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Duas ou três questões sobre mulheres negras, relações não monogâmicas e questões raciais

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Começo esses escritos sobre afetividades das mulheres negras, relações não monogâmicas e questões raciais olhando para minhas próprias memórias, no dia cinquenta e três da quarenta em virtude da pandemia de covid-19. Estou a dois anos num relacionamento heterossexual, aberto e inter-racial. Eu brinco que nós somos iguais, só que ao contrário. Ele, homem branco, olhos verdes, classe média, casa própria, pais universitários. Eu, mulher negra, pele escura, pais com ensino fundamental, vivendo de aluguel. Ele, gosta das imagens, da tecnologia, da comunicação, diz que “chama todo mundo que conhece de amigo”… eu, da escrita, dos livros, da música ouvida em silêncio, conto meus amigos nos dedos. Ele, se diz uma porta, mas tem um coração que cabe até quem não conhece. Eu, que sinto tudo muito, alterno minha empolgação infantil com a com momentos de severa rabugice. Cultivamos juntos o gosto pela terra, pela cultura, pela estrada, por fazer planos, cozinhar e sorrir…, mas talvez isso não importe aqui. Importa que, ao me relacionar com ele e me ver diante de um espelho, igual e invertido, me penso e tento me conhecer num lugar de escolha. E é sobre isso que desejo falar aqui, sobre a possibilidade de escolhas no contexto do racismo estrutural existe no Brasil, esse que nos faz sangrar todos os dias. Essas memórias importam também para anunciar o meu lugar de fala. Falo da perspectiva restrita de uma mulher cis heterossexual, eventualmente bissexual, a famosa bi-festinha, um status pouco louvável, mas um tanto recorrente.

1- Para início de conversa, abordo relações afetivas entre pessoas negras e brancas através do famigerado tema da palmitagem. Na sentença “O homem negro é palmiteiro”, quem é o sujeito? O homem. O palmito, no caso, é a figura de linguagem que busca representar a mulher branca, a pessoa com a qual o homem negro deseja e quer estar num relacionamento duradouro. E onde está mulher negra? A princípio, a gente não aparece nesta sentença. Estamos como sujeitas ocultas, a pessoa preterida na situação a qual não nos cabe escolha.

2- No Brasil, as pessoas brancas tendem a procurar relacionamentos intra-raciais. Homens brancos preferem se relacionar com mulheres brancas. E os homens negros, quando ou em busca de certo nível de status social e econômico tornar-se-iam palmiteiros, preferindo se relacionar com mulheres brancas. Assim, sendo a mulher negra preterida como parceira afetivo-sexual, cabe a ela primeiramente a solidão. Posteriormente, como segunda opção no mercado das afetividades, não caberia a nós muitas escolhas. Grosseiramente falando, nos relacionamos quando dá com e com quem sobra. É bem aquela sensação de mata-mata de final de festa, na noite, só que a vida toda. A realidade das nossas tias, madrinhas e mães. As mulheres negras, de pele retinta, corpos fora do padrão, são as últimas a serem paqueradas. Numa observação de fiz nas redes sociais num grupo que gerenciei por alguns anos que contava com mais de dez mil mulheres do Brasil todo, e na minha própria experiência, com frequência o beijo acontece escondido, no escuro, no fim da noite ou na casa de um dos dois… E não passava dali.

3- Mas se tentarmos pensar as mulheres como agentes da própria história e das próprias relações? As mulheres agindo, não permanecendo nas festas, eventos ou no seu dia-a-dia como peças de carne a espera de serem escolhidas e sim como pessoas que escolhem, flertam, jogam? Seria possível mudar essa regra, questionar o modo como o patriarcado molda a lógica das nossas relações, para não termos mais a mulher negra como um sujeito oculto nessa sentença? A ideia não é tentar responder essa questão agora… vamos conversando…

4- E se, como mulheres negras, por militância ou qualquer outra motivação, escolhemos nos relacionar só com homens negros? Quais seriam as consequências? Qual o peso que a variável raça poderia ter nas nossas escolhas? Olhando novamente para as minhas relações passadas, penso nos homens negros e brancos que já me relacionei e vejo que já lidei com diversas masculinidades. Além da raça, diversas variáveis foram determinantes para pautar o que eu considero como uma relação boa ou ruim. Ele conseguiu rir das minhas piadas (ruins)? Era inteligente? Gostava de música? A gente tinha química? Nosso senso de humor era parecido? Gostava de praia, cachoeira, trilha, filme, pastel, cerveja barata? Ficava feliz com minhas conquistas ou reclamava do meu apogeu? E enfim, era branco ou negro? Era fascista? Votou em quem nas últimas eleições? É óbvio que a raça é uma variável bem importante, e que talvez tenha peso dois, mas ela é uma, em várias outras. Acredito, de forma veemente, que uma mulher negra não deve se manter num relacionamento ruim só porque ele é intra-racial. E a polêmica está lançada!

5- E isso me leva ao próximo ponto. Relacionamentos entre negros e brancos não são a-racializados, justamente por que pessoas brancas não são seres a-raciais por mais que brancos tenham muitas dificuldades com isso. A branquitude tem uma série de comportamentos de grupo que interseccionam raça e classe, como a proteção entre os seus para a manutenção de privilégios, a perspectiva de privilégio relacionado a cor da pele, olhos e cabelo, a polidez do comportamento, a ideia de culpa e negação do escravismo, a ideologia de herança e merecimento, entre várias outras coisas. Estar numa relação inter-racial não significa abrir mão de um relacionamento afetivo politizado, muito pelo contrário. Acredito que a responsabilidade de problematizar o cruzamento entre racismo e machismo fica ainda mais latente, o tempo todo. 

6- E se esse relacionamento for não-monogâmico? Ai lascou, né? Por que, se nesse concorrido mercado das relações afetivas, você, mulher negra-solitária-no-alto-da-torre, consegue arrumar um namorado, ainda deixa ele se relacionar com outra, tá pedindo para ser abandonada, né? Então, eu acho que tem duas questões (que se desdobram em várias outras…). A questão da não monogamia tem que estar muito bem resolvida entre o casal. Além das várias regras a serem combinadas – do contar ou não sobre, quando e com quem você se relaciona, o que e o que não pode ser feito, etc., entre várias outras regrinhas – uma questão crucial que tangencia todas essas relações é a da autoestima da mulher negra. Salvo belíssimas exceções, nós temos uma autoestima muito frágil. Eu brinco que a minha se parece com um boneco de papel: ela pode até parecer grande e bonita, mas qualquer chuvinha a faz desmanchar. Então mesmo que eu esteja numa relação em que junto com o meu parceiro eu escolha saber das relações que ele tenha, isso não significa que não vou ter ciúme, que não vou me sentiu diminuída, que não vou ter medo de perder, mas sim que eu estou disposta a lidar com tudo isso. E que ele deve ter paciência, respeito e muita amorosidade pelo meu processo.

7- Hoje, com trinta e quatro anos é a primeira vez tento me ver no lugar de quem pode escolher, e não apenas de quem é escolhida. De maneira mais profunda, esse lugar de escolher tem haver com uma busca, um caminho que traço para chegar num único fim: como, eu, mulher negra, posso lidar com o racismo estrutural. Sim, a palavra é lidar. Não é lutar, combater, ignorar, esquecer. Mas lidar. Encará-lo, olhar de frente, entender o peso do seu chicote na minha carne preta, curar a ferida, e seguir. Nesses últimos quatro anos me tornei negra num percurso doloroso e solitário. Fiquei embrutecida, depois ri, chorei, e depois ri, fiquei raivosa, e tento seguir. Tantas transições as vezes me fazem joguete do racismo. O mundo é duro comigo como é com todas as pretas, não dá sossego, não me deixa ser, só ser.

8- Comecei a ver na mulher branca meu principal algoz e questionei o sentido da palavra feminismo para mim. Mas tem um movimento dúbio ali…quanto mais dolorida, mais eu me entendia. E percebi que rir e chorar, recolher e expandir, gritar e aquietar podem ser escolhas minhas, e não escolhas que o racista faz por mim. Já há algum tempo eu digo que não quero dar ao racista o poder de apagar meu sorriso, mas quando eu escolho sorrir, estou fechando os olhos e sentando na mesa do meu algoz? De quais mesas eu escolho levantar? E em quais outras eu me recuso sentar? Definitivamente, não compartilho refeição com o racista.

9- Então, nesse caminho todo, veio a possibilidade declarada de ter uma relação pautada na escolha, retomando a questão que eu coloquei no ponto 3. Eu e meu companheiro atual podemos nos relacionar com quem quisermos, sem colocar em questão uma relação que se constrói, que tem planos e que pode criar raiz. Mas isso não se dá num mundo neutro ou tampouco numa bolha que paira sobre a realidade. Sou negra… e se ninguém quer se relacionar com uma mulher negra, imagina com uma mulher negra comprometida? E, ainda, comprometida com um homem branco? É preciso lembrar o tempo todo que ele ocupa estruturalmente um lugar socialmente oposto ao meu: enquanto ele cresceu ouvindo que era um bebê-jhonson e as meninas iam fazer fila na porta para casar com ele, eu cresci ouvindo que tinha o cabelo duro e ia morrer seca! É claro que estou generalizando, mas é apenas para ressaltar que na estrutura das relações sociais vigentes no Brasil atual, ocupamos lugares diametralmente opostos, e seria muito injusto concorrer com isso. Além disso, se ele ocupa o lugar principal, da casa, que lugar estou dando para os meus, homens e mulheres negras, o lugar da rua? Deveria eu, então, abrir mão dessa relação em prol da coerência, da luta política?… ou por medo do racismo? Taí (mais) uma questão dolorosa, para a qual eu não tenho resposta…

10- Se eu desistir da palavra luta, que tanto nos aprisiona pois evoca outra tão complicada, que é a força, e me voltar para lidar, seria possível me permitir viver outras formas de afeto? Quase envergonhada, assumo que me questiono se ele, meu companheiro atual, um dia vai acordar e ver que, na verdade, ele quer estar do lado de uma moça branca dessas típicas da esquerda-festiva, aquela coisa meio alternativa e supostamente desleixada, que adora praticar um racismo recreativo, se empoderar e se sentir livre a custa do seu corpo padrão, bem o tipo de moça que me trata mal e da qual eu tenho memórias recentes de racismo. E por ‘poder’ fazer isso, ele livremente vai e traz para o meu mundo essa potencial algoz. É possível não ouvir esses pensamentos e pensar nas escolhas que eu faço e deixar que ele lide com a suas escolhas? Enquanto mulher, qual o limite das escolhas que me são possíveis fazer?

11- Tenho percebido que minha solidão é outra. Lendo e conversando com outras mulheres negras, vejo que nossa solidão passa por vários caminhos, como da menina preta do parquinho, que brinca sozinha, que busca areia e constrói o próprio castelo, derruba, e constrói de novo. E nem sempre quer ajuda para buscar areia nem nada, por que aprendeu que brincar sozinha pode ser bem gostoso. Mas se alguém quiser construir um castelo do lado do meu, que bom!…quem sabe pode ser legal….se não, tudo bem. Vida que segue. Não tem a ver com não planejar, não sentir, se tornar amorfa, fingir que não liga. Tem a ver com entender que a vida tem dias de Rio Preguiça (pra quem não conhece, é o rio mais cheiroso do mundo, fica nos Lençóis Maranhenses…) e outros de mão dolorida digitando num teclado endurecido, e tudo bem! O fluxo existe, e isso não depende de mim. Mas como viver esse fluxo é escolha minha.

12- Retomo então a questão que talvez é central aqui: como lidar com o racismo estrutural, que me desumaniza, que me torna destituída de escolhas, me torna sistematicamente preterida e me objetifica? E como isso se reflete nas minhas relações? É possível viver um relacionamento aberto sem estar apenas reiterando o privilégio branco e o preterimento negro? Posso então eu, escolher amar homens, mulheres, negros e não negros, amar meu corpo, mostrá-lo quando quiser, construir e derrubar os meus castelos…posso deixar suas portas abertas sem que o medo do racismo me torne fechada no meio de fosso lotado de jacarés?

13- Ok. Foram um pouco mais de três questões. E agradeço a quem chegou até aqui. Compartilho com meu leitor ou minha leitora, negra ou não negra, a impressão de que talvez seja pretencioso achar que não vamos sofrer com o racismo. Que não vou me decepcionar com as limitações dos instáveis aliados brancos. Que a solidão e a rejeição não vão entrar com força, derrubando a porta construída com a madeira frágil de uma autoestima desgastada. Mas hoje, me proponho, com cuidado, tentar, e estendo esse convite a outras moças e moços negros. Por aqui, o moço que se diz uma porta, com sua simplicidade característica, me recebe na sua casa, e tenta comigo achar um caminho do meio. Penso que esse é um passo importante para que eu consiga entender mais meus movimentos e como se dá o amor para mim, em mim e por mim.

 

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