Estilhaçar as máscaras do Silenciamento

FONTEPor Nívia Tôrres Neves de Carvalho, enviado ao Portal Geledés
Anastácia (Pintura de Jacques Etienne Arago)

“nossa fala estilhaça a máscara do silêncio”

(Conceição Evaristo, 2017)

De que maneira a Máscara de Flandres se reinventa nos dias de hoje?

Esse instrumento de subjugação, dentre outros objetivos, visava no contexto da escravização retirar principalmente o direito à fala, colocar no lugar de mudez e de pânico, alimentando uma relação cíclica entre silenciamento e tortura por meio de diferentes estratégias e táticas, por vezes sutis, de sujeição. A boca, portanto, a voz é um dos principais alvos.

A máscara simboliza cenas dessa sujeição-colonial e se materializa ganhando outros nomes nas relações e nos modos como as mesmas correspondem e são estruturadas no mundo moderno. Em outras palavras, envolve o sadismo, a dominação, o poder dominante, o narcisismo, o brutalismo e suas formas cruéis de exilar a subjetividade e a vida dos chamados “Outros”.

A boca além de simbolizar a fala, a representação, a voz, por meio da qual criamos formas de re-existências e possibilidades de se afirmar sujeito de direitos negados ao longo do tempo, se torna o principal órgão de opressão, o qual, querem e precisam controlar, logo, o órgão que historicamente tem sido severamente censurado. É necessário lembrar que essa lógica se reinventa a todo instante. E mais que isso, é preciso nomeá-la.

A subjetividade branca no jogo desigual pela manutenção do poder se vê ameaçada e mantém a lógica colonial por meio do autoritarismo e outras formas possíveis. Esse é, inclusive, o processo de negação, o qual foi colocado o projeto de violência às pessoas colonizadas, escravizadas e subalternizadas. O processo de negação, que recusa reconhecer em si o mecanismo de dominação, trata-se da defesa do ego comumente alimentado pelo narcisismo. Como Grada Kilomba diz, o colono tem repulsa da linguagem emitida pelas pessoas negras.

Que possamos fazer das possibilidades um espaço garantido pela língua e suas multiplicidades – ato em sua dimensão política de manutenção da vida! Um espaço da abertura, do imprevisível, da potência e do afeto.

Referências Bibliográficas:

EVARISTO, Conceição. Conceição Evaristo: Minha escrita é contaminada pela condição de mulher negra. Nexo Jornal, 26 maio 2017. Acesse em: https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2017/05/26/Concei%C3%A7%C3%A3o-Evaristo-%E2%80%98minha-escrita-%C3%A9-contaminada-pela-condi%C3%A7%C3%A3o-de-mulher-negra%E2%80%99

FANON, Frantz. Pele negra máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.

GLISSANT, Édouard. O pensamento do Tremor: La CohéeduLamentin. Tradução de Enilce Albergaria Rocha e Lucy Magalhães. Juiz de Fora: Gallimard, 2014.

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Editora Cobogó, 2020.

MBEMBE, Achille. Crítica da Razão Negra. Tradução de Marta Lança. 2a ed. Lisboa: Antígona, 2014.

NOGUEIRA, Isildinha Baptista. A cor do inconsciente: significações do corpo negro. 

Editora Perspectiva S/A, 2021.


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