Maxwell Alakija: militância antirracista africana na Bahia do pós-abolição

Por que escrever sobre a trajetória do Maxwell Assumpção? Qual a relevância histórica, social e política tem esta trajetória? O que exatamente Maxwell fez nas primeiras décadas do século XX que o credenciou a ter parte de sua história escrita no século XXI? Estas foram algumas das questões centrais que me fiz no processo de escrita da dissertação do mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Bahia, recém publicada com o título Maxwell Assumpção Alakija: a trajetória e militância de um africano na Bahia (1871-1933).

Neste texto, apresento as principais características deste personagem na cidade do salvador, no período do pós-abolição, é um resumo na tentativa de explicar a relevância histórica de um personagem que esteve empenhado na luta contra os problemas estruturais da cidade em que ele viveu: o racismo e a alfabetização dos mais pobres.

Porphyrio Assumpção, que mudou seu nome para Maxwell Porphyrio de Assumpção Alakija, nasceu em Lagos (Nigéria) em 1871. Maxwell foi um descendente agudá, termo que designa os africanos e seus descendentes que conseguiram fazer a viagem de retorno para as diversas regiões do continente africano. O pai do Maxwell, Marcolino Assumpção, nasceu livre no Rio de Janeiro. Em 1856, sua mãe, de nome português Lauriana Maria de Santana, saiu do Rio de Janeiro em direção à Costa da Mina (atuais Togo, Benim e Nigéria) acompanhada de seus filhos e criados. Na ocasião, Marcolino ainda era uma criança. A família viajou no navio francês Lyonnais acompanhada de outros grupos de libertos africanos registrados na documentação como “pretos forros de nação mina”.

Algumas prósperas famílias agudás em Lagos enviavam seus filhos para universidades de prestígio na Europa em fins do século XIX. Este foi o caso da família Alakija. Seguindo a rota diferente dos seus irmãos que foram estudar Direito em Londres, no entanto, Maxwell decidiu estudar Direito em Salvador. Segundo às memórias da família foram duas viagens em direção à capital baiana: a primeira ainda criança em companhia de seu padrinho de batismo, Manoel Joaquim dos Reis, antes da abolição da escravidão no Brasil. Na segunda viagem, já adolescente, Maxwell veio decidido a estudar e se estabelecer em Salvador por volta de 1893. 

Maxwell Assumpção Alakija, jornal A Tarde, Salvador, 18 de agosto de 1922, p. 1.
Fonte: Biblioteca Pública do Estado da Bahia

Estabelecido em Salvador, Maxwell concluiu o curso de Direito em 1903. Ele fez parte das primeiras turmas de formandos da então Faculdade Livre de Direito da Bahia, fundada em abril de 1891. Além de exercer a profissão de advogado, Maxwell deu aulas de inglês e francês em várias instituições escolares de Salvador ao longo da Primeira República. Apesar de gozar da condição de intelectual e de ter sido um profissional liberal respeitado nos meios letrados da cidade, Maxwell desenvolveu preocupação com os problemas sociais da capital baiana ao longo de sua trajetória. O “preconceito de cor”, termo comum à época, e a escolarização dos mais pobres foram os problemas sociais que mais lhe tomaram a atenção. Mas antes de destacar a sua militância, considero importante apresentar resumidamente a família que ele construiu em Salvador. 

Maxwell se casou com a parteira Ignez Selene Assumpção (1891-1986). O casal teve três filhos: Delhi Maxwell Assumpção (1908-1949), Cleonice Assumpção Alakija (1910-2000) e George Alakija (1921-2005). Delhi formou-se engenheiro agrônomo e foi viver em Lagos. Já Cleonice foi uma das primeiras médicas negras da Bahia, especialista em Otorrinolaringologia. O filho mais novo, George Alakija, foi médico-psiquiatra e desenvolveu amplas pesquisas sobre o tratamento hipnótico em Salvador. Era um núcleo familiar que se diferenciava da maioria das famílias negras no período do pós-abolição, sobretudo no que diz respeito ao acesso ao ensino superior.

Família Alakija em Salvador. Museu Afro-Digital da Memória Africana
Sub Coleção Lorenzo Turner

Leitor atento dos jornais que circulavam em Salvador e em outras regiões do Brasil, foi por meio da imprensa que Maxwell soube dos casos de discriminação racial que aconteciam na cidade e as denunciou por mais de uma vez. Em suas cartas, predominam a concepção de um homem que tinha uma leitura liberal das relações raciais no Brasil. Conhecedor da Constituição Nacional, Maxwell defendia o princípio da igualdade entre os homens e enfatizava a importância das pessoas negras na construção do Brasil. Quando se posicionou contrário ao projeto de lei de imigração que proibia a vinda de pessoas negras ao Brasil em 1921, ele escreveu do seguinte modo: “não posso ficar mudo de semelhante ignominia, sem lançar daqui o meu protesto contra semelhante projeto”. Na concepção do autor, o projeto representava “uma injuria, atirada à face da população de um paiz que desde o berço da civilização até a presente data outro elemento desenvolvedor da lavoura e das indústrias não foi si não o elemento negro”. 

Ao todo foram localizadas quatro cartas de Maxwell Alakija: uma criticava o presidente Epitácio Pessoa por ter proibido que pessoas negras fizessem parte da guarda de honra do Rei Belga Alberto I (1875-1934), que esteve no Brasil com sua família e comitiva em 1920. Duas cartas criticavam o racismo da Marinha de Guerra do Brasil que se recusava a matricular jovens negros na década de 1920. E a outra carta criticava o projeto de imigração que proibia a entrada de pessoas negras. Em todas as cartas, Maxwell faz uso da ironia, de conhecimentos históricos e da Constituição na tentativa de denunciar e demonstrar que as práticas racistas não tinham fundamento, já que foi a própria população negra que ajudou a edificar o Estado.

Mas a militância do Maxwell não se resumiu às cartas de protesto contra o racismo. Como professor, ele deu aulas de inglês para os jovens aprendizes maquinistas analfabetos de Salvador em 1915, e participou de uma Liga Educadora neste mesmo ano. Ele ainda liderou a Sociedade Beneficente dos Lavradores Suburbanos em 1919. O africano transitava em diferentes lugares sociais de Salvador durante a Primeira República, e sua rede de sociabilidade incluía jornalistas, advogados, professores, engenheiros, políticos, mas também lavradores suburbanos, mascates e estivadores. 

Maxwell Assumpção é, sem sombra de dúvida, um dos personagens negros mais importantes da Bahia e, por que não dizer, do Brasil. Africano e profissional liberal respeitado, ele desenvolveu um olhar sensível para os dramas sociais de Salvador. As pautas contra as quais ele lutou – o racismo e a precariedade da escolarização – continuam sendo uma realidade complexa e desafiadora para a população negra e a sociedade brasileira contemporânea.

Assista ao vídeo do historiador Sivaldo dos Reis Santos no Cultne TV sobre este artigo:

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC): 

Ensino Fundamental: EF09HI03 (9º ano: Identificar os mecanismos de inserção dos negros na sociedade brasileira pós-abolição e avaliar os seus resultados); e EF09HI26 (9º ano: Discutir e analisar a importância de conhecer as histórias de homens e mulheres negras no passado que contribuíram de diversas maneiras para a construção do Brasil).

Ensino Médio: EM13CHS101 (Identificar, analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão de ideias filosóficas e de processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais).


Sivaldo dos Reis Santos
Mestre em História Social pela Universidade Federal da Bahia
E-mail: srsvaldosa321@gmail.com;
Facebook: Sivaldo Reis

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