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Fashion Rebels: A geração tombamento da África do sul

Fashion Rebels: A geração tombamento da África do sul

A geração tombamento está com tudo, propagando o fortalecimento, reconhecimento e empoderamento estético entre negras e negros em diversas regiões do Brasil. É possível observar essa tendência nas avenidas e ruas, nas mais variadas festas, nos blogs de estilo e nas redes sociais. Mas será que o Brasil é o único país a abrigar esse movimento? Existem gerações tombadoras no exterior? A resposta é que não estamos sozinhos! Acredito que somos o reflexo e uma nova roupagem desses movimentos que estão ocorrendo em outros países, a exemplo do Afropunk, nos Estados Unidos. Agora vamos conhecer os Fashion Rebels e a sua contribuição para o desdobramento de novas formas de beleza e atitude.

Por Lorena Lacerda Do Imprensa Feminista

Fashion Rebels é um grupo de moda, street style e expressividade idealizado por Maitele Wawe, Thifhelimbilu Mudau e Sizophila Dlezi, que surgiu em 2012, em Pretoria, capital executiva da África do Sul.

No documentário “100 % Youth 3 – Maitele Wawe – Fashion Rebels”, Thifhelimbilu
Mudau diz: “We are Fashion Rebels” (tradução livre: Nós somos Fashion Rebels). A partir dessa fala, podemos traçar o projeto como uma forma de identidade própria e personalidade.

Uma das principais mentes criativas do movimento é Maitele Wawe. Inventivo desde a infância, ele produzia suas próprias peças de roupas e fez do seu jeito de se vestir sua linguagem, como é visto atualmente na fase adulta.

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A característica que se destaca na estética Fashion Rebels é a junção de ousadia, inovação, mistura de épocas (old school clothes), cores, estampas e ressignificação das peças de roupas. Os adeptos dessa tendência também são reconhecidos por subverterem os padrões de gênero que as roupas carregam. Por exemplo, saias e vestidos não são apenas utilizados por mulheres, passando a compor, também, looks masculinos. Outro aspecto importante é o fato de que suas roupas e acessórios são adquiridos em brechós, através de doações, trocas ou em grandes balaios (feiras livres), o que alia a estética a um consumo sustentável e consciente. Com todos esses componentes  na mão, o resultado é autenticidade e a certeza de que esses jovens jamais – sim, jamé – encontrarão pessoas nas ruas com um de seus looks cheios de originalidade.

O grande resultado da união de Maitele Wawe, Thifhelimbilu Mudau e Sizophila Dlezi foi o Social Market – um evento/mercado que visa transformar Pretoria na cidade da música, arte, culinária e, principalmente, da moda. Cansados de ter que recorrer à cidade de Joanesburgo – principal núcleo urbano da África do Sul – para comprar suas roupas, encontrar novas tendências, inspirações, os três amigos, e suas mentes empreendedoras, resolveram tornar Pretoria nesse lugar, e na melhor maneira do “faça-você-mesmo”. Além de compartilhar ideias, o Social Market é também um meio de oportunidades, investimentos e comércio para pessoas com afinidade de interesses gerarem fonte de renda.

Outro ponto interessante no estilo de um Fashion Rebel é a sua capacidade de se destacar na multidão. Maitele Wawe frisa a relevância de não se vestir com o usual, mas abusar do diferente para ser notado entre milhares. Ao analisar a foto acima, podemos percebê-los únicos, com os  cabelos coloridíssimos, cores vibrantes, adereços, retro clothes e mix de estampas.

A maior contribuição dos Fashion Rebels ocorre com o estabelecimento de uma nova via no universo da moda, colocando pessoas negras no lugar de beleza para novos fluxos de empoderamento da sua própria estética. Segundo Nicoletta GIUSTI “O negro, na indústria da moda, está no backstage. É mão de obra da parcela não glamourizada da moda, da parte que não é bonita, interessante, instigante”. No que tange o protagonismo negro frente a indústria da moda, Melody Brasil ERLEA aponta a extrema urgência dos mecanismos de moda não permanecerem no monopólio da cultura branca ocidental. Em função dessa afirmação, a cultura negra e todas as suas produções (vestuário e adornos) continuarão sendo qualificados como “anormais”, “exóticos” e, por conseguinte, apropriados por pessoas brancas.

Para finalizar, é preciso compreender que nenhum movimento político/social/estético surge sem que existam contextos para propiciar essa dinâmica. Em afirmação disso, a cultura Africana e afro diaspórica é reconhecida pelas suas expressões corporais. Nilma Lino GOMES caracteriza o corpo negro como lugar de cultura, suporte e afirmação da própria identidade negada diariamente pelo racismo. Portanto, essas influências geram construção do discurso através do corpo e das vestimentas configurados nos dias atuais pelos Afropunks em Nova York, dos Fashion Rebels na África do Sul e da geração tombamento aqui no Brasil. Todas essas atribuições constituem uma rede de convergência caracterizada pelo protagonismo negro como modelo de beleza e estilo.

Bibliografia:

AfroPunk é um festival negro que mistura música, moda, identidade e muita atitude. Acontece anualmente em Nova York, nos Estados Unidos, desde 2005. Fonte: Blog Ovelha Mag

GIUSTI, Nicoletta. A Indústria da Moda nos Estudos Organizacionais: Mitos, Equívocos e Perspectivas de Pesquisa. In: Estudar a Moda: Corpos, Vestuários, Estrategias. Tradução por Renato Ambrósio. 2011, p. 120).

ERLEA, M. B. E. V. . USO DO IMAGINÁRIO CULTURAL NEGRO E APROPRIAÇÃO CULTURAL NA MODA OCIDENTAL. 2015. (Apresentação de trabalho/Simpósio).

GOMES, Nilma Lino. Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolo da identidade negra. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.

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