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Memória, visibilidade e orgulho lésbico

Dia 19 de agosto rememora a luta de mulheres lésbicas

Perifa Connection/Divulgação

“Aqui no gueto todo dia é um confronto, aqui no peito todo dia é um confronto”, diz a letra do grupo musical Tambores de Safo. Estamos na semana do Orgulho Lésbico. A data é marcada pela revolta no Ferro’s Bar, que ocorreu em 19 de agosto de 1983, no final da ditadura militar. Naquela noite, ativistas do Galf (Grupo Ação Lésbica Feminista) ocuparam o espaço do Ferro’s Bar para protestar contra as violências que sofriam no local.

O estabelecimento paulistano recebia ativistas, artistas e pessoas LGBTQIA+. Porém, militantes do Galf foram impedidas de distribuir o boletim “ChanaComChana”, primeira publicação lésbica do Brasil, e foram expulsas do local. A manifestação ficou conhecida como o “Stonewall brasileiro”, em referência à outra revolta que ocorreu em Nova York, em junho de 1969, marco histórico que simboliza o Dia Internacional do Orgulho LGBT+.

O Brasil é o país que mais mata LGBTQIA+, de acordo com o relatório produzido pelo Observatório de Mortes e Violências contra LGBTI+. Como debater o orgulho lésbico diante de um contexto de tanta violência contra nossos corpos, vidas e amores? Enfrentamos a invisibilidade, a fome, o lesbocídio, o desemprego, os assédios, a “cura gay”, a violência policial, a ausência de políticas públicas de bem viver. Somos expulsas das nossas famílias, hipersexualizadas, fetichizadas.

Porém, somos impulsionadas pela expansão do nosso amor, na aliança entre mulheres, pelo desejo da memória da resistência, pela subversão do encontro. Somos atravessadas pela luta, com sotaques afiados disputando narrativas em todos os espaços.

Saudamos todas as que abriram os caminhos, quebraram os armários e vestiram as estampas do orgulho lésbico. Sobrevivemos às inquisições do cotidiano, ousamos caminhar diante das fogueiras que tentaram apagar nossas trajetórias. Somos partículas vivas das sapatonas que o patriarcado, o racismo, a lesbofobia e a heterocisnormatividade tentaram apagar e que ecoam em nossas vozes seus sonhos e caminhos.

Somos uma multidão, uma trajetória coletiva! E entre inúmeras referências, gostaríamos de destacar alguns coletivos e militantes que costuram redes afetivas e fortalecem os caminhos da resistência:

– Revista Brejeiras: é um movimento cooperativo de e para lésbicas, que, por meio da revista, amplia imaginários, enfrenta os apagamentos e disputa narrativas sobre as lutas lésbicas. A revista é construída por Camila Marins, Cris Furtado, Laila Maria, Luísa Tapajós e Roby Cassiano.

– Tambores de Safo: Por meio da percussão, o grupo cearense ecoa versos e resistências com muita música, cultura e ocupação das ruas.

– Clipe Sapatão de Favela

– Cidinha Oliveira: nascida e criada no sertão sergipano, em Poço verde, mãe de Duda e ilha de Iansã, é poeta, autora de dois livros digitais “Minha poesia é nossa” e “Atravessamento”

Nosso orgulho está estampado entre velcros, tesouras, couros, beijos, encruzilhadas, desejos, mãos dadas em praça pública e sempre em movimento. Somos caminhoneiras, fanchas, mães e mães solos, negras, indígenas, sapatrans, rachas, não bináries, companheiras. E estamos espalhadas em cada beco, quilombo, favela, terreiro, periferia, igreja, aldeia, escola, rua. Somos visíveis!


Lidi de Oliveira

Multiartista, faz parte do Movimenta Caxias, da Voz da Baixada e é ativista do movimento LGBT

Ana Muza Cipriano

Jornalista e articuladora de território na Secretaria de Políticas Públicas e Promoção da Mulher e fundadora do jornal comunitário “PPG Informativo”

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