Mulherada equilibrista

O Brasil avançou em arcabouço legal, mas ainda deve um monte à população feminina

FONTEO Globo, por Flávia Oliveira
Flávia Oliveira (Foto: Arquivo/ O Globo)

É na corda bamba da violência extrema e da luta por direitos que se equilibram meninas, jovens e mulheres no Brasil e mundo afora. Num punhado de dias, o estupro de uma adolescente de 15 anos na Baixada Fluminense cometido, filmado e divulgado e, em São Paulo, um crime sexual evitado, porque um motorista de ônibus atento a sinais resgatou a vítima. De um lado, um grupo de estudantes de não mais de 16 anos usando criminosamente a inteligência artificial para produzir e compartilhar fotos de nudez de duas dezenas de meninas, também menores de idade; de outro, o tema de redação do Enem convidando futuros universitários a refletir sobre carga de afazeres domésticos e de cuidados impostos às mulheres desde sempre.

No mesmo planeta em que a guerra de Israel contra o Hamas faz de mulheres e crianças palestinas a maioria dos mortos, trabalhadoras da Islândia fazem greve em casa e na rua por igualdade de renda e contra a violência. Enquanto no Irã jovens são reprimidas e perdem a vida por não usarem o véu islâmico, a iraniana Narges Mohammadi levou o Nobel da Paz, por lutar contra a misoginia, e a americana Claudia Goldin o de Economia, pelos estudos sobre o mercado de trabalho na perspectiva de gênero. Vem da Terceira Lei de Newton o ensinamento: a toda ação, uma reação.

Com altos e baixos, decepções e alento, brutalidade e acolhimento se molda a condição feminina. No Brasil, a igualdade de gênero foi conquista maiúscula do movimento feminista na Constituição de 1988, posto que mulheres, até hoje, são sub-representadas na política — e cada vez mais, dada a desidratação de presença feminina nos ministérios, no STF e nas mudanças ardilosas em curso na legislação eleitoral.

O Brasil avançou em arcabouço legal (leis Maria da Penha, de estupro, feminicídio, importunação sexual, igualdade salarial), mas ainda deve um monte à população feminina, 51,5% dos habitantes. Mulheres, sobretudo negras, são maioria entre desempregados, informais, baixa renda e escassas nas posições de poder e alta remuneração. Carregam como obrigação os afazeres domésticos e as tarefas de cuidados com pessoas. Nas últimas décadas, as brasileiras passaram a ter menos filhos e se escolarizaram. Ainda enfrentam barreiras para entrar e ascender na profissão. De quebra, assumiram o zelo com idosos, porque a longevidade aumentou, mas as políticas públicas para esse grupo etário não.

As barreiras que o mercado de trabalho ainda impõe às mulheres são foco dos estudos que renderam o Nobel à professora Goldin, da Universidade Harvard. Ela reuniu mais de dois séculos de informações nos Estados Unidos para concluir que a diferença salarial para os homens se mantém, mesmo com escolaridade e participação crescentes das mulheres no mundo laboral. A maternidade explica, seja por discriminação, seja pelas atribuições familiares. Haja saúde física e mental.

— Ela foi a terceira mulher premiada com o Nobel de Economia e a primeira a ganhá-lo sozinha. Isso já mostra a dificuldade para mulheres economistas ocuparem espaços. O prêmio foi um grande reconhecimento em três dimensões: a importância da História para pensar questões centrais da economia; a centralidade da agenda de gênero para a economia; a contribuição das mulheres para o avanço do pensamento econômico — celebra a também economista Luciana Servo, terceira mulher e primeira negra a presidir o Ipea.

As pesquisas da Nobel e seu protagonismo sugerem que mulheres têm contribuições importantes a dar ao mercado de trabalho, à formulação de políticas públicas, ao debate econômico, em particular. Mas são quase sempre interditadas por homens que não abrem mão do comando, oportunidades negadas e questões relacionadas às obrigações domésticas e familiares. O trabalho reprodutivo, aquele que se relaciona com casa, crianças, idosos, é invisível, pesado e sem remuneração. Tira perspectivas de prosperidade, confina mulheres à precariedade. As que terceirizam os afazeres do lar para trabalhar fora, não raro, transferem a carga para mulheres negras e/ou de baixa renda, informalizadas, num avatar do sistema colonial.

As funções de cuidado, quando remuneradas, pagam mal. Quase nunca garantem direitos trabalhistas e previdenciários. A repactuação das tarefas domésticas com divisão mais equilibrada entre moradores — hoje mulheres dedicam o dobro do tempo dos homens — emprestaria justiça e horizonte a elas. Políticas públicas de educação integral, atenção aos idosos, formalização para cuidadoras por ofício, igualdade salarial e equidade de gênero e raça nas empresas transformariam um país. Por isso manifestaram-se as islandesas no mês passado; e marcham as negras brasileiras pelo bem-viver todo mês de julho. Esse futuro guarda meninos, rapazes, homens que não farão da misoginia diversão, da violência demonstração de poder.

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