Mano Brown elogia evolução do movimento negro, se anima com jovens na Unicamp e vê legado nas ruas: ‘vocês são Racionais também’

Grupo de rap foi homenageado durante aula aberta na Universidade Estadual de Campinas nesta quarta (30); álbum integra lista de leitura obrigatória do vestibular desde 2020.

FONTEG1, por Bárbara Marques e Fernando Evans
Mano Brown, do Racionais MC's, durante aula aberta com a participação do grupo na Unicamp — Foto: Rafael Smaira

“Não podemos dizer o jogo tá ganho, a favela venceu. Estamos em trâmite, mas estou muito contente com o que tenho visto”. Na aula aberta na Unicamp em que o Racionais MC’s foi homenageado, nesta quarta-feira (30), Mano Brown destacou a evolução do movimento negro nas últimas décadas, se animou com depoimentos de jovens e afirmou que o legado do grupo de rap criado em 1988 há tempos não é mais dos quatro integrantes, sendo representado por outros artistas e pelas ruas: “Vocês são Racionais também”, disse à plateia de estudantes.

Durante quase três horas de encontro no Centro de Convenções lotado, Mano Brown, Ice Blue e KL Jay puderam interagir com estudantes – Edi Rock não compareceu. Durante os depoimentos, Brown chegou a se emocionar algumas vezes. Um dos jovens destacou como a música do Racionais foi importante para seguir tentando entrar na universidade, um espaço ainda majoritaiamente branco.

A aula aberta faz parte da disciplina “Tópicos Especiais em Antropologia IV: Racionais MC’s no Pensamento Social Brasileiro”, ministrada por Jaqueline Silva, professora convidada, dentro do curso de Ciências Sociais.

“Sobrevivendo ao inferno”, quarto álbum do grupo, é uma das leituras obrigatórias do Vestibular 2023 da Unicamp. O álbum está presente na lista exigida pela universidade estadual desde a edição 2020 do exame.

Racionais MC’s acompanham depoimentos de estudantes em aula aberta da Unicamp — Foto: Rafael Smaira

Passado e presente

Ao abordar questões do movimento negro, Mano Brown destacou a evolução que a discussão sobre o tema teve nos últimos anos, e avaliou que a presença de mais negros nas universidades, o acesso à informação e a organização mostra que a luta está no caminho certo.

“Ganhou muita qualildade nos últimos anos. Informação chegando, cotas, negros entrando na faculdade. Realmente criou um movimento de muita inteligência, de profundidade. Na época do movimento negro lá atrás, as pessoas discutiam coisas muito menores. Parecia que não haveria solução para aquilo. Hoje em dia vejo uma coisa organizada. Não tô pondo defeito no passado, tô vendo evolução”, destacou.

Mano destacou a participação dos estudantes da Unicamp na aula. “Os depoimentos, como falam, se expressam. É brilhante. O autoconhecimento que vocês têm, e os relatos, sempre embargados de forte emoção”, elogiou.

O cantor aproveitou o momento para dizer que o Racionais, há anos, não é mais apenas a formação de Mano, Ice Blue, KL Jay e Edi Rock.

“O Racionais desdobrou. É Emicida, é Djonga, é um monte. Eu me sinto representado lá, já faz tempo. O legado do Racionais tá na rua, tá espalhado. Vocês (estudantes) são Racionais também. Uns mais, outros menos”, disse Brown.

Ice Blue acompanha depoimento dos alunos da Unicamp em aula aberta com o Racionais MC’s nesta quarta (30) — Foto: Rafael Smaira

Conexão com a música

Questionado sobre o poder que a música tem em tocar as pessoas e que muitas vezes a escola e a universidade não têm, Ice Blue destacou a empatia que há entre o rap e a realidade dos estudantes negros, e que o compartilhamento de histórias de vidas semelhantes permite que a mensagem seja entendida.

O rapper apontou que essa identificação atualmente vem acompanhada de um movimento mais organizado, inteligente, descolado da marginalização.

“O rap conta a história de cada um da periferia. De onde estiver a gente tem essa semelhança de vida de negro de periferia. A gente só relatou nossa história de vida, que reflete na vida de vocês. São revoltas que vocês têm que nos também tivemos e ainda continuamos tendo. E essa revolta virou inteligência. Era uma revolta inconsequente e agora ficou mais estratégica. Agora tá mais perigosa, porque não tem só a arma e a força, tem a inteligência”, ponderou Blue.

Extrema direita

KL Jay, do Racionais MC’s, durante aula aberta com participação do grupo na Unicamp — Foto: Rafael Smaira

Quando questionados sobre o papel social do Racionais, do que era no início para um período de ascenção de movimentos de extrema direita, KL Jay lembrou que a luta é constante, mas que o facismo sempre existiu.

“A extrema direita sempre existiu;. O Bolsonaro deu esse aval. Imagina, o presidente dá aval. Todo mundo fica louco. Quem nunca gostou de preto, de pobre, etc. teve o aval do presidente. Isso piorou. Isso revelou muita gente. A luta é constante”, afirmou.

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