Contra o racismo da USP, negros convocam Ato por cotas raciais na Av. Paulista

FONTEPor Núcleo de Consciência Negra na USP Do Negro Belchior

Após apresentação de proposta biônica pela reitoria da USP, que nega cotas raciais para o vestibular de 2018, coletivos negros, estudantis e movimentos sociais convocam um grande Ato por Cotas Raciais para esta segunda-feira, 03 de julho, às 18h00 no MASP – Av. Paulista.

O primeiro semestre dos últimos anos letivos na USP tem sido sistematicamente marcado pela luta por cotas raciais. Isso porque a USP segue, para orgulho ariano, como uma das poucas universidades públicas do país que não adotaram política de reserva de vagas para negras e negros. Neste ano o movimento negro, estudantil e indígena da USP, inspirados na grande greve e consequente vitória que levou a adoção de cotas raciais pela Unicamp, encamparam mais uma vez, a luta por cotas raciais na universidade. Duas foram as ações promovidas: O festival de música e artes na semana da reunião do Conselho de Graduação, espaço que discute questões pertinentes à graduação tais como a política de acesso, e a apresentação de uma proposta de Cotas Raciais para a USP, formulado pela Frente Pró-Cotas, composto pelo movimento negro de São Paulo e  atualizado pelos coletivos negros e pelo Núcleo de Consciência Negra na USP.

A atualização dessa proposta foi construída em conjunto com  o movimento estudantil da USP, Levante Indígena e Coletivo Por que a USP não tem cotas?, sob a liderança do Núcleo de Consciência Negra na USP, que o reivindica desde 1995.  Essa atualização baseou-se no projeto norteador das cotas na Unicamp e buscou atender a todas as demandas de cotas dos diferentes grupos sociais. Assim, as proporções apresentadas foram: 50% de reserva de vagas para alunos de escola pública; sendo que dentro dessa reserva, 35% é para negros ou indígenas e o restante fica dividido entre escola pública e escola pública com recorte de renda. Dentro dos outros 50% ficam reservados 35% para negros ou indígenas; 2% para deficientes físicos e é criado 2% de vagas para um vestibular diferenciado, que contemplará populações indígenas aldeadas, quilombolas, camponesas e/ou tradicionais, respeitando o direito constitucional à uma educação de acordo com a cultura de cada comunidade. Assim o projeto dialoga com todas as atuais demandas dos diferentes movimentos sociais.

O projeto foi protocolado nas instâncias burocráticas e deveria ter sido discutido e votado na última terça-feira (27/06) durante o Conselho de Graduação da USP, instância burocrática da USP que discute ações no âmbito da graduação, inclusive acesso. Diante da pressão dos movimentos pela adesão às Cotas Raciais, a reitoria reagiu e apresentou um projeto de “cotas sociais” pura, sem nenhum recorte racial, de renda e sem o vestibular diferenciado, contemplando apenas estudantes de escolas públicas.

Mais uma vez a USP, através de sua Reitoria, usa de artimanhas e subterfúgios para fugir da demanda histórica por cotas raciais e ignora o projeto protocolado e legitimado pelo regimento de graduação, fruto do debate democrática junto à comunidade universitária e impõe uma proposta de caráter unilateral e inócua,  que com absoluta certeza não incidirá positivamente no aumento da presença negra dentro da Universidade. Pior que isso: a proposta da reitoria fecha os olhos para a dívida histórica desse país e se conforma com a realidade da população negra e indígena. A USP, com essa decisão, reafirma o pé de café e de cana que estão postos na entrada principal da universidade, sempre a serviço da elite paulistana.

Essa postura só pode ser entendida como uma medida de manutenção do privilégio branco e da continuidade do apagamento dos negros e indígenas nos bancos estudantis da USP. É certo que, como já demonstrado em diversas análises e pesquisas, o projeto imposto pela reitoria não tornará a USP menos elitista, dado que as escolas públicas possuem desigualdades entre si. Escolas técnicas e institutos federais nos quais o ensino além de ser de melhor qualidade aglutina estudantes com maior renda familiar são também reconhecidamente melhor estruturadas que a média das demais escolas públicas brasileiras.

A USP não superará o seu elitismo com cotas sociais apenas, pois para se democratizar e promover uma ampla mudança em seu perfil social e racial é necessária uma política determinativa, como se propõe as cotas raciais. A USP mantém sua teimosia racista e insiste em ignorar as experiências exitosas praticadas por dezenas de universidades públicas em todo o país, inclusive pelas co-irmãs Unesp e Unicamp. De nossa parte não faltará empenho em enfrentá-la. Não podemos nos dar por vencidos. O debate final em torno da proposta biônica da reitoria se dará no próximo Conselho Universitário, que poderá referendar a resolução do Conselho de Graduação. Independente deste resultado, nossa luta por cotas raciais se expandirá para os próximos períodos, nos quais sabemos que o debate racial perpassará toda a estrutura universitária. Para tanto, convocamos a participação de todas e todos ao grande ato por cotas raciais na USP, no dia 3 de julho às 18h no MASP – Avenida Paulista – SP.

Vamos, unidos, lutar por uma USP verdadeiramente pública, pintada de preto e urucum

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