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Elza Soares foi uma mãe para as mulheres negras, cantou seus amores e dores

Sambista sabia que sua existência era pedra no sapato do país que foi obrigado a reverenciar o seu talento

Djamila Ribeiro (Foto: Victor Affaro)

Elza Soares foi gigante. A maior do milênio. Incomparável. Eterna.

Foi uma mãe para as mulheres negras. Cantou as nossas potências, o nosso amor, dores e medos. A nossa fúria, tristeza, indignação. Do “planeta Fome”, ela se espalhou pelo mundo, rasgando como água indomável as cantigas existenciais das mulheres negras brasileiras. Junto a ela, fomos.

Escrevo muito emocionada, não sei dimensionar ao certo o que essa mulher do fim do mundo significou na trajetória do povo brasileiro, na trajetória das mulheres negras brasileiras.

Elza Soares – Foto: Patrícia Lino/Divulgação

Nos momentos mais difíceis, Elza estava lá, cantando sobre nossos guris. Chico Buarque compôs de forma genial e foi na voz de Elza que a canção encontrou sua morada. No país em que meninos caem nas mãos do Estado racista, sua voz foi cura, foi denúncia e motivo para continuar. Nas horas em que sambamos de alegria, ou sambamos para abstrair, foi com ela que gingamos nossas cadeiras. Nas juras de amor, Elza. Durante nossas vidas, de tantas gerações diferentes, Elza.

Conviver em momentos (mais breves do que gostaria) nos últimos anos foi uma honra. Quando a conheci, já havia ido a seus shows em Santos e já havia tretado muito na internet em sua defesa. Nós festejaremos seu legado imenso, mas o Brasil racista não vai se eximir do que fez com ela. Sim, apontaremos os dedos.

Em um desses episódios em sua defesa, tive a alegria de saber que ela havia lido o texto e amado. Ela me convidou para escrever a resenha de seu álbum “Mulher do Fim do Mundo”. Na música título do álbum, Elza rasgava “na avenida, deixei lá/ a pele preta e a minha voz / na avenida, deixei lá/ a minha fala, minha opinião”. E, no refrão, já anunciava “eu sou, eu vou até o fim cantar/ eu vou cantar até o fim”. Parafraseando Elza, o nosso país é nosso lugar de fala.

Conheci a artista pouco tempo depois, em uma sala reservada, um momento de imenso aprendizado sobre obstinação de quem viveu muito e queria viver muito mais. Elza sabia que sua existência permanecia uma pedra no sapato do país que foi obrigado a reverenciar o seu talento transcendental.

Como disse Rodney William ao prestar suas homenagens, “quem apostaria na menina franzina, recém-chegada do ‘planeta Fome’, coberta de alfinetes e com as marcas de cada dor cravadas no corpo?”. “Era um ser ínfimo, até que sua voz arrebatasse os mais incrédulos e a lançasse à vida intensa e apaixonada de uma estrela reluzente.”

O babalorixá e antropólogo lembrou a origem de Elza na comunidade de Padre Miguel, no Rio de Janeiro, cujo samba do último Carnaval homenageou sua estrela maior. Até o fim, enquanto cantou, a mulher do fim mundo cantou por Exu nas escolas, atrevida e genial como foi.

Em sua homenagem, Rodney William escreveu “estrela grandiosa conduzindo o povo de Padre Miguel, mulher plena em seu lugar de fala, aconselhando malandros, clamando por Exu nas escolas”. “Transpor foi seu verbo e, ao transcender, revigora a chama da luta que não só a moveu, mas que também motivou tantas Marias a descer o morro e brilhar no asfalto, ainda que fosse só por uma noite de Carnaval. A arte, a política, a fazem eterna. E na batida do surdo da bateria da Mocidade Independente, um adeus.”

Sua morte é apenas física de uma vida longa e que, fenomenal, está divinizada. Para os católicos, Elza fez milagres. Seu principal foi provar que Deus é mulher. Para nós, do candomblé, se divinizou e voltou à sua mãe Iansã, a senhora dos ventos e das tempestades, que sai pelo mundo e pinga vermelho por onde anda.

Sua chegada ao Orum está pronta. Os atabaques estão assentados e a festa é garantida. Vai ter música, samba, choro e muita festa para celebrar a chegada da maior brasileira de todos os tempos. Viva Elza Soares, obrigada por tudo, amaremos você para sempre!

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