“Está explícito um medo no ar”

(Foto: Rafael Arbex/Estadão Conteúdo)

Aos 73 anos, a poeta, romancista, contista e ensaísta brasileira Conceição Evaristo reflete sobre o momento contemporâneo de isolamento social e incertezas: “Não estou atravessando esse momento e sim esse momento está me atravessando”.

Você parece ser uma mulher forte. Do que tem medo?

As pessoas fortes podem ter muitos medos. O medo tanto pode nos fortalecer, como nos enfraquecer. Há um medo que nos paralisa e há o medo que nos encoraja, nos impulsiona. No meu caso, tenho medo de adoecer, de morrer antes da hora (quero viver muito, ficar bem velhinha). Quando viajo de avião muitas vezes, em pleno voo, sou tomada por um medo profundo. Gosto da imensidão das águas, mar, rios, lagoas. As águas me atraem, mas tenho medo dos mistérios das águas.

Você nasceu em uma família pobre e afrodescendente em um país racista e desigual como o Brasil. Já teve medo de não conseguir se afirmar como escritora?

Gosto de escrever desde criança, mas nunca tive medo de não conseguir ser escritora, porque ser escritora não estava nos meus planos, sempre quis ser professora. Tornei-me escritora por acaso, na década de 1990, depois que publiquei meus contos e poemas na série Cadernos Negros, mas, para mim, o que me faz escritora de fato é saber que tenho um público leitor bem diverso, que se sente convocado pela minha escrita.

O que o medo nos ensina? Como podemos convertê-lo em coragem?

Não sei bem o que o medo nos ensina no exato momento em que o estamos vivenciando. Creio que o ensinamento do medo é o mesmo ensinamento que podemos tirar da pobreza. Tenho dito que a pobreza pode ser um lugar de aprendizagem, mas apenas quando essa condição é rompida. Ou seja, essa experiência de viver na miséria, na carência, só é válida quando conseguimos sair dela, quando rompemos as barreiras que nos são impostas por essa condição. É preciso vencer a pobreza, vencer o medo, para retiramos a positividade dessas experiências.

Em relação à coragem, elas nos ensina que precisamos suplantar o medo em qualquer ocasião. E muitas vezes temos de usar de artifícios, como naquele ditado popular “fingir de morto para enganar o coveiro”. Ora, se tenho medo do coveiro, finjo de morta e, enquanto ele prepara a cova para me enterrar, vou buscando uma estratégia para fugir dele, aguardo um momento de distração do monstro.

Vivemos dias de incerteza e isolamento social. Como você está atravessando esse momento? Está conseguindo escrever?

Estou vivendo muito mal. Não estou atravessando esse momento e sim esse momento está me atravessando. Não estou conseguindo gerir o tempo que me sobra em meio à rotina da casa, é difícil me concentrar. Antes da quarentena, o que mais desejava era tempo para escrever o romance e o livro de contos que já havia iniciado, mas até agora não consegui acrescentar uma linha aos textos. Para mim, está explícito que há um medo no ar, há um medo em cada uma/um de nós. O medo maior talvez não seja o da doença e sim o da morte. A morte ronda a humanidade.

Negamos nossos medos?

Nesse momento que vivemos, uma parcela da população pode até disfarçar o medo, pode acreditar em quem diz que tudo não passa de uma “gripezinha”… Negar o medo pode ser uma forma de escamotear o pavor. Agora, quem historicamente vive na “corda bamba”, como determinados grupos sociais, sabe desde sempre o que é o medo. Cito só um exemplo: as mães, as tias, as irmãs, as namoradas, os pais, isto é, a família em suas diversidades de formação, sofrem pavorosamente quando um jovem negro sai do interior de casa e ganha a rua, saindo para o trabalho, para a escola ou para a diversão. Isso independe de pandemia, é, infelizmente, uma realidade brasileira.

A literatura pode converter medo em força?

Acredito que sim. Minhas narrativas falam de medo e de coragem, as personagens vivenciam esses dois extremos. Exemplifico isso com dois trechos do livro Poemas da Recordação e Outros Movimentos. Em Só o medo, digo: Só temos o medo/só o medo/o medo de sermos corajosos./ De sermos medrosos/também o medo. Em outro trecho desse mesmo livro, sem título, escrevo: Em meio ao medo instalado e à necessária coragem, ensaiamos movimentos ancorados na recordação das proezas antigas de quem nos trouxe até aqui. E, apesar das acontecências do banzo, seguimos. Nossos passos vêm de longe. Sonhamos para além das cercas. O nosso campo para semear é vasto e ninguém, além de nós próprios, sabe que também inventamos a nossa Terra Prometida. É lá que realizamos a nossa semeadura. Em nossos acidentados campos – sabemos pisar sobre as planícies e sobre as colinas – a cada instante os nossos antepassados nos vigiam e com eles aprendemos, atravessar os caminhos das pedras e das flores. É deles também o ensinamento de que as motivações das flores são muitas. Elas cabem no quarto da parturiente, assim como podem ser oferendas para quem cumpriu a derradeira viagem.