e transforma o positivo, a diversidade, em negativo. Com isso, cria uma ojeriza a uma aparência diversa daquela tida como a aparência humana por excelência.

Hierarquiza essas diferenças? Racismo, de um lado, e sexismo, de outro, são duas ideologias que hierarquizam a diversidade.

Em Brasília, onde vivi por muitos anos, quanto mais você se aproxima das instâncias de decisão, a mulher faz o café, e o homem negro leva o café para a sala onde os homens brancos decidem. Uma democracia se preocupa com o pluralismo porque o que temos é um tipo de composição que vai ficando masculina e branca à medida que se ultrapassa a faixa de renda de três salários mínimos.

Como reverter esse quadro? A Unesco fala que a melhor resposta a uma realidade de grande diversidade é buscar assegurar o pluralismo, que ocorre no plano da política. Pluralismo é assegurar igualdade de oportunidades a toda diversidade. A educação tem esse papel de valorizar a diversidade e buscar mostrar as vantagens de se assegurar o pluralismo. Isso é fundamental e orienta a comunicação.

A publicidade é que está acordando agora, no Brasil, que ela também tem um papel. Muniz Sodré, da semântica e da teoria da comunicação, dizia que, no Brasil, a TV é para o negro o que o espelho é para o vampiro. O vampiro olha no espelho e não se vê. As pessoas negras assistiam e não se viam.

O que puxou essa mudança? Eu peguei os debates do teatro Casa Grande, em 1975, já no início da redemocratização. Toda segunda-feira, no Rio, tinha debate sobre temas brasileiros de cultura e havia grande mobilização.

A questão racial não apareceu, salvo em dois momentos. Na mesa de televisão, o Walter Avancini, que era o todo-poderoso das novelas da Globo, disse que o tema era absolutamente proibido ali, que não se podia tratar de questão racial. No debate sobre publicidade, o Celso Japiassu disse não ver racismo na propaganda brasileira, mas preconceito de classe.

Ou seja, para um setor mais à direita, o tema era explicitamente proibido, como se não existisse. Para setores mais progressistas, o tema era mais social que racial. A gente tinha dois negacionismos, e o movimento negro ficava no meio, boiando.

Se a prevalência do social sobre o racial é uma forma de negacionismo do racismo, como a questão racial se relaciona com as demandas universais contra a desigualdade social? Para consolidarmos um processo democrático, é preciso superar ideologias hierarquizadoras do ser humano. Não só a racial, mas outras igualmente desumanizadoras. Precisamos encarar uma questão prévia: afinal, somos todos humanos ou não?

Quando você pensa na história do Brasil e na desumanidade que se fez com as pessoas de pele negra, precisamos colocar isso na frente. O combate ao racismo tem de ser uma das prioridades, porque é um tema central da nossa história.

A gente era muito criticado por fazer reivindicações tidas como particulares em atos públicos, porque o espaço público era para políticas universais, não para cotas para negros. Isso, de fato, é uma contradição. No entanto, qual foi a única política que conhecemos em benefício da população negra na história do Brasil? As cotas.

Como vamos superar essa contradição? À medida que o processo social avançar. Não temos como avançar nessa contradição no debate porque ela pertence ao processo social. Isso é algo do jovem Marx.

Para anular essa reivindicação específica, é preciso fazer cotas e atuar na base do ensino, universalizar a creche, a escola pública de qualidade. É preciso universalizar os acessos.

Enquanto as condições desiguais criarem uma falsa seleção que beneficia por carta marcada grupos que são privilegiados, não tem como não ter política específica. A contradição aponta para o processo histórico mais profundo, que exigia a política particular.

Os negros querem discutir relações de poder, querem ir para a política, querem distribuir renda, querem casa, querem saneamento. Claro que isso vai fortalecer as reivindicações políticas e sociais.

Qual foi o impacto desses negacionismos no movimento negro? Houve um adensamento de ideias, como está acontecendo agora, e as pessoas não estavam se dando conta, como também não estão agora. Houve um terremoto na sociedade brasileira que levou ao disco “África Brasil”, de Jorge Ben, que fala que quer ver Zumbi chegar. Em 1978, surgiu o MNU (Movimento Negro Unificado).

Em 2001, eu li na Folha, começou a crescer o percentual de brasileiros que se declaravam negros. Isso foi puxado pelo movimento negro. Inverteu-se o embranquecimento da sociedade brasileira, e quem não se afirmava negro passou a se afirmar negro. Esse crescimento demográfico é de autoestima e de compreensão de si. Isso é um fenômeno extraordinário. Ninguém pode deter isso.

O Brasil hoje é um país mais negro que em qualquer outro momento de sua história.

Dos quase 57% de brasileiros que são considerados negros pelo Estatuto da Igualdade Racial, pouco menos de 10% se declaram pretos e quase 47%, pardos. Embora a mestiçagem tenha servido como mito negacionista do racismo, ela é um fato no Brasil. Qual o lugar da massa parda nas questões raciais? Essa relação entre pretos e pardos tem uma base histórica nos próprios censos da escravidão do Brasil. Um plantel de escravos era constituído de pardos e pretos. Muitos mestiços, às vezes filhos dos senhores, não fugiam a seu destino porque o ventre era de uma mulher negra, e era isso o que importava. Nos anos 1970, o movimento negro vai trabalhar com a noção de que negro é a junção de pretos e pardos.

No meu caso, minha mãe é uma mulher preta, meu pai, um homem pardo, porque meu avô era português. Os filhos nasceram pretos e pardos, todos irmãos. Você quer que eu separe? As famílias negras são constituídas de pretos e pardos.

Eu morei no Rio Grande do Sul por dois anos, e os brancos de lá eram muito diferentes dos brancos daqui da Bahia, onde nasci e vivo. Se eu colocar na parede os brancos brasileiros de diferentes regiões, meu Deus, que diferença! Isso não é um problema, mas, na hora dos negros, querem que eles sejam todos iguais? Por quê?

Está acontecendo uma mudança profunda, e isso não pode ser pouca coisa. Uma sociedade não altera o modo como ela se representa coletivamente do nada. Isso não tem volta. Se nós nos víamos europeus, nórdicos, agora descobrimos que podemos mostrar mais como somos.

É o Brasil caminhando na direção de si mesmo. Olha que coisa linda! O Brasil está ficando mais próximo do que ele é, da representação do que ele é.​​

Como você entende o que se chama de identitarismo? A identidade à qual me refiro quer mudanças em condições materiais de vida, por isso vai para a política, quer emprego e saneamento básico. Quem é a população mais atingida pelo aumento de saneamento básico no Brasil? A população negra. Você sabe quem está morrendo por ausência de água tratada e de esgoto. Saneamento básico não é de interesse da política tradicional brasileira. Quem pode tomar Perrier não está interessado em água tratada.

Se os negros chegam à política, eles vão dizer, de cabo a rabo: saneamento básico é prioridade. Logo, se a gente vai crescer a nossa representação política negra, o que deve mudar na política é a pauta. Nessa nova pauta, a questão da segurança pública vai ser vista por uma nova ótica, desse terror que essa população vive.

Mas você não respondeu à pergunta sobre identitarismo… Quem luta contra o racismo não deve entrar nessa esparrela de aparência de pessoas. Estou aqui para confrontar o racismo, não para fortalecê-lo. É o olhar do racismo que valoriza a aparência.

O movimento negro que eu faço não está preocupado com isso. Estamos preocupados com humanização e com seres humanos. Esperamos ter um país em que a diversidade, que é da nossa história, seja valorizada.

O negro ter orgulho de si, valorizar sua história e sua identidade é uma coisa positiva, mas não para fazer dela um atoleiro, um espelho em um poço onde você vai mergulhar. A sua identidade é para você se abrir e se relacionar. Quem quer luta contra o racismo não tem fixação com cor da pele.

Qual é o espelho de vampiro para os negros hoje no Brasil? A política, com certeza, tanto que, nessa campanha, haverá um número maior de candidaturas de mulheres e de negros. Há uma representação negra se candidatando para cargos na política.

O caminho é a reparação? ​Outro conceito importante da Hannah Arendt é a responsabilidade coletiva. Quando a gente fala em escravidão, as pessoas pensam que estamos querendo perseguir os culpados pela escravidão, mas eles já morreram. Não tem ninguém mais procurando por eles. O que a gente quer —e é isso que ela diz no seu ensaio— é responsabilidade coletiva.

A reparação é o eixo central do projeto da democracia no Brasil. Se não quiser reparar os povos indígenas nem os negros, você não está querendo democracia. Eu não estou falando de pegar dinheiro para distribuir, não é nada disso. É uma reparação política a partir de um projeto de coletividade.


EDSON LOPES CARDOSO, 72

Escritor, jornalista e professor, é mestre em comunicação pela UnB e doutor em educação pela USP. Militante do MNU (Movimento Negro Unificado) e coordenador do Ìrohìn – Centro de Documentação, Comunicação e Memória Afro-brasileira. Autor, entre outros livros, de “Bruxas, Espíritos e Outros Bichos” (1992), “Negro, Não” (2015) e “Nada os Trará de Volta” (2022)


NADA OS TRARÁ DE VOLTA: ESCRITOS SOBRE RACISMO E LUTA POLÍTICA

  • Preço R$ 99,90 (456 págs.); R$ 44,90 (ebook)
  • Autor Edson Lopes Cardoso
  • Editora Companhia das Letras
-+=
Sair da versão mobile