Em caso de despressurização racial, máscaras antirracistas cairão automaticamente!

Fotos: @enredo.fotografia

“Sim. Eu corri para não ser rotulada. Corri da violência doméstica, das escolas de brancos, da  humilhação na sala de aula, dos assédios, das portas fechadas, dos enquadramentos eurocêntricos, dos vícios, da cidade que não oferece oportunidades e das relações abusivas. A partir de um tempo, meus pés sagraram tanto, que não pude mais correr. Mas, logo percebi que tenho asas e comecei a voar.”

Começo esse texto agradecendo às minhas irmãs, tias, primas, orientadoras e a todas as mulheres negras, especialmente, à minha mãe pelo apoio e estímulo que sempre me deram, para que eu não tivesse medo de abrir as asas e me deixasse conduzir por elas em voos cada vez mais altos.

Durante um tempo, as impactantes reverberações do racismo e da opressão de gênero quase me convenceram de que eu jamais conheceria outros lugares. Minha família sempre gostou muito de viajar. Assim, meus pais e tios juntavam dinheiro o ano inteiro para passarmos poucos dias das férias, nas praias do Espírito Santo ou do Rio de Janeiro. No entanto, eu sentia que a Região Sudeste onde nasci não me limitaria.

“Olhe preta! Fique quietinha, pois ninguém aqui vai alforria-la. Aceite o lugar onde você está e para de tentar se elevar!”

Em cada uma daquelas viagens, eu ficava pensando em como ampliar meu campo turístico. Estas reflexões culminaram na vontade de trabalhar com algo que me permitisse estar em constante movimento, mas que também, me afastasse o máximo possível da violência estabelecida no meu ambiente familiar. E como o sonho de ser pilota já se delineava no meu interior, lancei-me em busca de informações a respeito da existência (ou não) de mulheres atuantes na pilotagem de aeronaves.

Oh, nega! Olhe para você! Pergunte quem  foi Bessie Coleman e ninguém poderá dizer. Mas, você encontra fotos da Amelia Earhart  em todos os lugares!

Minha mãe veio do interior de Minas Gerais para trabalhar como doméstica na casa de uma mulher que chamávamos de “tia Mundinha”. Esta senhora sempre contava histórias sobre suas viagens internacionais e doava suas roupas usadas, compradas no exterior, para mim e minhas irmãs. Entre essas doações havia um conjunto de roupas da marca Nike, comprado na Disneylândia, que eu adorava por fomentar meu sonho de conhecer aquele famoso local.

“Eu vejo pretas limpando avião e o chão, mas querer ir pra Disney? É demais… Querer dominar a física? É demais”!

Cresci com uma nítida consciência das minhas raízes, mas estas, além de não me prenderem, sempre me instigaram a desbravar outros territórios, culturas, saberes e, especialmente, o espaço aéreo. Então, desde pequena, enquanto a maioria das pessoas pareciam contempladas em olhar para o céu buscando saber sobre a proximidade da chuva, para apreciar o nascer e/ou o pôr do sol, e ainda, para depositar suas esperanças e preces nas infinitas dimensões eu via o céu como um atraente espaço, no qual eu desejava transitar.

Até a adolescência, minha vida foi marcada pela postura crítica que a expressão do senso comum: “abaixo do céu somos todos iguais” despertava em mim. No entanto, conforme os fatos que serão apresentados ao longo deste texto, esta criticidade passou a direcionar meus posicionamentos diante das situações vivenciadas no ambiente de trabalho. Já que o conteúdo dessa frase afirma a falsa ideia da existência de uma democracia racial no Brasil, sugerindo a resignação e passividade da população, frente aos interesses que a branquitude elitizada sempre teve em manter absoluto domínio sobre a aviação e o espaço aéreo.

“Mas, preta não é nada com você. Você até que é aceitável, por se uma típica ‘mulata-exportação’. Eu até gosto de contratar você, porque assim, os gringos entendem que o Brasil tem coisas boas para oferecer e se animam a fazer turismo aqui!”

Quando cheguei à maioridade, minha irmã Larissa, que é mais velha do que eu e sempre usou dreads já trabalhava na Coordenadoria de Combate ao Racismo, que funcionava no mesmo prédio onde havia uma escola de formação de comissárias(os) de bordo. Atendendo ao meu pedido, Larissa foi até a secretaria daquele curso em busca de informações, mas um recepcionista disse que ela não tinha perfil para profissão. 

“Mas, nega você não pode voar. Os seus vieram para cá em um navio negreiro, e você quer dominar o ar?”

Este fato desencadeou grande indignação em mim e na minha irmã, pois, se em função do racismo, o imaginário social faz com que o perfil de uma aeromoça seja idealizado de acordo com os conceitos de beleza estipulados pela hegemonia branca, e não, pela competência profissional. O que poderíamos pensar sobre as restrições socialmente impostas a uma mulher negra e de família pobre que se proponha a exercer a profissão de pilota?

“Você sabe como é… Para andar de avião tem que estar no padrão. Não pode ter o cabelo muito crespo, o nariz chato demais. Também não dá para ser gorda, baixinha ou muito alta e, principalmente, não pode ser preta demais.”

Tais reflexões somaram-se à concreta falta de referências sobre mulheres pilotas, fortalecendo minhas dúvidas sobre meu potencial. E desta forma, mesmo indignada com a presença do racismo e resultante preconceito até na fase de formação de profissionais da aviação, senti-me descrente quanto à possibilidade de realizar o sonho de ser pilota e acabei fazendo o curso de comissária de voo. 

Mas, a situação de racismo ocorrida com minha irmã e indiretamente comigo foi apenas a primeira das muitas vezes que sofri e vi minhas(meus) colegas negras(os/es) sofrerem racismo na aviação. E isto mostra a importância de se realizar formações étnico-raciais e de gênero para o corpo de profissionais desta área de trabalho, quanto para o seu público.

A história da aviação no Brasil mostra o céu glamourizado pela branquitude. Quando observamos esse fator na perspectiva das desigualdades resultantes do racismo, percebemos que para dominar o espaço aéreo, a hegemonia branca mantém o controle da aviação estabelecendo-se no poder militar e, através dele, garantindo a hereditariedade que define as pessoas que irão ocupar os cargos de destaque no comando dessa área profissional. Desta forma, a maioria dos(as) pilotos(as) é branca e filha ou neta de pilotos(as) militares brancos(as). 

“Por acaso, você está pensando que vou assentar-me na primeira classe, ao lado de um preto fedido?”

A branquitude elitizada, que no passado sentiu-se tão “dona da aeronáutica” e do céu que chegou a criar uma moda de vestuário para ser usada especificamente nos aeroportos permanece apoiada na sua falsa superioridade, ilustrando saudosas narrativas sobre “o tempo de apogeu da aviação” com saudosos suspiros, e afirmado:

“Rodoviária é para os pretos, aeroporto para os brancos e ponto final. Não queremos mais falar sobre isso”.

Esses fatos não só dificultam qualquer debate sobre equidade racial e de gênero, igualdade, direitos e cidadania nos processos de formação profissional, como inviabilizam uma justa distribuição de cargos e comprometem a realização de significativas mudanças nas condutas e relações profissionais no campo da aviação, pois, até agora, dentro de uma aeronave, tudo é padronizado, desde a demonstração das normas de segurança, as formas de uso dos cabelos e da maquiagem, e até a distribuição dos passageiros de acordo com a localização das poltronas. Ou vocês acham que os pretos sempre são destinados aos assentos do fundo por mera coincidência?

“No caso de uma família rica que viaja com criança e uma babá preta, esta deverá ser instalada na classe econômica depois que fizer a criança dormir, mas, se a criança acordar, ela terá que descumprir as normas de segurança da aeronave e dirigir-se à primeira classe, para cuidar da criança.”

“As babás têm muita sorte! Onde já se viu ganhar uma viagem com tudo pago América do Norte?”

 

Mas esse contexto estruturado pelo racismo, o machismo e suas desigualdades sempre encontrou reações. Assim, os esforços pessoais somados às resistentes lutas travadas pela população negra brasileira têm implicado gradativa inserção de homens e mulheres negras na aviação, tanto na condição de passageiros(as), quanto como tripulantes. Mesmo assim, a presença negra nesse campo profissional ainda é inferior a 5%, enquanto que as mulheres negras pilotas somam cerca de 2% apenas, em relação às brancas.

“Preta, cá para nós, vocês andam em bando. Se eu aceito você na cabine hoje, amanhã terá mais um tanto querendo entrar aqui.”

Conheci um homem negro que trabalha como faxineiro de aeronaves, durante o voo que o levava ajudar na limpeza de algumas aeronaves em outro estado, onde não haveria um número suficiente de faxineiros(as/es) locais naquele dia. Notei que ele estava um tanto inquieto e o indaguei sobre quantas vezes ele havia viajado de avião, E ele respondeu, demonstrando um misto de constrangimento e felicidade, que aquela era a sua primeira vez em 10 anos de trabalho na área da aviação, pois ele sempre entra, faz a faxina e sai das aeronaves enquanto elas encontram-se paradas no chão.

O relato desse homem negro não apresenta um caso isolado, pois, esta é a história de muitos outros(as/es) negros(as/es) que trabalham na faxina de aviões, em todo o Brasil. E o que esta situação revela é a terrível força do racismo definindo, inclusive, os lugares (se no chão ou no céu) e cargos onde as pessoas negras podem ser toleradas no campo da aviação.

Porém, ao longo dos meus oito anos de trabalho como comissária de bordo, também tenho observado uma série de fatos implicados pelo racismo, em relação aos(às) passageiros(as/es) negros(as/es). As danosas afetações psicossociais que o racismo causa nessa pequena parcela do grande público da aviação costuma entrar nas aeronaves com muito temor e demonstrando não se sentirem pertencentes àquele ambiente. De fato, frequentemente, essas pessoas recebem um tratamento um tratamento fortemente orientado pelos ideários preconceituosos gerados pela interseccionalidade de raça, gênero e classe.

Enquanto que nos aeroportos e aviões, os(as/es) brancos(as/es) demonstram sentirem-se totalmente “em casa”, e olham a pequena parcela de negros(as/es) com deboche, indignação e/ou estranhamento, fazendo piadas extremamente preconceituosas ou pedindo para trocarem de lugar:

“Agora parece que aeroporto e avião viraram rodoviária e ônibus!” 

Esses e muitos outros fatos que elucidam as formas de reprodução do racismo (e do machismo, “lgtbqia+homofobia”, misoginia) constituem a minha história que tenho construído através do meu trabalho como comissária negra. E mostram a urgente necessidade de medidas que visem o estabelecimento de condutas antirracistas, também na aviação civil. 

Fotos: @enredo.fotografia

 

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Pela primeira vez na história do Brasil, haverão bolsas de estudo para negros de baixa renda fazerem o curso de comissário de voo.

 

 

Crédito das fotos: 


Referências

Fala de Paulo Guedes – Ministério da Economia:

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/02/domestica-nao-tem-como-ir-a-disney-com-salario-de-r-1200-diz-entidade.shtml

 

Racismo na companhias aéreas : https://www.instagram.com/tv/CGvX_2oAhjO/?igshid=wcp0u46gkniv

https://www.instagram.com/tv/B8MUKUzHoSW/?igshid=1h833yjt5dc3n

https://instagram.com/atelienanassa?igshid=c9os7bgqhpz7

https://g1.globo.com/bahia/noticia/ator-erico-bras-ganha-acao-de-dano-moral-apos-ser-retirado-de-voo-na-bahia.ghtml

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
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