Contar aquilo que deixaram de nos contar

Se na minha adolescência houvesse podcasts, eu teria levado o Projeto Querino para a sala de aula para fortalecer aquela certeza de que a história do Brasil deixa muito da contribuição das pessoas negras fora do material didático, do livro-texto

Winnie Bueno (Foto: Marilia Dias / Divulgação)

Eu espero que este seja mais um entre inúmeros textos que tenham por objetivo repercutir o brilhantismo do recém-lançado Projeto Querino, uma das mais impressionantes produções que já vi, li e ouvi nos últimos anos. Não vou me importar em ser mais uma pessoa a recomendar que não só você, querideza que me lê, ouça o podcast e, assim como eu, seja alguém que recomende em todos os lugares possíveis que outras pessoas ouçam.

Dito isso, talvez algumas pessoas ainda não saibam do que se trata o Projeto Querino e por que ele me empolgou tanto; logo, vale a pena falar não apenas sobre o projeto em si mas também a respeito das mentes brilhantes que o conduziram. Faremos isso nesse texto, mas também descobri que uma das razões para eu ter me empolgado tanto quando maratonei o podcast tem a ver com uma memória não tão feliz da minha adolescência, uma memória do meu tempo de escola.

Fui uma estudante de Ensino Médio muito apaixonada pela disciplina de História, mesmo que ela fosse contada a partir de um viés que eu sabia que não era bem verdade. Tinha muita convicção que os meus livros-textos ocultavam muito da história dos meus antepassados e que inclusive contavam algumas coisas que não eram exatamente verdade. Parte dessa convicção vinha da educação que minha mãe e minha avó transmitiam em casa e da educação que eu recebia nos espaços do movimento negro.

Sempre falo que o terreiro e as organizações do movimento social negro foram absolutamente importantes na minha educação, fizeram de mim uma adolescente que minimamente tinha condições de não sucumbir às múltiplas formas de racismo que apareciam no cotidiano de uma escola particular de orientação católica  nas primeiras décadas dos anos 2000. Um ambiente escolar que ainda era permeado por pedagogias que estimulavam o silencio perante as opressões. Sabia identificar os processos de racismo que ocorriam na minha vida escolar, também sabia que não havia muito o que fazer a respeito deles sendo uma das poucas jovens negras naquela instituição.

Sempre soube que a abolição da escravatura não era exatamente como contavam nos meus livros de História do Brasil e sabia perfeitamente que não fazia o menor sentido que a participação de pessoas negras na História ficasse meramente pontuada a partir da escravidão. Ainda não tinha a menor ideia do que significava epistemicídio mas já sabia muito bem o que era apagamento.

Certa, convicta e convencida das coisas que não me eram ensinadas na escola, em determinada ocasião, afirmei em alto e bom tom que minha professora de História estava equivocada sobre a abolição. Interrompi a aula e afirmei que a participação da Princesa Isabel tinha sido muito menor do que contavam e que quando assinada a Lei Aurea parte significativa dos negros já estava livre. Livres por sua própria conta, livres porque lutaram pela sua própria liberdade, livres porque organizaram formas de libertação que não dependiam da assinatura de uma princesa branca.

Isso me rendeu uma suspensão seguida de um convite para trocar de escola.

Se na minha adolescência houvesse podcasts, certamente eu teria levado o Projeto Querino para a sala de aula como forma de fortalecer ainda mais aquela certeza que tinha, feita do processo de educação que o movimento negro me deu, que a história do Brasil deixa muito da contribuição das pessoas negras fora do material didático, do livro-texto. Mesmo após a Lei 10639/03, ato que tornou obrigatório o ensino de história da África e dos afro-brasileiros nos currículos das instituições de ensino brasileiro, ainda permanece muito silêncio e ocultação a respeito da participação dos negros e negras na formação desse país.

O fato é que esse silêncio não é fruto apenas do desconhecimento ou obra do acaso, tem razões mais profundas, relacionadas à manutenção da supremacia branca, da meritocracia que funciona apenas para transformar em coisas grandiosas feitos não tão grandiosos assim. Tem relação com a maneira com que as pessoas brancas enxergam a si mesmas como brava gente, ao mesmo tempo em que transformam todos os feitos daqueles que não são como eles em coisas de menor valor.

E aí que o trabalho de Tiago Rogero e de toda a equipe, majoritariamente negra, reverbera tão forte em mim e nas minhas memórias de adolescência. A partir de produções como o Projeto Querino é possível desmistificar o romantismo novelesco que transforma Dom Pedro I em herói nacional e esconde as revoltas populares que foram protagonizadas por coletivos de pessoas que não eram brancas. Como Maria Felipa, mulher negra, marisqueira e capoeirista, heroína da independência da Bahia que inspira mulheres negras até hoje a serem protagonistas da emancipação de seu próprio povo.

Coisa escondida na história do nosso país pelo medo das elites brancas do que poderia ser feito se a gente ousasse, como ousaram os nossos antepassados, desafiar a narrativa que nos foi contada.

Acontece que se na minha adolescência não existiam podcasts e ainda eram tímidas as possibilidades de firmar posição na sala de aula, as coisas agora começam a ter outros contornos. É possível que historiadores da diáspora dialoguem e promovam projetos onde a gente possa procurar o que ficou escondido. É possível que organizações comprometidas com o combate ao racismo financiem pesquisas que viabilizem iniciativas como o Projeto Querino. Não mais ficaremos assistindo à insistência da mídia em nos resumir à escravidão ou à dependência de empregada, ao conto mal contado de que mulheres negras trabalhadoras domésticas aceitaram submissas seu cantinho nos fundos da casa. Não é isso que acontece, não foi isso que aconteceu e agora, elas mesmas podem contar.

Para quem acha que tudo sabe sobre os 200 anos da Independência do Brasil vale muito a pena mergulhar na extensão do Projeto Querino, não só no podcast mas também nas reportagens veiculadas pela revista Piauí. Para quem nada sabe sobre esse bicentenário é central começar a saber por este projeto. Daí você já vai sabendo que as margens do Rio Ipiranga não tinha um imperador garboso em cima de um belo cavalo –  na verdade o que rolou foi uma extenuante viagem em cima de uma dezena de mulas numa comitiva em que você pagava uma grana muito grande para participar.

Mas isso, eu vou deixar o Tiago te contar.

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