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Mia Couto e a escravidão africana de culpa dos africanos

Não é de hoje que Mia Couto possui uma consciência envergonhada do papel que seus fraternos colonos fizeram em Moçambique

Mia Couto (Foto: Mariano Silva/ Divulgação)

Na Folha de São Paulo, lemos o texto “Africanos não foram só vítimas da colonização, afirma escritor Mia Couto”. Nele, podemos ver que “É preciso olhar para a África com sua complexidade, inclusive na margem de culpa que pessoas daquele continente tiveram na história da própria colonização. Quem diz isso é o moçambicano Mia Couto”. A seguir, o texto reproduz declarações sinuosas e escorregadias do escritor como “Os africanos não foram sempre só vítimas, e a aceitação dessa margem de culpa nos dignifica. Porque não nos reduz a objetos na ação de outros. Foi uma história de dominação e genocídio, sim, mas os africanos não foram sempre objetos passivos.”

E mais do escritor: “A simplificação do continente pode ter ajudado quando era preciso afirmar que África tinha cultura e história —nós próprios africanos falávamos de uma África. Mas depois construímos identidades e vozes diferenciadas, somos plurais desde sempre.”

Aqui, mais uma vez, podemos notar que é possível falar grandes mentiras com verdades parciais. Lembram de um anúncio antológico de Washington Olivetto, que reconstruía uma figura terrível com referências elogiosas? O vídeo do anúncio falava com imagens em pontos na tela: “Este homem pegou uma nação destruída. Recuperou sua economia e devolveu o orgulho a seu povo. Em seus quatro primeiros anos de governo, o número de desempregados caiu de seis milhões para novecentas mil pessoas. Este homem fez o Produto Interno Bruto crescer 102% e a renda per capita dobrar. Este homem adorava música e pintura. E quando jovem, imaginava seguir a carreira artística”. Então, os pontos eram reduzidos e surgia a imagem de Hitler, para concluir: “É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade”. O vídeo aqui:

Sem recursos de vídeo de propaganda, podemos olhar de modo mais amplo os pontos da parcial verdade de Mia Couto. Ora, dizer que africanos vendiam escravos africanos, e nesse ponto se deter como uma confissão de culpa, é “esquecer” que esse comércio foi estimulado, criado ou produzido pelos colonizadores portugueses, que acorrentaram homens, mulheres e crianças como bestas e mercadorias na maior migração forçada de povos da história. Historiadores chegam a falar em um número assombroso de 100 milhões de pessoas obrigadas a deixar sua terra natal. É impossível não ver que o tráfico de escravos era a máquina azeitada da colonização para o Brasil. Assim, afirmar de modo cândido, à primeira vista ingênuo, que os africanos têm parte da culpa da escravização, seria semelhante a culpar o operário que vende sua mão de obra ao capitalista. Ele vende, não é? O certo é que essas coisas se pronunciam como se fossem nada, num recurso de retórica que eu diria até fraudulento. Negros escravizaram negros, certo? Sim. Mas nada se fala que brancos levaram negros a vender outros negros como escravos, é ocultar a exploração cruel dos traficantes de Portugal.

Quando Mia Couto afirma que “nós próprios africanos falávamos de uma África, mas depois construímos identidades e vozes diferenciadas, somos plurais desde sempre”, os africanos poderiam muito bem perguntar:

– Nós, quem, cara-pálida?

Na verdade, não é de hoje que Mia Couto possui uma consciência envergonhada do papel que seus fraternos colonos fizeram em Moçambique. E de modo oblíquo, portanto consciente do passo que dá, ele contorna os crimes da colonização na África. Notei isso no Recife, quando veio para uma palestra na UFPE em 24 de outubro de 2012. Ali, Mia Couto, em meio à simpatia e à leveza, falou e construiu uma intervenção mais grave, que, apesar da aparência de convívio para a paz, me abalou como um soco no estômago. Ali, ele falou:

– Vi que anunciaram que eu falaria aqui sobre Literatura, Identidade e Memória. Mas não me preparei, não tive tempo de me preparar. Ou me enganei, ao pensar que me esperava um tema contrário. Penso que seria melhor eu falar sobre Esquecimento. Nisso eu me apoio nos recentes acontecimentos da história do povo moçambicano. Em Moçambique, achou-se melhor o esquecimento dos traumas da guerra. Isso foi uma estratégia para a paz. Para continuarmos a nossa caminhada sem mais guerra.

Ou como os jornais do Recife publicaram no outro dia:

Bem-humorado, o escritor contou que pensava que o tema da palestra tratava de Literatura e Esquecimento, ao invés de Identidade e Memória. ‘Cheguei a certo ponto de minha vida que penso ser melhor esquecer que lembrar’, declarou ele, citando como o processo de esquecimento havia sido importante para que Moçambique superasse a Guerra Civil que assombrou o país durante 16 anos, no sentido de não se manter antigas rivalidades. Ao dizer que o passado era uma construção do que as pessoas inventavam para si próprias, Mia destacou o esquecimento como um caminho para a formação de identidades, deixando claro que cada indivíduo possui identidades plurais”.

Uma frase tão dura, esta de esquecer para alcançar a paz, era mais que um soco, eram balas contra um coração essencial. Ela introduzia a pacificação entre ofensores e ofendidos depois da guerra. Daí que ao ser franqueada a palavra ao público, que se esperava ser tão só de admiradores, pedi o microfone. Então me vi obrigado a romper o clima de confraternização do encontro na universidade. E nervoso, falei mais ou menos o que se segue:

– Mia, você afirmou que no processo de reconstrução de Moçambique se adotou o esquecimento como estratégia para a paz. Você, como escritor, deve escrever melhor do que fala. A sua frase, de esquecer para a paz, é muito perigosa neste momento do Brasil. Aqui estamos em pleno instante da Comissão da Memória e da Verdade. Nós não podemos esquecer, Mia. Note que mesmo o esquecimento, qualquer esquecimento, não é absoluto. Como poderemos esquecer os crimes da ditadura? Pelo que você fala, não teria havido o Tribunal de Nuremberg, nem mais caça aos criminosos nazistas, porque estariam todos esquecidos.

Houve um silêncio constrangido no público.

Depois, ele voltou a Pernambuco para a Fliporto em novembro. No dia 17, ele esteve em um encontro e palestrou ao lado do escritor Agualusa. O auditório mais uma vez lotado. Assisti à sua palestra em um telão do lado de fora. E sem aviso, eis que Mia Couto voltou ao tema da memória, aquela que se esquece para obter a paz. Ou como o traduziu o portal G1:

Durante a conversa, respondendo a diversas perguntas da plateia, o único ponto em que houve discordância foi a respeito da memória. Para Mia, há a possibilidade de ela ser esquecida para evitar erros do passado. Para Agualusa, ela precisa ser encarada de frente. Mia se justifica lembrando da Guerra Civil de Moçambique, que durou 16 anos e deixou 1 milhão de pessoas mortas. “Depois, nunca mais se falou no assunto, como uma esponja que tirou isso da memória. […] As pessoas decidiram colocar a tampa, para os demônios não regressarem. Isso é um desejo maior, que era o desejo da paz”, comentou. “Não faço apologia do esquecimento, mas no caso de Moçambique foi a solução encontrada. A literatura resgata esse tempo e pode fazer essa visita sem apontar dedos ou culpas”, completou.

Na hora, em 17 de novembro fiz anotações em um caderninho. Escrevi:

“A memória é mulher. Ela não esquece. Mia assume a deslembrança de Moçambique. Mia faz relativismo quando fala que a memória recorda também mentiras. Tese cara à mídia reacionária. ‘A lembrança da África é fundada sobre estereótipos vitimistas…’, ele fala, como se fosse um português envergonhado do passado colonial. Mia confirma a palestra da UFPE também, quando faz declarações com frases de efeito, dignas de um artista do entretenimento. ‘A ditadura da realidade é a pior ditadura que podemos ter’, ele diz. A fantasia do distinto público vai ao delírio”

Agora, nesta semana ele volta com o ocultamento de crimes, com a vergonha da crueldade colonial, reduzindo-a a pontos da cumplicidade dos africanos que vendiam africanos como escravos. Ele avançou na sua memória para a paz… Ao fim, observo que essas declarações, das quais às vezes ele se desculpa, não são um lapso. São um sistema. Sistema de omitir os crimes da colonização portuguesa na África. O mundo civilizado devia protestar contra a nova história dessa infâmia.

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