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“É papel do artista saber onde estamos e para onde vamos”

por Kátia Mello

A goiana Mirelle Martins, de 34 anos, ganhou o mundo e se tornou uma performer internacionalmente reconhecida quase que por um mero acaso. Aos 28 anos, quebrou o joelho e após uma pausa forçada, resolveu abandonar sua carreira estável de publicitária em São Paulo para mergulhar no mundo da dança. Partiu para Nova York onde foi ter aulas de gaga– movimento criado pelo israelense Ohad Naharin e realizado pela conexão entre o corpo e a mente- e conheceu o coreógrafo americano Shamel Pitts de quem se tornaria parceira de trabalho para uma série de espetáculos, entre eles Black Hole – Thrilogy and Thriatlon, a última performance de uma trilogia iniciada em 2015 a ser apresentada neste sábado 12, às 21h, e domingo 1, às 20h, na Sala Itaú Cultural, em São Paulo.

Nesta entrevista à coluna Geledés no debate, Mirelle conta como uma menina negra rompeu barreiras, encontrando sua vocação e abrindo espaço para a reflexão sobre os corpos negros na arte.

Barak Aharon

Geledés – Como foi sua infância e juventude e o que trouxe dessa vivência para seu trabalho na dança?

Nasci em Goiânia, sou a segunda filha de um casal de origem rural e humilde. Minha mãe veio do interior de Goiás e meu pai do interior da Bahia. Tive uma infância pobre, mas sem faltar nada. Meus pais, mesmo diante das dificuldades econômicas, sempre tiveram um objetivo muito claro em nos dar uma boa educação. Meu pai sempre falou para mim e minha irmã que precisávamos estudar e nunca sermos dependentes financeiramente de homens. Eu era boa aluna e desde sempre tive esse incentivo para fazer o que quisesse. Cursei comunicação social em Brasília para onde me mudei em 2002.

Geledés – O que a fez abandonar uma carreira de publicidade estável para, aos 28 anos, decidir ir atrás de um curso de dança em Nova York?

Olhando para trás, percebo o quão jovem a gente faz escolhas que parecem ser para a vida inteira. Naquela época, eu já achava isso angustiante. Optei pela publicidade por ser um curso muito eclético. No segundo semestre, comecei a trabalhar em Brasília, como redatora, e assim foi durante 13 anos. Como as maiores agências ficavam em São Paulo, aos 25 anos, desembarquei na cidade. Mas chegou a um momento em que percebi que não estava feliz, trabalhando até de madrugada para algo que não era vital, como ser médica. Comecei a fazer cursos de produção cultural para curadorias, mas ainda não era isso. Eu queria fazer arte mesmo. Aos 28 anos – uma data que se diz que você morre ou nasce de novo, como foi com (os cantores) Kurt Cobain, Janis Joplin, Amy Whinehouse, começaram a cair algumas fichas. A vida estava confortável, tinha o apartamento que sempre sonhei, meus gatos, minha rede, o que validavam a minha existência, mas não era aquilo. Comecei, então, realmente a me liberar dos meus medos. Fiz o compromisso comigo mesma de não fazer concessões e de não me contentar. Às vezes, a gente se acostuma a reclamar, mas não a pensar no que realmente quer. Quebrei a patela esquerda, bem no joelho e o processo de recuperação entre 40 e 60 dias, me levou a refletir, inclusive sobre como o corpo é poderoso. E como eu já estava nessa ideia de não reclamar, pensei como poderia fazer o contrário? Na hora, me veio a dança, algo que nunca tinha feito.

Geledés – Como conheceu o coreógrafo novaiorquino Samuel Pitts e o que ele trouxe para sua vida pessoal e profissional?

Ao procurar cursos sem experiência, apareceu (o método) gaga e ao entender a proposta, me apaixonei. Não só pela estética visual, mas a proposta conceitual da linguagem. Foi a primeira vez que fui à Nova York, e assim que entrei na sala de aula, avistei Shamell (Pitts). Tenho o costume de procurar outros negros nos ambientes em que circulo, e assim foi como eu o vi entre os outros 60 estudantes, do outro lado do salão, mas achava que ele era aluno e não professor. A nossa parceria começou nesse momento: no olhar. Até então, eu nem imaginava que me tornaria uma performer. Mas foi a liberdade de ir para um campo totalmente diferente, de construir minha própria história, que me motivou e também o fato de não me acomodar naquilo que eu já sabia.

Shamel tinha um distanciamento natural com os alunos. No quarto dia de classe, perguntei se ele gostaria de levar suas aulas para o Brasil. Fomos tomar um café e mesmo vindo de universos diferentes –  ele um super premiado e eu começando as aulas, -, a gente se uniu na questão em que, como negros, não nos víamos representados naqueles ambientes. Havia um desejo artístico dos dois de nos apresentarmos fora das caixas, porque também há estereótipos sobre como os negros devem se apresentar na dança. E todos esses aprisionamentos nos incomodavam muito. A gente também tem idades parecidas e ambos viviam incômodos, o que ajudou a criar uma ponte. Ele voltou para Tel Aviv, em Israel, onde trabalhava, e eu regressei ao Brasil.

“A diferença entre um negro em Nova York e um negro na Bahia está na parada de um navio. No espetáculo, dizemos que algumas estruturas precisam ser quebradas para poderem ser reconstruídas. E não adianta só falar mal das estruturas, precisamos reconstruí-las.”

Barak Aharon

Geledés – Como criaram, então, o espetáculo Black Velvet, que coloca luz sobre a identidade negra?

Dois anos depois, em 2015, depois de uma intensa troca de emails, Shamel veio ao Brasil para a primeira edição do curso gaga e apresentar seu espetáculo Blackbox. Voltou a Israel, mas ficou a proposta de uma continuação desse espetáculo dentro da mesma estética, com a minha participação.O convite foi uma surpresa e a partir desse momento, me preparei para a criação e produção do que seria mais tarde Black Velvet. Viabilizei a residência artística de Shamell e durante dois meses bastante intensos e com sua generosidade e inspiração, conseguimos fazer esse trabalho. Criamos juntos e nos apresentamos no Teatro Sérgio Cardoso.

Geledés – Do que, afinal, fala Black Velvet?

É o segundo trabalho da trilogia, o primeiro foi um testemunho solitário, um solo de performance poética de Shamel, sua caixa de pandora, com seus segredos e confissões. Quando ele começou a apresentar esse primeiro trabalho, de imediato  percebeu que tinha como incluir um personagem feminino no próximo espetáculo. Em Black Velvet, o subtítulo arquiteturas e arquétipos já dizia que não era para limitar quem é o homem e quem é a mulher, quem conduz e quem é conduzido. Fizemos esse trabalho com as cabeças raspadas e o dorso nu, sem a vestimenta, com o orgulho e força da própria pele negra. A cor da pele é a plataforma para alçar nossa humanidade. Como artistas negros, a nossa pele é o tema; é a identidade em construção. A minha estada nos Estados Unidos me fez observar que há uma conexão na identidade do negro na América, sejam negros norte americanos ou caribenhos, uma conexão de nação. A gente compartilha vivências neste continente que são muito similares. O fato de eu ser brasileira e Shamel americano não foi em nenhum sentido uma barreira. A diferença entre um negro em Nova York e um negro na Bahia está na parada de um navio. No espetáculo, dizemos que algumas estruturas precisam ser quebradas para poderem ser reconstruídas. E não adianta só falar mal das estruturas, precisamos reconstruí-las.

“Fiz o compromisso comigo mesma de não fazer concessões e de não me contentar. Às vezes, a gente se acostuma a reclamar, mas não a pensar no que realmente quer.”

Barak Aharon

Geledés– Qual a mensagem de suas apresentações ?

Sempre o que a gente ouve é esse caráter humano das apresentações, é trazer essa experiência amplificada. Essa sensibilidade de levar essa humanidade para o palco tem emocionado as pessoas. E isso me deixa muito feliz, porque o que me fez abraçar o trabalho corporal é porque ele não precisa de tradução e não há mal entendidos. E me ajudou a lidar com a minha própria imagem, no sentido da minha potência, de minha negritude. Mais do que ideias, é importante a presença de nosso corpo negro que também tem muita história.

Geledés – Como explica a linguagem gaga, criada pelo coreógrafo israelense Ohad Naarin?

Gaga é uma linguagem de movimento e não uma técnica, com cerca de 15, 20 anos, e que ainda está em construção. Ela não almeja ser uma nova linguagem, pois agrega vários conhecimentos de forma a conectar o corpo ao seu interior. É um trabalho de escuta do próprio corpo antes de dizer a ele o que tem a fazer. É desbloquear e desaprender hábitos corporais. Muitas pessoas que fazem, inclusive aquelas que nunca dançaram, dizem que se aproxima à meditação, à desconexão da potência interna, ampliando a imaginação para criar movimentos. Nesse espetáculo, Shamel é o coreógrafo e há um trabalho de se opor à gravidade. Se quiser saber mais, veja o filme, Gaga, um amor pela dança, que conta a história de Ohad.

Geledés – O que diria à uma menina negra que tem o sonho de se tornar bailarina?

Vá em frente. Infelizmente ainda estamos vivendo a primeira mulher negra a fazer X ou Y. Há muito espaço ainda para ocuparmos. Não se deixe abalar. Se não tiver ninguém em quem se espelhar, faça você mesma a sua história. Sobre a dança, eu indico procurar as companhias com boas formações, porque o Brasil tem isso e sempre entre em contato com sua sensibilidade. Faz parte do nosso trabalho, meu e do Shammel, criar plataformas para artistas pretos se apresentarem. Eu adoro vibrar e ver trabalhos de outros artistas negros e espero que venham celebrar nossa força, nosso vigor, assumir esse orgulho negro. Não temos a pretensão de representar todos, mas de abrir caminhos, novas experiências.

“Fizemos esse trabalho com as cabeças raspadas e o dorso nu, sem a vestimenta, com o orgulho e força da própria pele negra. A cor da pele é a plataforma para alçar nossa humanidade. Como artistas negros, a nossa pele é o tema; é a identidade em construção.”

Barak Aharon

Geledés – De que forma a arte se torna resistência?

Preferimos mais agir a reagir. Pode parecer só um jogo de palavras, mas não é apenas apontar o que está ruim ou os culpados e não construir nada de novo. A arte tem o poder de ver o que ainda não está lá. Nesse momento em que a política está tão provocante, é papel do artista se distanciar e ver a figura por inteiro. Entrar numa reflexão mais profunda de onde estamos e para vamos.

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