Maritacas

E o acordo?

Fonte: Ìrohin –

por: Edson Lopes Cardoso

Quem pode passar o Vinte de Novembro em Barra do Piraí, Rio de Janeiro, deve fazê-lo. O Parador Maritacas (Spa Resort) convida para ouvir chorinho e deleitar-se com um cardápio especial para a data. A decoração é temática, o que talvez sugira elementos característicos e alusivos à saga dos palmarinos.

 

Na verdade, não posso assegurar nada sobre a decoração temática. Creio mesmo que os elementos do cenário, se quiserem formar um todo coerente com o momento que vivemos, devem abandonar qualquer pretensão de resgate histórico.

 

Na visão de D. João V, para ficarmos com um exemplo documentado do final da primeira metade do século XVIII, os negros que fugiam da escravidão praticavam insulto contra El-Rei. Como se atrevem, pensava o rei de Portugal, a não aceitar a escravidão? Tantos séculos depois a visão do poder parece inalterada.

 

Sendo assim, deixo à imaginação daqueles que pretendem conhecer o Parador Maritacas a escolha dos elementos temáticos que permitam inferir os comportamentos predominantes na atual conjuntura, cujas regras de vassalagem determinam estratégias de alta complexidade.

 

Vejamos o caso do Rio de Janeiro, onde, conforme discursos proferidos na abertura da Semana da Consciência Negra, o prefeito e o governador são aliados da causa negra. Segundo informa a Agência Brasil (16.11.09 às 21h33), Benedita da Silva, que representava o governador Sérgio Cabral na solenidade realizada no Palácio da Cidade, garantiu (verbo cujo significado, como todos sabem, é “responsabilizar-se por”,) que “o estado do Rio de Janeiro implementa uma política de igualdade racial com cidadania, em parceria com a prefeitura e o governo federal”.

 

Benedita da Silva não estava sozinha no papel de garantidora de uma política invisível mesmo aos olhos mais crédulos. Havia outros nomes conhecidos, citados na matéria. O coletivo sugere a produção de uma nova versão cinematográfica do “Ensaio sobre a Cegueira”, desta vez visando exclusivamente os afro-brasileiros. O ator Danny Glover, que estava presente ao ato no Palácio da Cidade, assegura a continuidade entre as duas versões.

 

Disse acima que regras de vassalagem regem estratégias complexas de sobrevivência de negros nas franjas das instituições públicas. Eles exercem papéis de relevo duvidoso, que são variações de um tema comum nos labirintos do poder: O Garantidor, O Abonador. A não materialização das políticas não é um princípio de relevância no mundo das crianças em que vivem os negros. Brincam de política pública, fazem sorrir e divertem os adultos.

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