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Impostora ou apenas negra? É preciso ressignificar nossa história

A psicóloga clínica Shenia Karlsson escreve sobre a mulher negra e a síndrome da impostora (Foto: Divulgação)

Uma vez por mês, abro o espaço da minha coluna em Universa para outras mulheres negras. Hoje, é a vez da psicóloga clínica Shenia Karlsson.

“Tenho notado em minha atividade clínica um aumento exponencial da chegada de um diagnóstico pronto por parte de minhas clientes, a tal síndrome da impostora. Eu, mulher negra e psicóloga clínica, dedicada ao atendimento de um público majoritariamente de mulheres negras, quando as ouço, me pergunto: será? Trata-se de um grupo bem específico e cheio de peculiaridades, e me faz questionar se o modismo realmente cabe visto nos nossos processos de sociabilização.

Pois bem, essa síndrome de caráter psicológico —pois não encontra sustento na psiquiatria enquanto transtorno— tem assolado o universo feminino e popularizou-se com o advento da internet. Aposto que você, cara leitora, já sofreu disso ou tem alguma amiga impostora, não é mesmo? Contudo, em que medida a síndrome da impostora é uma das produções do racismo nosso de cada dia na vida de mulheres negras?

Fenômeno é fruto de estudo de duas mulheres nos anos 1970

Contextualizando, o fenômeno da síndrome da impostora foi fruto de um estudo realizado na universidade da Geórgia pelas pesquisadoras Pauline Rose Clance e Suzanne Imes em 1978. Foram cerca de 150 mulheres entrevistadas, todas consideradas muito bem-sucedidas em suas respectivas áreas embora demonstrassem inseguranças constantes. Algumas características em comum foram encontradas, como perfeccionismo exacerbado, preocupação em excesso, vontade de agradar outros para serem aceitas e a procrastinação como mecanismo de autossabotagem a fim de confirmar a suposta incapacidade.

Desde então, esse fenômeno tornou-se objeto de estudo da psicologia, especialmente na área Cognitivo Comportamental, em que distorções cognitivas têm suas bases em conjuntos de crenças negativas, acarretando assim um profundo prejuízo na autoestima das mulheres. Na época, as pesquisadoras entenderam que essa condição seria um dos resultantes do machismo patriarcal, mas, e o racismo? E quanto às mulheres negras expostas não só ao machismo, mas também ao racismo?

É comum ouvir no relato dessas mulheres o peso da marca, o receio inevitável de evidenciar o tão famoso defeito de cor dito por Ana Maria Gonçalves.

Ser negra é viver o risco iminente do fracasso, é ser uma impostora por excelência, ou por precaução.

A mulher negra também assimila as imagens de controle, pois é imposto um engessamento de papéis sociais específicos. Como discorre a autora Patricia Hill Collins, uma das consequências seria uma dificuldade em performar papéis fora do repertório previamente estabelecido. Tais papéis interditam e nos atravessam causando adoecimento psíquico devido ao seu caráter estático.

Ao ouvir os relatos de minhas clientes negras, percebo muitos potenciais à margem, muito medo da exposição, quase um pedido de permissão para existir. Diariamente, essas mulheres submetem-se a situações desconfortáveis alienando-se de si, a fim de garantir minimamente sua integração em espaços em que sua negritude é questionável. “Não vou conseguir concluir meu doutorado” disse uma, “meu sonho é abrir meu próprio negócio, mas não tenho coragem”, disse outra, “estou apavorada, tenho uma palestra para dar amanhã e ainda nem comecei a preparar”, caso clássico de procrastinação.

O racismo e seu pacto de silêncio nos induzem ao fracasso inconsciente vivido no coletivo. Ainda é uma luta subverter essa lógica perversa. Posto isso, a síndrome da impostora dilui-se na experiência da mulher negra, visto que esse conjunto de sintomas parece uma condição quase sine qua non de nossa vivência no mundo.

A mulher negra pode autodiagnosticar-se como impostora apenas por ser negra, isso porque o racismo ao mesmo tempo que nos confunde nos responsabiliza pelos prejuízos que ele causa. A mulher negra está muito mais exposta a silenciamentos, retaliações, assédios e desvalorizações.

Como bem diz Sueli Carneiro, “ser mulher negra é experimentar essa condição de asfixia social”. O impacto na saúde mental da mulher negra é danoso, pois sua potência e autoestima são profundamente atingidas. Sendo assim, podemos pensar que todo esse contexto induz mulheres negras a tornarem-se impostoras em algum momento de suas vidas.

Nesse sentido, o único movimento plausível é apropriar-se de si através do autocuidado.

Como eu sempre digo, se o corpo é político, a saúde mental também é, ou seja, em nosso caso, grupo historicamente excluído de todas as políticas de cuidado, transgredir essa lógica é sinônimo de sobrevivência. Vale ressaltar que estamos cansadas de sobreviver, queremos mesmo é viver plenamente.

Em nosso caso, erradicar a impostora que vive em nós é sobretudo descolonizar nossa mente, ressignificar nossa história e viver em consonância com a nossa natureza intrínseca, em harmonia com a ancestralidade. Que possamos ser generosas e amorosas conosco, nos acarinhar, abraçar nosso processo de evolução rumo à nossa saúde mental e emocional.”

Shenia Karlsson é negra, carioca e psicóloga clínica.

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