quarta-feira, outubro 5, 2022
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Magia negra: Dança da redenção

Depois de mais uma tarde de ensaios, treze jovens de comunidades de baixa renda do Recife alongam o corpo, sentam-se no chão para mais uma avaliação com um dos seus mestres. Os corpos talhados por alguns anos de dedicação às danças populares chamam a atenção. Só que, no caso desses jovens dançarinos, todos integrantes do programa Pé no Chão, a beleza está no centro da nova peça musical a que se dedicaram no último ano. Magia negra – traduzida na França, para onde o grupo partiu nesta semana, para Magie Noire – traz no seu título uma provocação. Afinal, o que os jovens, todos negros, estariam mostrando numa peça com esse nome? “A tendência é as pessoas acharem que estamos falando de trabalhos de umbanda, feitos para enfeitiçar ou prejudicar alguém. A peça, em função do nome, causa impacto aonde chega. Mas o tema é diferente do que se imagina”, diz o dançarino Ricardo. “A magia que a gente leva é a nossa beleza negra”, completa.

A montagem é fruto de uma parceria que já dura seis anos, entre o grupo Pé no Chão e a Compagnie Ophélia de Théâtre, da França. Na peça, os atores buscam desconstruir o conceito comum de que “magia negra é a evocação dos espíritos para fazer algum mal” e construir um novo conceito, pautado na beleza e na alegria, no encanto do povo negro.

O grupo já está na França, depois segue para a Itália. Não é a primeira vez que os alunos assistidos pelo Pé no Chão saem do país para apresentações. Em 2006, ao lado da mesma companhia Ophélia, o Pé no Chão havia montado e apresentado na França o espetáculo Resistência. A base eram as danças e lutas negras, como maculelê e a capoeira. Dessa vez, o balé mergulhou no estudo dos movimentos contemporâneos. Foi um ano de trabalho corporal seguido de um processo seletivo que, entre mais de vinte alunos, selecionou apenas treze.

O diretor do espetáculo, que coordenou o processo de criação coletiva, foi o coreógrafo francês Laurent Poncelet. Ele conseguiu que os garotos e garotas do Pé no Chão criassem movimentos que refletem cenas do seu cotidiano – muitas vezes violento e degradante – nas comunidades. Há uma combinação dessa encenação com passos das danças populares afro-pernambucanas. Na volta ao Brasil, o grupo já tem agendadas doze apresentações. Faltará apenas patrocínio. Para a viagem à França, o Pé no Chão recebeu o apoio do Banco do Nordeste, da Caritas France, Prefeitura de Bologna, Prefeitura do Recife e Consulado Francês no Recife.

A representação no palco é espelho da realidade dos bailarinos nas ruas. Tamires, Gabriela e Ricardo moram em Chão de Estrelas; Lucas, Ademilson, Daniela e Eliene são do Arruda; Luziel, de Água Fria; Ítalo, Romário e Jonas moram em Santo Amaro, na área do Beco dos Casados; Hilton fica do lado rival, conhecido como Campo do Onze. Ali, no entanto, são todos aliados e combatentes. Fazem parte de um projeto que reconhece a importância da arte como mediadora em zonas de conflito. De um lado, as drogas, sobretudo o crack, maior destruidor da digninadade dos meninos pobres. Do outro, a maior chance que já passou por suas vidas, a oportunidade de um futuro melhor.

A turnê do Pé no Chão, segundo o coreógrafo Laurent, chegará à Europa como o trabalho de um grupo de dançarinos que faz uso do popular e do contemporâneo, com movimentos, encenações e performances. Não apenas como atores de um projeto social tentando conquistar a plateia por parecerem exóticos, ou em função da baixa renda. Não é a primeira vez que saem do Brasil e, a cada vez que voltam, a imaginação se amplia, para tentar enxergar o quão longe podem ir das próximas vezes.

 

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