Nossas Histórias

    Divulgação

    Por que é errado dizer que “os negros escravizaram os negros”?

    Quem nunca ouviu alguém falar que os negros escravizaram os próprios negros? Esse é um dos principais argumentos utilizados por pessoas racistas para deslegitimar os movimentos negros, para desqualificar as lutas das populações negras ao longo do tempo e para até mesmo destituir Zumbi dos Palmares da condição de herói nacional. As frases proferidas pelo senso comum mais utilizadas nessas situações vão na seguinte direção: “O racismo não é culpa dos brancos, pois os negros escravizaram os próprios negros”. Ou ainda: “Cotas étnico-raciais não são dívida histórica, pois foram os negros que venderam e escravizaram os próprios negros. Então, a culpa da escravidão é da própria população negra”.  Em 2018, meses antes das eleições presidenciais, o então candidato à presidência Jair Bolsonaro, ao discutir cotas étnico-raciais no programa Roda Viva, disse que era contra a política de cotas, pois “ele nunca escravizou ninguém na vida” e que “o português nem...

    Leia mais

    A “mulata trágica”: repensando a categoria mulata no Brasil

    O século XXI tem sido o século das imagens. Disputas de narrativas tem se dado no contexto das redes sociais, em que imagens viralizam em curto espaço de tempo, alimentando o imaginário social e definindo o lugar das pessoas no mundo. Neste contexto, a socióloga estadunidense Patrícia Hill Collins, em Pensamento Feminista Negro, apresenta-nos as imagens que são internalizadas como “imagens de controle”. Diferentemente dos estereótipos — que partem da elaboração de imagens negativas —, as imagens de controle podem produzir lugares de poder e privilégio para determinados grupos, bem como naturalizar lugares de sujeição, hiperssexualização e violência para outros.  O lugar do nosso corpo no mundo, sua inscrição social, passa por uma tomada de consciência que, como aponta Frantz Fanon, na obra clássica Pele negra, máscaras brancas, muitas vezes é desenvolvida por um estímulo externo, um olhar do outro, que nos fixa e constrói as representações. Fanon narra que...

    Leia mais

    Sentidos da “verdadeira liberdade”: A Escola Agrícola da Bahia e os destinos da população negra livre do Recôncavo

    No pequeno município de São Francisco do Conde, no Recôncavo da Bahia, encontram-se as ruínas da primeira escola destinada à formação agrícola do Brasil. Criada por meio do Decreto n. 5.957, de 23 de junho de 1875, foi consequência de uma política iniciada em 1859 pelo imperador D. Pedro II que, em viagem ao Nordeste do país, decidiu criar alguns Imperiais Institutos de Agricultura. No ano de 1868, finalizam-se as obras de construção, porém a sessão solene de inauguração aconteceu somente em 15 de fevereiro de 1877, passando a funcionar em regime de internato e externato. Os trabalhos iniciaram com o número de 20 africanos livres da localidade. A saída desses africanos é informada pelo diretor no ano seguinte, empregando, por sua vez, moradores da região próxima, servindo como trabalhadores e serventes “conforme a melhor aptidão de cada um, alguns que não estavam acostumados com a enxada já vão indo...

    Leia mais

    Pretos e Mulatos em Clubes Sociais Negros num Pedacinho da Europa no Brasil

    Pedro Victorino era um antigo sócio da Sociedade Recreativa União Operária, que reunia pessoas negras – ou melhor homens de cor, como se dizia na época – da cidade de Laguna, Santa Catarina. Em 1906, já não frequentava as atividades da associação, por isso resolveu se desligar e pagar a dívida que tinha, que ele acreditou ser de 13 mil réis. Porém, a direção lhe cobrou 17 mil réis. Discordando do valor do débito pendente, não fez o pagamento. A direção da entidade, então, tornou pública a pendência e Pedro resolveu responder publicando no jornal local, O Albor, na edição de 24 de agosto de 1906, uma carta aberta contra os dirigentes da “União Operária”. Magoado e ressentido, exclamava que o nome apropriado para a agremiação deveria ser “desunião operária”, que aquela era mais uma das “sociedades de encantos” que cresciam “só no calor do entusiasmo” para, depois, encerrar nas...

    Leia mais
    Arquivo Pessoal

    “Para os alfinetes de Francisca!”: laços de solidariedade entre africanas e crioulas no Recife escravista

    Era manhã de segunda-feira, dia 13 de novembro de 1854, quando a “preta da Costa da África” Antônia Monteiro, de nação nagô, compareceu ao cartório do tabelião Porto Carreiro, na cidade do Recife, capital pernambucana, para registrar seu testamento. Entre suas vontades, declarou que deixava a Antônio da Silva os móveis de sua residência; às “viúvas e órfãs pobres e honestas, cuja capacidade fosse examinada pelos seus testamenteiros”, o produto da venda de sua casa própria depois de deduzidas as despesas de seu legado; a Victoria e a Joana Monteiro, 5$000 réis a cada uma respectivamente. E, a Francisca a quantia de 10$000 réis “para os seus alfinetes”.  Registro de Testamento de Antônia Monteiro (fotografia de Valéria Costa) Registro de Testamento de Antônia Monteiro (fotografia de Valéria Costa) O que seriam os alfinetes de Francisca, senão os pequenos gastos...

    Leia mais

    O medo do ventre livre: o que fazer com os negros?

    Foi numa tarde de quarta-feira, no dia 22 de maio de 1867, na Sessão Imperial da Assembleia Geral Legislativa sob a presidência do Sr. Visconde de Abaeté, que Sua Majestade D. Pedro II proferiu, às 13 horas da tarde, a Fala do Trono. Tratava-se de um pronunciamento anual, onde o imperador abria a Assembleia Legislativa expondo suas expectativas para o ano em curso.  Falas do Trono: desde o ano de 1823 até o ano de 1889 O foco do discurso naquela tarde foram a guerra contra o Paraguai e os esforços do governo brasileiro, do Exército, da Armada, da Guarda Nacional e dos Voluntários da Pátria para solucionar o conflito, bem como a busca de meios para sanar os déficits relacionados às “penosas circunstâncias” geradas pelas despesas com a guerra.  A guerra, os esforços para solucioná-la e a crise financeira que se estabeleciam são fios de...

    Leia mais

    Mulheres de luta: as mães de ingênuos por força da Lei do Ventre Livre

    Em 1880, um número considerável de mães solteiras escravizadas com filhos menores que viviam no Rio de Janeiro, o Município Neutro, recebeu carta de alforria graças aos recursos do “Fundo de Emancipação de Escravos”. O fundo foi um instrumento criado por meio da Lei n. 2.040, de 28 de setembro de1871 – aquela que ficou conhecida como a Lei do Ventre Livre. Ele tinha por fim reunir recursos para a libertação de quantas pessoas escravizadas fosse possível nas províncias e na capital do Império, também chamada de Município Neutro ou corte. Sendo assim, o registro de 271 mulheres alforriadas na capital imperial nos é valioso sob duas perspectivas.  Primeiramente, o dado chama atenção pelo fato de elas constituírem uma das categorias familiares que deveriam ser priorizadas no acesso aos recursos pecuniários. Ou seja, de acordo com os critérios de classificação utilizados por uma junta constituída para qualificar, selecionar ou excluir...

    Leia mais
    Lucas Ribeiro Campos Doutorando em História Social pela UFBA (Foto: Arquivo Pessoal)

    A Sociedade Protetora dos Desvalidos e a Resistência Negra no Brasil

    Neste 16 de setembro de 2020, dia dedicado à devoção católica à Nossa Senhora da Soledade, também conhecida como Nossa Senhora das Dores, comemoram-se os 188 anos de fundação da Sociedade Protetora dos Desvalidos (SPD), importante espaço de agência coletiva para muitas mulheres e homens negros desde a primeira metade do século XIX até os dias atuais. Essa associação, infelizmente pouco conhecida no Brasil, foi fundada em 1832, na cidade de Salvador, Bahia, no contexto dos primeiros anos de independência da nação brasileira, com o nome de Irmandade de Nossa Senhora da Soledade Amparo dos Desvalidos. A confraria religiosa surgiu da iniciativa de um grupo de trabalhadores negros livres e libertos, que incluía pedreiros, marceneiros, calafates, carregadores e trabalhadores do ganho, sob a liderança de Manoel Victor Serra, que trabalhava como ganhador (prestando serviços sob demanda) e se tornou um personagem importante na articulação da Irmandade nesses primeiros anos. Com...

    Leia mais
    Divulgação

    Rede de Historiadoras Negras e Historiadores Negros inaugura coluna “Nossas Histórias” no Portal Geledés

    Sabemos que já foi confortável defender: “Os negros não são gente. São coisa. Não têm alma. Não pensam!” Houve também quem dissesse: “Os negros não têm história!” Teve depois quem assegurasse: “Faltam fontes confiáveis para que se escreva a história dos negros!” Todas essas são expressões de uma matriz de sentido por meio da qual homens e mulheres negras não teriam assegurado nem sequer a condição de tema para a reflexão sobre a experiência humana ao longo tempo.  O racismo é perigoso porque autoriza e investe na naturalização de sequestros da Humanidade de indivíduos e grupos discriminados. Isso, por consequência, faz com que seja possível até mesmo se cegar para como tais pessoas tornam possíveis suas vidas, produzem vastos repertórios de experiências que são compartilhadas entre gerações, estabelecem permanências e dão a medida de si e dos outros no convívio social.  Mas, apesar dessas violências que geram silenciamentos e sub-representações,...

    Leia mais

    Últimas Postagens

    Artigos mais vistos (7dias)

    Twitter

    Welcome Back!

    Login to your account below

    Create New Account!

    Fill the forms bellow to register

    Retrieve your password

    Please enter your username or email address to reset your password.

    Add New Playlist